Caso Marielle: em que Ronnie Lessa errou ao tentar esconder provas da morte da vereadora?
O maior erro do ex-policial Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco, estava bem diante dele, sobre a própria escrivaninha em sua casa na Barra da Tijuca. Ao lado da carteirinha da Scuderie Le Cocq, um pedaço de papel guardava uma anotação aparentemente banal: o e-mail de um ex-PM já morto e a senha de acesso ao CCFácil, um site de buscas. Lessa foi condenado, em outubro de 2024, pelo assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes pelo 4º Tribunal do Júri do Rio, no Centro do Rio. Lessa foi condenado a 78 anos e 9 meses de prisão.
Caso Marielle: entenda como será o rito do julgamento na Primeira Turma do STF
No Supremo: o que acusação e defesa vão apresentar no julgamento do caso Marielle que começa terça-feira
A descoberta, feita pela Força-Tarefa Marielle e Anderson, do Ministério Público do Rio (MPRJ), revelou-se decisiva. Quando promotores e policiais federais mostraram a Lessa aquela prova, ele levou a mão à testa e reagiu: “Caramba, deixei isso lá? Eu estava bebendo demais nessa época!”.
O papel quase passara despercebido no meio do material apreendido em 12 de março de 2019, quando Lessa fugira às pressas, de madrugada, do condomínio Vivendas da Barra. Foi apenas numa revisita aos autos, durante a triagem da papelada, que as promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile perceberam o valor daquela anotação.
Terra prometida: traficantes ocupam região que ex-PM diz que receberia pelo assassinato da vereadora
Caso Marielle: em delação, Ronnie Lessa relembra ligações no dia do homicídio e diz que estava ‘ansioso’
A partir do ofício enviado ao site, os investigadores confirmaram que Lessa havia usado aquelas credenciais para pesquisar informações sobre Marielle Franco e sua filha, Luyara. O e-mail em questão era do ex-tenente João André Ferreira Martins, assassinado em março de 2016, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio. Ex-militar e parceiro do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega — chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel —, João havia sido excluído da corporação em 2014, acusado de integrar a máfia dos caça-níqueis na Operação Tempestade do Deserto de 2011, ao lado de Adriano. Há indícios de que também participava do Escritório do Crime.
Embora a prova contra Lessa só tenha sido organizada em 2023, com vistas ao júri marcado para outubro de 2024, sua força foi imediata: serviu como peça-chave para convencer Élcio de Queiroz, motorista da emboscada, a delatar o parceiro e detalhar o papel de cada um no crime. Pressionado pela delação, Lessa não teve saída a não ser admitir sua participação direta na execução de Marielle e Anderson, fechando, enfim, seu acordo de colaboração premiada.
Quem é Ronnie Lessa
Até ser preso, em 12 de março de 2019, Lessa tinha a ficha limpa. Egresso do Exército, ele foi incorporado à Polícia Militar em 1992. Depois, virou adido da Polícia Civil. A prática de cessão de PMs para a corporação começou no início dos anos 2000. Trabalhou na extinta Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), na Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) e na extinta Divisão de Capturas da Polinter Sul.
Foi a partir dessa experiência como adido que Lessa impulsionou sua carreira de mercenário. Como muitos agentes na mesma situação, conhecia mais as ruas que os policiais civis. Destacou-se pela agilidade e a coragem na resolução dos casos.
Ele foi expulso da PM e condenado, em 2021, a quatro anos e meio de prisão pela ocultação das armas que teriam sido usadas no crime, que nunca foram recuperadas. Lessa é réu confesso dos homicídios.
Em 2009, Lessa perdeu uma perna durante uma explosão em um carro em que estava. A suspeita é de que caso tenha acontecido no contexto de guerra entre bicheiros. Com a reforma por invalidez, Lessa deixou de ser adido, mas ainda circulava pelas delegacias da Polícia Civil, principalmente na DRAE.
Executores condenados: juíza diz que sentença é recado a Ronnies e Élcios livres e que justiça seria 'Marielle e Anderson presentes'
'Exímio atirador'
Durante o julgamento de Lessa, peritos destacaram o trabalho do ex-PM como atirador. Portando uma submetralhadora, o ex-PM disparou tiros concentrados no vidro do banco traseiro onde Marielle estava sentada no caminho para casa. Ela foi atingida por quatro balas no rosto, e morreu no local. Os disparos também atravessaram e atingiram o vidro da outra janela traseira. Segundo a acusação, se a assessora Fernanda Chaves, que viajava ao lado de Marielle não tivesse se abaixado, também teria morrido. Os policiais que prestaram depoimento voltaram a o definir como "exímio atirador".
Delação premiada
Em sua delação premiada, homologada pelo STF, Lessa apontou como supostos mandantes do homicídio de Marielle e Anderson o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio (TCE-RJ), Domingos Brazão; seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão; e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa. O acordo foi celebrado em março de 2024. A motivação do crime, segundo o colaborador, seria a grilagem de terras na região de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio.
Initial plugin text
