Lulinha: proximidade do presidente com filho e ex-assessores preocupa no momento em que desdobramentos de investigação apresenta novas denúncias
Edilson Dantas/O Globo - 3/2/2018
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está precificando a corrupção como um dos principais temas da disputa para este ano.
Com os avanços das investigações que envolvem o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, e Fábio Luís da Silva, o Lulinha, há uma análise de que ignorar o assunto está mais difícil a cada dia, por mais que a cúpula petista resista.
Em contrapartida, o PT quer trazer a pauta econômica para o centro do debate e lembrar que o seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), está citado no escândalo do Master.
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Até o início do ano, havia uma leitura de que, tal qual 2022, corrupção não se sobreporia a outros temas, como economia e segurança pública.
Assim que os áudios de Flávio foram revelados, em maio, no entanto, Lula passou a citar a relação direta entre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e “BolsoMaster” se tornou a ponta-de-lança da investida petista contra o senador.
Agora, contudo, a avaliação é que essa ofensiva não é mais uma via de mão única.
A centralidade do tema já ficou evidente nas falas dos outros candidatos.
Na semana passada, Ronaldo Caiado (PSD) afirmou, durante sabatina, que o governo tem trabalhado para “cuidar de Lulinha”, ao passo que cobrou, nas redes sociais, a prestação de contas de Flávio por ter pedido e recebido “uma dinheirama” de Vorcaro.
Renan Santos (Missão) disse que ambos estão “completamente queimados por escândalos de corrupção” e, por isso, “fogem dos debates”.
As defesas de Lulinha e Marcola têm negado irregularidades, além de criticarem os vazamentos seletivos das investigações em curso sobre suposto tráfico de influência.
bJá Flávio Bolsonaro tenta tratar como “página virada” o episódio em que pediu dinheiro a Vorcaro para produzir o filme “Dark Horse”, que trata da trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, avalia que, neste ano, as denúncias têm ritmado o timing das chapas desde a pré-campanha, balizando tanto o comportamento dos candidatos como os seus desempenhos em pesquisas.
“Ao longo de dois, três meses, havia, de forma quase ininterrupta, desgastes na campanha do Flávio.
Ele foi se recuperando porque era distante do momento da eleição”, analisa, fazendo um paralelo com estratégias de futebol.
“Já Lula recuou o time completamente.
O presidente está em compasso de espera para saber [até onde vai] o desdobramento do que está acontecendo em relação a Lulinha e Marcola.”
Reportagem do jornal O Estado de S.
Paulo de domingo (23) diz que Lulinha teria sido o responsável por marcar uma reunião no Planalto em 2024 para o governador do Maranhão, Carlos Brandão, para tratar sobre a liberação de uma obra no Estado.
A informação constaria em mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular da lobista Roberta Luchsinger, trocadas com Lulinha.
Um mês depois, Lula anunciou um pacote de R$ 59 bilhões em obras para o Estado dentro do Novo PAC.
Ao Valor, Brandão nega relação com Roberta e diz que a reunião com Lula em maio de 2024 não “dependeu da articulação de terceiros”.
“É público e notório que o presidente Lula é um grande aliado do Maranhão”, diz o governador.
O advogado de Lulinha diz que não há ato de ilicitude no trecho vazado: "No processo, isso sequer é considerado prova", diz a defesa.
Publicamente, Lula tem insistido que todas as denúncias têm de ser investigadas, em uma contraposição velada à postura de Bolsonaro quando Flávio foi alvo de investigações por conta das “rachadinhas”.
O PT também tem usado a militância e as redes sociais para alegar que, enquanto o senador teve envolvimento direto com o ex-dono do Master, o presidente não tem relação com nenhuma das denúncias sobre o INSS - a sua proximidade com os acusados, filho e ex-chefe de gabinete, entretanto, preocupa.
Como estratégia, o PT tentará pautar a economia como principal tema.
Flávio, no entanto, quer usar o assunto para desgastar Lula.
Um dos caminhos será explorar o atual custo de vida das famílias e as dificuldades enfrentadas pelo setor produtivo, usando como exemplo a recuperação judicial de empresas.
Do lado petista, o governo avalia que a gestão Lula 3 consegue apresentar bons índices econômicos e sociais - em especial em comparação com a administração Bolsonaro.
Mas pesquisas apontam que, mesmo nos estratos sociais impactados por ações do governo, como pessoas com renda de até R$ 5 mil, isentas de Imposto de Renda (IR) a partir deste ano, não houve uma percepção de melhoras na economia como era esperado no Palácio do Planalto.
Há uma reclamação recorrente do próprio presidente, que diz que os benefícios da gestão não têm “chegado na ponta”.
É para esse lado, portanto, que a campanha pretende puxar o debate nacional, tentando desviar do possível impacto das denúncias.
Segundo Prando, o sucesso da estratégia das campanhas dependerá do que está por vir.
“Vai depender muito de três variáveis: como a oposição explorará a comunicação política sobre as denúncias; qual será o tempo de reação e o tipo de resposta de Lula; e se há ou não algum problema que possa comprometer ainda mais o Flávio”, aponta.
No PT, os desdobramentos da crise seguem como uma incógnita, em especial em relação a Marcola.
(Colaborou Beatriz Roscoe)
Caso Lulinha preocupa, e campanha do PT prepara reação
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