Caso Henry: defesa de Jairinho tenta anular laudos de necrópsia e denuncia médico legista à Corregedoria e CRM

 

Fonte:


A defesa do ex-vereador Dr. Jairinho, acusado de matar o enteado Henry Borel, tenta impedir que o Ministério Público utilize os laudos de necrópsia do menino no Tribunal do Júri, que está marcado para o fim do mês. Segundo os advogados, o perito oficial do caso modificou o laudo após debater o caso com uma outra perita que se disponibilizou a ajudar o pai Leniel Borel, sob “anonimato”. Leniel é assistente de acusação no processo e, para a defesa do ex-vereador, a exibição dos laudos no julgamento pode torná-lo nulo. Procurados, Leniel Borel, o Ministério Público e a Polícia Civil negam qualquer manipulação dos laudos.

Caso Rodrigo Crespo: três são condenados a 30 anos de prisão pela morte do advogado

Adolescente apreendido por participar de estupro coletivo em Copacabana é encaminhado ao Degase e aguarda transferência

Neste domingo, completa-se 5 anos da morte do menino. Ele morreu após ser levado por Jairinho e sua então namorada Monique Medeiros a um hospital particular na Barra da Tijuca. Para a promotoria, na noite de 8 de março de 2021, Jairinho, Monique e Henry estavam em casa e o casal queria assistir a uma série na televisão. Com dificuldades para dormir, o menino foi agredido pelo ex-vereador, que causou uma hemorragia interna em Henry. Já Monique teria agido como "agente garantidora", já que sabia das agressões, mas nada fez para impedir.

O casal levou a criança até o hospital, onde ele foi atendido, mas acabou morrendo. A defesa de Jairinho sustenta que o casal encontrou o menino com dificuldades de respirar no quarto e o socorreu imediatamente. Ele teria chegado vivo na unidade e os hematomas que apareceram na criança foram causados pelos profissionais de saúde ao fazerem manobras de ressuscitação em Henry.

No processo, foram incluídas as mensagens do celular do pai de Henry dos dias seguintes à morte do filho. A defesa de Jairinho encontrou conversas dele com seu advogado e uma perita que, segundo os defensores do ex-vereador, colocam dúvidas sobre a credibilidade dos laudos de necrópsia que foram feitos pelo Instituto Médico Legal (IML).

Em 23 de março de 2021, quinze dias após a morte de Henry, Leniel entra em contato com a perita Gabriela Graça, legista da Polícia Civil do Rio. Ele pede ajuda à médica, que aceita ajuda-lo a pedido de delegados, sem citar nome de nenhum policial. Em seguida, ela diz ter entrado em contato com o advogado de Leniel e já estar trabalhando. No dia seguinte diz que ficará "no anonimato": "Não é bom eu aparecer. Vou evitar falar contigo também, tá?!", escreveu a legista.

Em um áudio enviado a Leniel, seu então advogado ainda confirma que "fechou com a Gabriela" e que ela estava "disponível" para ajudá-los e já tinha passado as "orientações" para a perita escrever.

O laudo de necrópsia foi atualizado seis vezes pelo médico legista Leonardo Huber Tauil, responsável pelo caso no IML, em mudanças fetias até 45 dias depois da morte. Em depoimento em juízo, ele afirmou que realizou algumas alterações após conversar com outros peritos legistas do IML, entre eles Gabriela Graça.

— Pedi ajuda para debater as razões e poder afirmar com mais segurança — contou durante a audiência de Instrução e Julgamento do caso no Tribunal do Juri.

Cremerj apura

Os advogados alegam também que ele confirmou em juízo "que poderia ter sido mais detalhista" nos laudos e afirmou não saber a origem das fotos do corpo que foram juntadas no processo e que ele se desfez das anotações pessoais do caso. A defesa de Jairinho abriu representações contra o legista na Corregedoria da Polícia Civil e no Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) pedindo que a conduta dele no caso seja investigada. O Conselho afirma que instaurou uma sindicância para apurar os fatos e que o "procedimento corre em sigilo, conforme os ritos obrigatórios do Código de Processo Ético-Profissional".

— Pelo menos os laudos que foram feitos semanas depois da necropsia e após as conversas extraídas dos celulares de Leniel e de seu advogado deverão ser anulados. O perito admitiu que alterou um dos laudos, elaborado em 20/04/2021, após contato com a perita Gabriela Graça. E as mensagens demonstram justamente que essa mesma perita passou a auxiliar a acusação um mês antes, o que indica, sem sombra de dúvidas, que interesses particulares interferiram na conclusão da perícia oficial da Polícia Civil — afirmou o advogado Rodrigo Faucz.

O pai de Henry, Leniel Borel nega ter atuado para manipular qualquer documento. Ele diz que a alegação de Jairinho é uma tentativa de tumultuar o processo para tentar adiar o juri.

— Repudio de forma absoluta qualquer insinuação de que eu tenha tentado interferir em perícias ou direcionar laudos no caso do meu filho. Durante todos esses anos, a minha única atuação foi a de um pai devastado, mas determinado a buscar a verdade e a Justiça. Nunca tentei manipular prova e nunca atuei fora dos meios legais e institucionais. Confio no trabalho das instituições, na atuação das autoridades e no crivo do Tribunal do Júri. Meu compromisso continua sendo com a verdade, com a memória do meu filho e com o devido processo legal — afirmou Leniel.

O promotor Fábio Vieira diz que as defesas tentam, desde o início do processo, tumultuar a ação.

— O Ministério Público não visualiza qualquer irregularidade na condução dos atos processuais. O que se verifica, em verdade, é que o pai da vítima buscou, por todos os meios disponíveis, que as autoridades públicas atentassem para os fatos que vieram a constituir o presente processo — diz o promotor.

Procurada, a Polícia Civil também negou que os peritos tenham manipulado os documentos. Em nota, a corporação diz que a investigação "seguiu critérios técnicos" e que "após o laudo inicial, outros exames complementares e consultas foram realizados, a fim de esclarecer o ocorrido". A PCERJ diz ainda que "desde o primeiro momento, a causa da morte ficou muito clara, explicitando que o menino foi vítima de violência" e que repudia "qualquer tentativa de descredibilizar o trabalho da instituição e de seus profissionais com o único intuito de beneficiar dois criminosos que, de maneira covarde, mataram uma criança".

Initial plugin text