A defesa da família de Giovanna Coelho, de 29 anos, afirma que mensagens trocadas entre a jovem e a secretária do cirurgião plástico André Melo, identificada como Karol Cardoso, foram apagadas e que o conteúdo do celular poderá ajudar a esclarecer o que aconteceu nas horas que antecederam a morte da paciente.
O aparelho foi entregue espontaneamente pela família à Polícia Civil para realização de perícia.
A reportagem do Grupo Liberal tenta localizar Karol Cardoso ou a defesa dela para ouvir a sua versão sobre os fatos.
Segundo o advogado Marco Pina, que representa os familiares, Giovanna mantinha contato com a secretária do médico durante o período pós-operatório e utilizava esse canal para relatar o que estava sentindo.
De acordo com a defesa, parte das mensagens que estavam no celular teria sido excluída pela secretária.
“Nós apresentamos de maneira espontânea o celular à autoridade policial para que seja feita a devida perícia, já que a Giovanna tinha um grupo juntamente com a secretária do doutor André Melo, que era a pessoa que ela tinha contato”, afirmou Marco Pina.
O advogado também afirmou que a família identificou a exclusão de mensagens e disse que a perícia poderá ajudar a esclarecer o conteúdo que estava armazenado no aparelho.
“Muita coisa de lá vai ser extraída, muito embora essa secretária, não sei por que, ela apagou, ela excluiu várias mensagens”, declarou.
Família questiona atuação da secretária
Além da suposta exclusão das mensagens, a família de Giovanna também questiona a atuação da secretária durante o período em que a jovem começou a apresentar fortes dores após a cirurgia.
Segundo a médica oftalmologista Ana Caroline Coelho, irmã da vítima, Giovanna começou a passar mal durante a noite e utilizou os canais de contato disponíveis para pedir ajuda.
De acordo com o relato da família, a jovem não tinha acesso direto ao WhatsApp do cirurgião e dependia da secretária e da clínica para tentar obter orientação.
Ana Caroline afirma que Giovanna relatava dores intensas e pedia socorro, mas recebia como resposta que os sintomas seriam normais do período pós-operatório.
“Giovanna começa a passar mal 11 horas da noite.
Manda mensagem para a clínica, pede socorro.
Manda mensagem para a amiga, pede socorro, das quais todas respondem que é normal e que só vão disponibilizar o número do médico a partir das seis horas da manhã”, relatou.
Segundo a irmã, Giovanna continuou apresentando piora e chegou a dizer que não suportaria as dores.
A família afirma que, mesmo diante das queixas, não houve uma resposta que considerasse a gravidade do quadro naquele momento.
“A minha irmã pede socorro.
Socorro.
Muitas dores.
Ela diz que não vai aguentar.
Começa uma luta incessante a ligar para o médico assistente e a tentar buscar o médico assistente no hospital que ela está”, afirmou Ana Caroline.
A família considera que a atuação da secretária também deve ser analisada pela investigação, principalmente em relação às mensagens trocadas com Giovanna e à forma como os pedidos de ajuda foram respondidos.
Celular será analisado pela Polícia Civil
O celular deverá passar por perícia para que os investigadores possam verificar as conversas mantidas por Giovanna antes da morte.
A expectativa da defesa é que a análise contribua para estabelecer uma cronologia dos acontecimentos e identificar os contatos realizados pela jovem durante o período pós-operatório.
A Polícia Civil informou que já vem reunindo e preservando elementos relacionados ao caso.
Segundo o delegado Diego Pinheiro, relatos publicados nas redes sociais por pessoas que afirmam ter enfrentado problemas semelhantes também foram materializados no inquérito e poderão ser analisados.
A investigação busca reconstruir a sequência dos fatos desde o período pré-operatório até a cirurgia e o pós-operatório, confrontando depoimentos, prontuários, mensagens e demais documentos.
Prontuário também está sob análise
Nesta quarta-feira (19), o Hospital Beneficente Portuguesa entregou à Polícia Civil o prontuário médico de Giovanna.
O documento será analisado pelos investigadores, que também aguardam o laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) para auxiliar na determinação da causa da morte.
A irmã da vítima, Ana Caroline, afirmou que uma análise inicial do prontuário levantou questionamentos sobre horários e registros de assistência.
“É um prontuário bem denso, bem extenso.
Eu tive acesso a ele agora pela manhã, então ainda estou estudando ele.
Mas existem muitas inconsistências de horário, de assistência, de solicitação de assistência e de deixar de dar assistência”, declarou.
A Polícia Civil ainda deverá ouvir outros profissionais envolvidos no atendimento de Giovanna.
O cirurgião plástico André Melo, que está na condição de investigado, deveria ter prestado depoimento nesta quarta-feira, mas não compareceu à Seccional do Comércio e será novamente intimado, segundo o delegado Diego Pinheiro.
Relembre o caso
Giovanna Coelho Gomes, de 29 anos, morreu após ser submetida a procedimentos estéticos, como abdominoplastia, lipoaspiração, colocação de prótese de mama e enxerto de gordura nos glúteos, realizados em um hospital de Belém.
A cirurgia ocorreu na sexta-feira (7) e, no dia seguinte, Giovanna sofreu três paradas cardíacas.
Ela morreu no sábado (8) e foi sepultada na segunda-feira (10).
A família questiona a condução do procedimento e do atendimento no período pós-operatório e afirma que houve omissão e negligência por parte de pessoas envolvidas na cirurgia e no acompanhamento da paciente.
Entre os nomes citados pelos familiares estão o cirurgião André Melo, a secretária dele, Karol Cardoso, e o anestesista Cesar Collyer.
As acusações são feitas pela família e ainda estão sendo investigadas pela Polícia Civil.
Segundo relatos de uma amiga de Giovanna, Jaqueline Duarte, a jovem inicialmente faria a cirurgia com outro médico, mas teria mudado de profissional após conhecer Karol Cardoso, que teria incentivado a realização dos procedimentos com André Melo.
A família também questiona a realização dos quatro procedimentos em uma única cirurgia e afirma que Giovanna não teria recebido o acompanhamento médico esperado após deixar o centro cirúrgico.
Ainda conforme os relatos, Giovanna começou a apresentar dores, vômitos e mal-estar poucas horas depois da cirurgia.
A família afirma que tentou acionar profissionais do hospital e integrantes da equipe médica, mas que os sintomas teriam sido tratados inicialmente como reações normais do pós-operatório.
Mensagens encontradas no celular da jovem também são apontadas pela família como elementos que podem ajudar a esclarecer a evolução do quadro.
Na manhã de sábado, o estado de saúde de Giovanna teria se agravado.
Segundo a família, ela apresentava sinais de intenso sofrimento e alterações nos sinais vitais antes de sofrer as paradas cardíacas.
André Melo teria participado do atendimento durante uma das paradas, enquanto outros profissionais foram posteriormente acionados pela família para auxiliar na tentativa de reanimação.
A Polícia Civil do Pará, por meio da Seccional do Comércio, investiga as circunstâncias da morte.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará (CRM-PA) também informou que instauraria procedimento apuratório para verificar os fatos.
Os procedimentos administrativos do Conselho tramitam sob sigilo.
