Caso em salão de beleza levanta discussão sobre corte de cabelo e crescimento dos fios

 

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Uma discussão em um salão de beleza na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo, terminou em violência na tarde de terça-feira (5) e levantou reflexões sobre expectativas, insatisfação e os limites das relações entre profissionais e clientes no universo da beleza. Uma mulher de 27 anos foi detida após atacar um cabeleireiro com uma faca dentro do estabelecimento, segundo informações da ocorrência registrada na Avenida Marquês de São Vicente.

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O episódio foi registrado por câmeras de segurança do salão. Nas imagens, o cabeleireiro Eduardo Ferrari aparece atendendo outra cliente quando é surpreendido por Laís Gabriela Barbosa da Cunha, que havia retornado ao local após um procedimento realizado cerca de 30 dias antes. Ela se aproxima, inicia uma conversa e, em seguida, retira uma faca da bolsa, atingindo o profissional pelas costas. Ele se afasta imediatamente, enquanto funcionários e seguranças contêm a agressora.

Após ser detida, Laís afirmou que voltou ao salão por insatisfação com o resultado do corte, especialmente na franja. "Ele pegou o meu cabelo e foi picotando com uma tesoura-navalha. Se vocês conseguem ver, a minha franja está parecendo o Cebolinha, porque ele cortou todo o meu cabelo. Eu mandei mensagem do Whatsapp e eles ficaram dois dias sem me responde", disse, em referência ao personagem da Turma da Mônica.

Em nota publicada nas redes sociais, a equipe de Eduardo informou que a cliente retornou ao salão demonstrando insatisfação e solicitando a devolução do valor pago pelo serviço.

Laís Gabriela Barbosa da Cunha esfaqueou cabeleireiro por não gostar de franja

Reprodução Instagram

O caso também reacendeu um debate recorrente no setor de beleza sobre o descompasso entre expectativas criadas por referências visuais, muitas vezes vindas das redes sociais, e a realidade técnica dos procedimentos capilares. Em um cenário em que transformações rápidas e mudanças radicais se tornaram comuns, profissionais apontam a importância de alinhar possibilidades reais do fio antes de qualquer intervenção.

A visagista Kelly Taise, do Espaço Hi, ressalta que, independentemente da insatisfação no caso, não há justificativa para o episódio de violência. Ela também chama atenção para um ponto central da prática profissional: a escolha de técnicas e ferramentas deve sempre levar em conta a condição real do fio no momento do corte.

Segundo Kelly, instrumentos como navalha e tesoura fio navalha fazem parte do repertório dos profissionais e podem ser utilizados para criar leveza e movimento. Ainda assim, nem sempre são adequados para cabelos fragilizados.

"A navalha e a tesoura fio navalha existem dentro da área profissional e são utilizadas em alguns tipos de corte para trazer leveza, movimento e desconexão. Porém, na minha visão técnica, não é o tipo de ferramenta mais indicada para um cabelo extremamente sensibilizado", explica ao GLOBO.

A especialista observa que processos químicos como descoloração, alisamentos ou incompatibilidades entre procedimentos podem comprometer a estrutura do fio, deixando-o mais vulnerável a danos.

"Quando o cabelo passa por descoloração, ele perde muita resistência. E, se existir histórico de progressiva, botox capilar ou incompatibilidade química, esse fio pode ficar ainda mais fragilizado, chegando ao emborrachamento e à quebra, o que conhecemos como corte químico", afirma.

Nessas situações, o uso de técnicas de desfiado mais agressivas tende a acentuar a fragilidade, especialmente em áreas sensíveis como a franja.

"Nesses casos, desfiar um cabelo já fragilizado com fio navalha pode piorar muito a estrutura visual do fio, porque esse tipo de ferramenta acaba ‘rasgando’ mais a fibra capilar. Principalmente na região da franja, onde normalmente existem fios mais finos, frágeis e sensíveis à quebra", detalha.

Kelly indica que já existem alternativas mais seguras para criar movimento sem comprometer a estrutura do cabelo, como técnicas mais pontuais e menos invasivas. "Hoje existem técnicas mais seguras para criar leveza sem comprometer tanto a estrutura do cabelo, como point cut e slice, que trazem movimento sem agredir tanto o fio", diz.

Para além da técnica, a visagista aponta um movimento crescente no setor: a pressão por transformações rápidas inspiradas em referências das redes sociais, o que, segundo ela, pode levar a escolhas pouco sustentáveis para a saúde capilar.

"O que eu acredito é que hoje existe uma pressão muito grande em cima dos profissionais para entregar transformações rápidas e cabelos inspirados nas redes sociais. A mulher brasileira é muito ousada quando o assunto é mudança de cabelo e, muitas vezes, quer atingir determinados resultados a qualquer custo", comenta.

Nesse cenário, ela observa que alguns profissionais acabam ultrapassando limites técnicos para atender expectativas imediatas, o que pode gerar frustração posterior.

"Muitas vezes, o cabelo fica bonito no salão, finalizado, escovado, iluminado e preparado para foto, com luz adequada e finalização profissional. Mas a verdadeira resposta do cabelo vem depois, quando a cliente chega em casa e lava os fios. É nesse momento que surgem quebra, elasticidade, ressecamento e frustração", pontua.

Kelly reforça ainda que a experiência profissional também envolve a capacidade de estabelecer limites e orientar o que é ou não viável para a saúde do fio. "Eu mesma precisei construir um posicionamento profissional de entender que, muitas vezes, dizer ‘não’ para uma referência de internet é o que preserva a saúde do cabelo e a confiança da cliente a longo prazo", relata.

E defende uma mudança de mentalidade no setor, com mais foco em durabilidade e integridade do fio do que em transformações imediatas:

"Acredito que esse é um caminho importante para os profissionais hoje: pensar menos na transformação imediata e mais na durabilidade, na segurança química e na saúde real do fio. O cabeleireiro precisa ter sinceridade para dizer ‘não’ quando o cabelo não suporta determinado processo, porque beleza não pode vir acima da integridade do cabelo."

Laís Gabriela Barbosa da Cunha não gostou de corte de cabelo em SP

Reprodução Instagram

Sobre os efeitos de cortes e possíveis impactos no crescimento dos fios, o entendimento entre profissionais é de que o processo não é determinado pelo tipo de corte, mas por fatores biológicos e pela saúde geral do organismo. O médico especialista em queda de cabelo e transplante capilar Vlassios Marangos explica que o crescimento dos fios varia de pessoa para pessoa e está relacionado a diferentes condições internas.

"O crescimento capilar acontece de forma gradual e varia de pessoa para pessoa, mas, em média, o cabelo cresce entre 1 e 1,5 centímetro por mês. Esse processo depende de fatores como genética, alimentação, equilíbrio hormonal, qualidade do sono e saúde do couro cabeludo. Quando há deficiências nutricionais, estresse excessivo ou doenças associadas, esse ritmo pode diminuir significativamente", afirma.

Ele esclarece que o tipo de corte não interfere na velocidade de crescimento, já que o fio nasce na raiz, dentro do folículo capilar. "O crescimento acontece na raiz, dentro do folículo capilar, e não nas pontas", diz.

De acordo com o especialista, a manutenção dos fios pode influenciar a aparência geral do cabelo e a percepção de comprimento. "O que acontece é que cortes regulares ajudam a eliminar pontas duplas e fios quebradiços, dando a sensação de um cabelo mais saudável, encorpado e com crescimento mais uniforme. Quando o fio quebra menos, a pessoa percebe melhor o ganho de comprimento com o passar do tempo", completa.