'Casita' de Bad Bunny no Super Bowl foi criada por designers argentinos que vendiam empanadas para sobreviver em Hollywood

 

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Bad Bunny não apenas passou pelo Super Bowl: ele se apropriou dele. No domingo (8), durante o show do intervalo da grande final anual da NFL, o artista porto-riquenho transformou um dos palcos mais assistidos do planeta em uma festa latina, totalmente em espanhol e com identidade plena. Foi um espetáculo, mas também houve uma mensagem clara, principalmente diante do momento atual vivido nos Estados Unidos, com uma das maiores perseguições a imigrantes latino-americanos. E, no centro da cena, voltou a aparecer seu símbolo mais marcante: a famosa casita.

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Mas essa pequena propriedade não foi apenas um símbolo de identidade porto-riquenha e latino-americana para o público. Por dentro, o coração da casa foi desenhado por dois argentinos: Federico Laboureau e Maximilian Pizzi, diretores de arte e designers de produção radicados em Los Angeles há mais de uma década.

Neste momento, o contexto é importante. Benito Antonio Martínez Ocasio, conhecido como Bad Bunny, vinha de ganhar o Grammy 2026, apenas uma semana antes, na categoria Álbum do Ano por "Debí tirar más fotos", um marco histórico: foi a primeira vez que um disco inteiramente em espanhol levou o prêmio principal.

Além disso, o cantor vinha assumindo uma posição política, com críticas explícitas a Donald Trump e com a frase “ICE fora” ao receber o prêmio. A declaração faz referência às prisões e deportações realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), seguindo as duras políticas migratórias do presidente republicano.

Bad Bunny no SuperBowl

Reprodução/X

“Meu nome é Benito Antonio Martínez Ocasio”, apresentou-se à multidão em espanhol. “E se hoje estou aqui no Super Bowl 60 é porque nunca, nunca deixei de acreditar em mim, e você também deveria acreditar em si mesmo; você vale mais do que pensa”, disse ao público, olhando fixamente para a câmera.

No Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia, ele prometeu fazer história — e cumpriu. Começou com sucessos como “Tití me preguntó” e “Yo perreo sola” e depois subiu ao teto da Casita, uma réplica de uma casa porto-riquenha que já se tornou marca registrada de sua turnê. Embaixo, na porta da casa, havia convidados de luxo: Cardi B, Jessica Alba, Pedro Pascal, Karol G, Young Miko, David Grutman, Alix Earle, entre outros, dançaram ao ritmo caribenho.

O momento mais poderoso do show do intervalo do Super Bowl chegou perto do final, quando o artista mencionou todos e cada um dos países do continente americano, do sul ao norte. “God Bless America (Deus abençoe a América)”, disse antes de fazer a enumeração, da Argentina ao Canadá.

No encerramento do show, enquanto pulava de alegria com os artistas que o acompanharam no evento, a frase “O único mais poderoso que o ódio é o amor” aparecia em inglês no telão.

Tudo isso acontece enquanto Bad Bunny consolida seu lugar como o primeiro artista latino a fazer turnês em estádios ao redor do mundo. A Debí tirar más fotos World Tour é a prévia desse salto definitivo. Na Argentina, a chegada já tem data marcada: 13, 14 e 15 de fevereiro de 2026, no estádio do River Plate.

A história por trás do palco

A Casita não é apenas cenário, é identidade — assim o cantor a idealizou. Trata-se de uma réplica de uma casa tradicional do interior de Porto Rico, que funciona como palco secundário durante os shows da turnê Debí tirar más fotos. Ali, Bad Bunny canta versões acústicas, interage com o público e cria o que ele próprio define como uma festa de varanda.

A casa mede 12,8 metros de cada lado, tem dois andares e pode abrigar mais de 60 pessoas ao mesmo tempo. Durante a segunda parte do show, ela se torna o centro mais emocional dos concertos.

Federico Laboureau com Bad Bunny dentro da casita criada para show do porto-riquenho no Super bowl

Divulgação/La Nacion

A primeira aparição da Casita foi nos vídeos que acompanharam o lançamento de "Debí tirar más fotos", no início de 2025. Depois, passou a fazer parte da residência No me quiero ir de aquí, apresentada no Coliseu de Porto Rico José Miguel Agrelot.

O design externo ficou a cargo da artista de produção Mayna Magruder, junto com a diretora de arte Natalia Rosa, que transformaram uma casa real localizada em Humacao em uma estrutura funcional para o palco. Cada detalhe homenageia Porto Rico: da estética rural ao clima de reunião familiar. Para isso, inspiraram-se no Cerro Mime para compor a paisagem montanhosa da Cordilheira Central.

“Sempre achei estranho o VIP. Aquele glamour meio esquisito. Então pensei: como tornar isso divertido? O VIP vai ser a Casita. Com sua cozinha, seu sofá, tudo. Que seja parte do show”, explicou o próprio Bad Bunny à Billboard.

E ele conseguiu. Desde o início da turnê, passaram pela Casita artistas como Belinda, Tokischa, The Marías, Maluma, Rauw Alejandro, Residente, Ozuna, Marc Anthony, Bizarrap, LeBron James, Penélope Cruz, Javier Bardem, Juanes, entre muitos outros — um desfile que mistura música, esporte, cinema e cultura pop.

Quem são os argentinos por trás da casita?

Federico Laboureau e Maximilian Pizzi, um casal de argentinos que vive em Los Angeles, foram responsáveis por criar o interior da casita exclusivamente para o show do intervalo do Super Bowl — e não se tratava apenas de decorar um set, mas de reconstruir uma memória.

Enquanto Federico trabalhava em projetos para a Netflix e para o Actor Awards, recebeu uma ligação em dezembro.

— Me pediram para reservar uma data porque vinha algo grande, mas não me diziam o quê. Eu chutava nomes: Lady Gaga, Rihanna. Até que me disseram que era com Benito (Bad Bunny). Fiquei emocionado: seria a primeira pessoa a desenhar o interior da Casita — contou ao jornal La Nación, de Los Angeles.

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A estrutura externa já existia. Por dentro, era uma caixa vazia, porque o interior nunca havia sido projetado.

— Tinha três janelas e duas portas, mas ninguém tinha visto o que havia dentro. Me pediram para reconstruir a casa de uma vovó porto-riquenha.

O pedido se conectou imediatamente com sua própria história:

— Tenho 42 anos e fui criado pela minha avó. Então fazer a casinha de uma avó me pareceu incrível.

A partir daí, Laboureau começou a pesquisar o que as avós latino-americanas têm em comum: a caixa de costura, a lata de biscoitos, as flores de plástico, a porcelana, as lembranças acumuladas.

— Era preciso reproduzir a casa da avó de Benito, que era a de uma avó de Porto Rico.

Ele apresentou os planos, recebeu correções mínimas e o design foi aprovado. A versão vista no Super Bowl foi exclusiva para o evento.

A equipe de Bad Bunny validou cada detalhe.

— Enviaram para uma pessoa em Porto Rico e ela disse: ‘é exatamente assim’. Literalmente, era a casa de uma avó porto-riquenha.

Houve até espaço para o designer colocar sua marca pessoal: uma paleta com mais rosa do que o esperado.

— Azulejos com gatinhos, coelhos, cortinas rosas. Todo esse toque rosa é o que mais gosto. Me deixaram voar.

Empanadas como saída para a crise

Mas o caminho até o Super Bowl não foi linear nem glamouroso.

— Somos designers de produção, desenhamos sets para televisão. Vivemos em Los Angeles há 12 anos — conta Laboureau.

A indústria audiovisual americana entrou em crise após conflitos sindicais e paralisações que abalaram Hollywood.

— Não chegamos a entrar em greve, mas os sindicatos se rebelaram. Durante quase dois anos, grandes corporações como Netflix ou Amazon foram gravar em outros países e estados. Los Angeles ficou sem trabalho.

Imagem renderizada feita do interior da 'casita' de Bad Bunny no Super Bowl

Divulgação/La Nacion

Nesse contexto, Federico e Maximilian já tinham comprado sua casa, mas a estabilidade começou a ruir.

— Fomos para o Japão nesse meio-tempo e, quando voltamos, começamos a fazer empanadas.

Dessa reinvenção nasceu um restaurante 100% argentino, que hoje funciona como ponto de encontro da comunidade, com estilo de bodegón e apoio da Câmara Argentina da Carne.

— O Fuegos LA começou com empanadas e hoje é uma extensão da nossa casa — afirma o designer.

— Eu cheguei buscando o sonho americano e hoje os Estados Unidos perderam a máscara. Em Los Angeles já não se vive com conforto. Antes ninguém falava de política ou economia, agora sim.

Nesse contexto, ter feito parte de um show totalmente em espanhol — em meio a declarações de Donald Trump de que no país “só se fala inglês” — teve um enorme peso simbólico para o casal argentino.

— Isso foi mostrar a força latina. Latinos que trabalham, constroem empresas, criam estúdios, faturam milhões. Tudo o que a América Latina me ensinou é incrível. A apresentação de Benito foi isso.

Hoje, depois de se reinventar com seu restaurante argentino, Laboureau escolhe quais projetos de design quer realizar — e a Casita do Super Bowl foi um deles.