Casagrande estreia no teatro com boas histórias, das cômicas que viveu com Baby Consuelo, Rita Lee e Fagner, às dramáticas
De All Star preto cano alto, camisa e calça pretas, os óculos de lente amarela e os anéis de caveira nos dedos, Walter Casagrande Junior chegou sereno, na manhã da última sexta-feira, a Curitiba, onde faria em algumas horas uma grande estreia. Abraçou um fã no saguão do hotel, fez pequenos acenos gentis, típicos de quem sabe que está sendo notado. Ele está na capital paranaense para apresentar pela primeira vez seu espetáculo “Na marca do pênalti”, descrito na sinopse como um “monólogo de autoficção”, no qual o ex-jogador de futebol narra sua trajetória pessoal e profissional marcada por altos e baixos. Foram duas sessões, na sexta e ontem, no Teatro Guaíra, como parte da programação principal do Festival de Curitiba. Duas grandes sessões de terapia.
Quando atendeu a imprensa em entrevista coletiva dada no fim da manhã de sexta, Casão adiantou que não se tratava de uma peça de teatro convencional.
— Não tem roteiro definido, não tem texto, eu vou contando as histórias da minha cabeça — afirmou o ídolo do Corinthians.
Camisas do Corinthians
Também não houve ensaio, somente cafés com Fernando Philbert, experiente dramaturgo e diretor que assina a direção, idealização e dramaturgia da peça. Mas que dramaturgia, se não há roteiro nem texto definido? Philbert explica:
— A linha de dramaturgia é o tempo da vida dele. Só que muitas vezes não tem ordem cronológica — diz o diretor ao GLOBO. — Mas não é algo assim “ah, estamos improvisando”, não, tem um conceito teatral. O Boal (Augusto Boal, diretor e dramaturgo), que pesquisou a vida toda, dizia isso, que todos nós quando saímos de casa estamos atuando. Você sai da sua casa, escolhe uma camisa por um motivo, o que você fala, você faz seu texto, você está se dirigindo, então isso é, sim, um recurso teatral — conclui.
Casagrande: 'Eu vou contando as histórias da minha cabeça'
Annelize Tozetto / Divulgação
Casão também havia cantado outra bola:
— Vai chegar uma hora que nada mais vai passar na minha cabeça, acabou, não tem mais o que ficar prolongando. Se parar de passar na minha cabeça, eu não vou falar mais nada.
E foi mais ou menos assim mesmo. Havia no Guaíra um público levemente diferente do que as grandes estreias costumam reunir ali — mais homens, no geral, muitos fãs de futebol, camisas do Corinthians e de outros clubes espalhadas pela plateia, que continuou iluminada mesmo após o início do espetáculo. Um compilado com fotos e vídeos de Casagrande abriu a peça, já emocionando o protagonista de cara. Aplaudidíssimo, Casão começou a contar.
Overdose e recuperação
É inegável: Casagrande é um ótimo contador de histórias. E não lhe faltam histórias — as engraçadas, que envolvem bastidores não só do futebol mas também da vida artística dos anos 1980, e as trágicas, que dão conta do período sombrio da vida de Casão, que conviveu com a dependência química por mais de 30 anos. Ele fala das experiências com uma tranquilidade específica de quem já passou pelo inferno. “Eu via demônios”, disse o ex-atleta, em uma das passagens em que narra sua vivência com a droga. Foram três quadros de overdose, um deles vivido na frente de um dos filhos. Anos a mil que culminaram numa internação — o início da recuperação. “Só estou aqui hoje porque estou sóbrio”, diz Casagrande à plateia.
O público se emociona com a fragilidade exposta naquele gigante de 1,91 metros, mas também ri com seus casos que envolvem nomes famosos, como Fagner, Rita Lee, Gonzaguinha, entre outras personalidades. Seu romance recente com Baby Consuelo, detalhado de maneira inédita, arranca gargalhadas. Um dos pontos altos da peça.
Mas há detalhes para acertar. Ainda que não tenha roteiro definido, fica a sensação de que a história se perde em alguns momentos. Não fica muito claro em quais períodos da vida do craque alguns episódios aconteceram, como a internação, por exemplo. Também fica uma impressão de que certas coisas ficaram de fora. No telão, mostrou-se muito, entre tantos amigos, várias fotos de Casagrande com Marcelo Fromer, e portanto parecia que ele ia falar algo sobre o guitarrista do Titãs, que morreu em 2001 depois de ser atropelado por uma moto. Não falou. As inserções de vídeos no telão, bem como as entradas das músicas ao longo da peça, merecem melhor sincronização: quase todas aconteceram afobadas, passando por cima do texto (ou não texto) de Casagrande.
O saldo, no entanto, pareceu positivo. Um desfile de boas histórias que fecha um ciclo de maneira simbólica. Casagrande já havia dito na coletiva que se tornou “viciado” em teatro desde que, após a internação, teve de se ressocializar aos poucos. Trocou a dependência química pela artística, como público. Agora, no palco, experimenta pela primeira vez o sabor de entreter, ainda que a obra se aproxime mais da “palestra-performance”, termo usado por Fernando Philbert, do que de uma peça tal qual conhecemos.
— Esse monólogo é emocional, ferve, porque é feito de emoção do começo ao fim — define Casagrande.
* Ricardo Ferreira viajou a convite do Festival de Curitiba
