Casa de Malandro: a história do bar que virou escola de samba e ganhou o Grupo de Avaliação no primeiro carnaval
O relógio já se aproximava da 1h30 da manhã da Quarta-Feira de Cinzas quando a Casa de Malandro entrou para desfilar no Grupo de Avaliação com 600 componentes, na Intendente Magalhães, como a última escola da noite, para conquistar o título. A quinta divisão do carnaval carioca é por vezes um fim da linha para escolas que entraram em decadência nos últimos anos. No caso da Casa de Malandro, foi a porta de entrada para uma agremiação que até meses atrás era um bar temático na Lapa, especializado em tocar músicas que remetem a religiões de matriz africana.
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— Em todas as escolas de samba, encontramos adeptos da macumba. A Casa de Malandro é totalmente diferente. Todo mundo é do povo do axé. Outra diferença é que na história é comum encontrarmos agremiações que surgiram a partir de conversas em barzinhos. Nunca um botequim virou escola de samba — explica um dos autores do samba-enredo, Jorge Eduardo Porto, o Jorge do Batuke, que é da ala de compositores da Portela. — Essa pode ser a explicação porque lá o clima é diferente. Na final do samba-enredo, paguei no ensaio três vezes mais cerveja para a galera do que numa disputa tradicional.
Ajuda espiritual
Na carreira, o compositor já ganhou três disputas de samba de terreiro e foi um dos autores do samba que a Portela levou para a Sapucaí em 2019 ("Na Madureira Moderníssima, Hei Sempre de Ouvir Cantar Uma Sabiá"). No composição para a Casa de Malandro, ele afirma que recebia dicas de uma entidade espiritual chamada José Esquina para compor o samba. Entre a crítica especializada, a melodia foi considerada uma das melhores dos grupos de acesso e a letra viralizou a partir de uma gravação feita pelo influenciador digital André Samba Enredo.
Vários componentes que desfilaram na escola têm experiência em outras agremiações. Um deles, conhecido como Falcão, acumulou postos na direção de carnaval na Casa de Malandro e na Unidos do Viradouro, campeã do Grupo Especial deste ano. O carnavalesco Marcus Ferreira também assinou o carnaval da União da Ilha, que desfilou na Série Ouro. Também cedido pela União da Ilha, veio o coreógrafo da da comissão de frente, Júnior Scapin.
Seja pela experiência dos diretores que tem papéis estratégicos em escolas tradicionais do carnaval ou pela ajuda espiritual das entidades do Zé Pilintra e Maria Navalha, que receberam oferendas na concentração (cerveja, vela e cigarro) da Intendente Magalhães, a Casa de Malandro fez bonito. Competiu com 14 agremiações adversárias e levantou o título com 179,5 pontos com o enredo "Quem bebe marafo não pega feitiço". Ao lado da vice, Difícil é o Nome (179,3 pontos ) vai se apresentar na Série Bronze em 2027 sonhando em escalar degrau a degrau até chegar à Marquês de Sapucaí.
— A meta é chegar a Série Ouro e desfilar na Sapucaí. Mas não custa sonhar com o Grupo Especial. A União de Maricá ganhou e vai para a elite em 2027 — analisa Romeu de Almeida, o Romeu D'Malandro, presidente da escola, que após o resultado desta terça-feira foi até a estátua de Zé Pilintra na Lapa agradecer pela vitória.
A origem etílica, porém, entrou para a história. Saideiras na Casa de Malandro, com o primeiro gole sempre para o santo, é claro, nunca mais:
—Começamos como um bar temático em 2022. A primeira casa foi na Rua Clara Nunes, vizinha à quadra da Portela. Abrimos filiais em Rocha Miranda e na Lapa. Fechamos todas no fim do ano passado. A decisão de terminar com o bar é definitiva, por queremos nos dedicar à escola de samba. E, com o nome Casa de Malandro, fazer shows com cantores com essa temática, seja no Rio ou em outros estados — diz o presidente, que calcula ter gasto R$ 150 mil para disputar o titulo.
