Casa Branca recua e tenta afastar Trump da resposta inicial do governo à morte de americano por agentes federais
Diante da ampla comoção provocada pela morte de um manifestante no sábado, em Minneapolis, a Casa Branca recuou na segunda-feira, retirando da cidade um alto funcionário da área de fronteiras e tentando distanciar o presidente Donald Trump da resposta inicial de seus principais assessores. Nos primeiros momentos após o episódio, integrantes do governo haviam classificado o homem morto por agentes federais como um “terrorista doméstico” que estaria “exibindo” uma arma — versão posteriormente desmentida por imagens em vídeo.
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A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, evitou defender a retórica adotada por autoridades como Stephen Miller, vice-chefe de gabinete, e Kristi Noem, secretária de Segurança Interna. Ambos foram os mais vocais na disseminação de acusações falsas contra a vítima, Alex Pretti, que foi baleado cerca de dez vezes por agentes de imigração após, aparentemente, filmá-los com seu celular. Pretti tinha autorização legal para portar arma em Minnesota. Ainda assim, vídeos mostram que ele nunca sacou o armamento e que suas mãos estavam visíveis no momento em que foi atingido pelas costas.
Integrantes da Casa Branca reconheceram que a morte — a segunda de um cidadão americano que protestava contra a presença do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) em Minneapolis — representava uma das ameaças políticas mais graves enfrentadas por Trump desde a posse, há pouco mais de um ano. Mesmo assim, a administração pareceu paralisada, sem disposição para recuar formalmente das declarações de Miller e Noem, amplamente reproduzidas dentro do governo, enquanto enviava Leavitt para sustentar que os fatos ainda estavam em apuração.
Nenhuma evidência foi apresentada para sustentar as acusações feitas pelos dois auxiliares, que se tornaram o rosto da ofensiva do presidente republicano para deportar imigrantes em situação irregular nos EUA. Embora Leavitt tenha evitado contradizê-los diretamente, insistiu que o presidente não endossava a violência. Ela também se recusou a defender os ataques dirigidos a Pretti nos primeiros momentos após o episódio.
— Ninguém na Casa Branca, inclusive o presidente Trump, quer ver pessoas feridas ou mortas nas ruas dos Estados Unidos da América — disse ela a repórteres. — Obviamente, foi uma situação muito dinâmica e de rápida evolução ao longo do fim de semana. Quanto ao presidente Trump, por quem eu falo, ele disse que quer deixar a investigação prosseguir e permitir que os fatos conduzam este caso.
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Mudança de tom
Há dois dias, a Casa Branca tenta conter as repercussões da morte. Democratas intensificaram as críticas às ações do governo, enquanto republicanos começaram a se somar aos pedidos por uma investigação justa. Até a Associação Nacional do Rifle (NRA), tradicional aliada de republicanos, saiu em defesa de Pretti, que possuía permissão para porte oculto de arma. A reação bipartidária no Congresso elevou o risco de uma nova paralisação do governo. Parlamentares passaram a ameaçar bloquear recursos destinados ao ICE após a morte.
Foi nesse contexto, segundo dois funcionários com conhecimento do assunto que falaram ao New York Times sob condição de anonimato, que a administração planejava retirar de Minneapolis Gregory Bovino, um oficial da Patrulha de Fronteiras conhecido por táticas duras e alvo frequente de críticas. Outros agentes deveriam sair da cidade com ele — o sinal mais recente de que o governo estava recuando em sua ação de fiscalização agressiva dentro da cidade.
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Horas antes de circular a informação sobre a saída de Bovino, Trump enviou seu principal responsável pela área de fronteiras, Tom Homan, para supervisionar a operação de imigração em Minneapolis. Ao mesmo tempo, o presidente suavizou o tom contra o governador de Minnesota, Tim Walz, após uma ligação telefônica entre os dois.
Bovino havia sido um dos primeiros a divulgar informações falsas sobre Pretti. Ainda assim, a Casa Branca se recusou a reconhecer que suas declarações — assim como as de outros altos funcionários na administração — foram refutadas pelos vídeos. Leavitt descreveu Bovino como “um grande profissional” que “vai continuar a liderar, com muita força, a Alfândega e a Patrulha de Fronteiras em todo o país”.
Nova abordagem
Em sua mais recente mudança de postura, Trump deixou de responsabilizar Walz pela violência em Minneapolis e afirmou que, durante a conversa telefônica, os dois “pareceram estar na mesma sintonia”. Em uma publicação nas redes sociais, Trump disse que Walz estava “feliz” com o envio de Tom Homan a Minnesota. Mais cedo, o presidente havia anunciado que Homan atuaria como seu representante pessoal na supervisão das operações do ICE no estado.
A nova abordagem contrastou fortemente com as declarações do fim de semana, quando Trump culpou Walz e outros democratas de Minnesota pela morte de Pretti. Os comentários repetiram o tom adotado após o assassinato, neste mês, de Renee Good, morta por agentes federais. Ao elogiar operações em Washington e em outras cidades como um “tremendo sucesso”, Trump afirmou que os índices de criminalidade em Minnesota estavam “bem mais baixos”, acrescentando: “Tanto o governador Walz quanto eu queremos melhorar ainda mais!”.
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Em comunicado, o gabinete do governador descreveu a conversa como “produtiva” e informou que os dois discutiram questões mais amplas que estão no centro das queixas do estado em relação à ofensiva migratória. Segundo o governo estadual, Walz disse a Trump que eram necessárias investigações imparciais sobre as duas mortes e pediu a redução do número de agentes federais em Minnesota. Trump concordou em garantir uma apuração justa e em avaliar a diminuição do contingente.
Mas, mesmo enquanto Trump tentava recompor a relação com Walz, Leavitt manteve a estratégia anterior da administração de argumentar que o governador e os democratas de Minnesota eram os responsáveis pelo caos. Em declarações à imprensa, ela afirmou que “essa tragédia ocorreu como resultado de uma resistência deliberada e hostil, por semanas, por parte de líderes democratas em Minnesota”.
Reação padrão
A reação da administração à morte de Pretti seguiu um padrão semelhante ao adotado inicialmente após a morte de Renee Good. Nos dois casos, autoridades do governo se apressaram em atacar as vítimas e defender os agentes do ICE antes da conclusão de qualquer investigação. Com a divulgação de vídeos que levantaram dúvidas sobre as circunstâncias das mortes, a Casa Branca passou a ajustar o discurso.
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Na semana passada, Trump descreveu a morte de Good como uma “tragédia” e disse ter se sentido “terrivelmente mal”, acrescentando que os agentes de imigração enviados às ruas às vezes “vão cometer um erro”. A mudança de tom foi significativa para o presidente, que afirmou ter sido informado de que o pai de Good era seu apoiador fiel. O governo abandonou, então, a sugestão de que ela fosse uma terrorista doméstica.
— Quando a mulher foi baleada, eu me senti terrivelmente mal com isso — disse Trump, classificando o episódio como “uma coisa horrível”. — E eu entendo os dois lados.
