"Peço desculpas por não ter respondido antes, mas foi um pouco falta de tempo, esquecimento, pois os problemas são tantos que, às vezes, não dá para pensar em outras coisas”. Essas são as primeiras palavras de Vera Lúcia dos Santos a Angela Maria de Carvalho em uma carta datada de 1974. Moradora do então Estado da Guanabara, a atual cidade do Rio, Vera escrevia para convidar a amiga, moradora de Nova Iguaçu, para o aniversário de 1 ano da filha. Quem são essas duas, não se sabe. O certo é que a correspondência é um achado que estava à venda na Feira de Antiguidades da Praça Quinze, na região central, onde O GLOBO esteve num sábado de setembro. Em vídeo abaixo, a atriz e escritora Maria Ribeiro lê a carta de Vera Lúcia. Dos filmes mudos ao pornô: Cinema Iris sobreviveu a todas as transformações do Centro e se prepara para as novas mudanças Obturador, VHS, gramofone: o que você sabe sobre as mídias 'das antigas'? Faça o teste e descubra Atriz e escritora Maria Ribeiro lê carta garimpada pelo GLOBO na Feira da Praça XV Pisar na feira, um programa na cidade desde a década de 1970, é como entrar num túnel do tempo, com relíquias que fazem do passado presente. O encontro de antiquários, que tem atraído cada vez mais jovens, simboliza a força do movimento nostálgico que não para de crescer. A viagem começa por correspondências dos séculos XIX e XX entre pessoas anônimas. O mergulho em assuntos alheios pode acontecer ali mesmo, onde os visitantes conseguem bisbilhotar o conteúdo de graça. Levar o escrito para casa, porém, pode custar de R$ 10 a mais de R$ 200. Tem uma relíquia guardada em casa? O GLOBO quer conhecer o objeto e a história por trás dele Galerias Relacionadas Despedida e saudade Em uma das barracas, comandada pelo historiador Cid Culmant, de 62 anos, uma carta de 1867 custa R$ 250. A correspondência, remetida do Rio para Pernambuco, notifica o pagamento de uma dívida. — No Império, eram muito comuns cartas de comunicação, hoje cobiçadas por colecionadores. Elas foram perpetuando histórias e entendimentos da dinâmica social da época. Temos aqui cartas que tratam de testamentos, de comunicação de morte e de nascimento, de paixões e de felicitações de aniversário. Elas vêm de espólios de famílias. Os herdeiros nos oferecem e ficamos com as mais interessantes. O valor de revenda depende do conteúdo e do estado de conservação — explica. Sessão nostalgia: prefeitura cria projeto Reviver Cinema para reabrir salas de exibição nas ruas do Rio Nostalgia: veja as relíquias que atraem milhares de curiosos a feira no Centro do Rio Em outra tenda, a de Acrísio de Oliveira, de 63 anos, a reportagem garimpou a carta de Vera para Angela, assim como outras duas. Uma delas é de 1922, em que, do Rio, uma filha manifesta a saudade do pai, um capitão do Exército lotado no então chamado 17º Batalhão de Caçadores, em Corumbá (MS), hoje denominado 17º Batalhão de Fronteira e dedicado a operações no Pantanal. A barraca atrai muitos negociantes, que compram para leiloar os escritos. — Uma das que aguçaram minha curiosidade é da década de 1970, enviada por um rapaz a uma moça de Olaria. Prestes a viajar, ele não conseguiu comunicar-se com ela com antecedência e escreveu: “Talvez quando você receber essa carta, eu já esteja em Portugal. Mas espero que você faça contato”. Ela não fez contato. Em outro texto, ele afirma que, apesar disso, ele estava retornando a mensagem, para saber novidades sobre ela. É interessante. Há outras cartas para essa mesma moça com elogios à sua beleza. Ela devia ser muito querida — conta. Carta de 1944 por um general chamado Miguel de Castro Ayres Madson Gama Rebobine: VHS, câmeras com filme e vitrolas ganham vida outra vez O material de Acrísio vai além e alimenta outra onda do momento: a aquisição de fotografias antigas de pessoas aleatórias. Uma mala sobre um banco, na lateral da barraca, guarda um álbum diverso, que aguça a curiosidade do público sobre as histórias por trás daqueles desconhecidos. As imagens, a partir de R$ 10, eternizam diferentes contextos: de bailes de formatura a momentos em família, passando por retratos individuais e reuniões de times de futebol. O público comprador inclui jovens que nunca tiveram contato com fotos em preto e branco. Baú com fotos antigas em barraca na Feira de Antiguidades da Praça Quinze Madson Gama Arquivo Nacional e Museu da Imagem e do Som: instituições fazem campanhas para receber aparelhos de videocassete e filmes em DVD — Já houve pessoas que acabaram reconhecendo entes queridos nas fotos ou lugares pelos quais já passaram — revela o vendedor. História: veja onde moravam deputados federais da última legislatura antes de o Rio de Janeiro deixar de ser capital do país Pela primeira vez na feira, o economista mineiro Mateus Henrique de Oliveira, de 32 anos, foi um dos que tiveram a atenção chamada pelos registros. A identificação foi imediata. Ele coleciona itens que encontrou no baú de seus bisavós, que eram agricultores no interior de Minas Gerais. — Encontrei fotos de pessoas mortas já no caixão. Era uma forma de guardar o último momento do defunto para quem não pôde comparecer ao velório. Guardo também certidões de nascimento e casamento dos meus avós, isqueiros e pentes que eles usavam, máquina de escrever e pratos de chumbo — revela. — A relação com o nosso passado nos dá um senso de pertencimento e nos faz valorizar o cotidiano. Tem o sabor de algo que é único e que se mantém de alguma forma. Cinema de Bangu: local, que já foi um dos mais modernos do Rio, recorreu a improviso para driblar calor do bairro na inauguração Filmes revelados O pesquisador e artista Rafael Cosme, de 42 anos, se dedica, há pelo menos uma década, ao garimpo de acervos fotográficos. O material reunido inclui filmes já revelados. Muitos são encontrados em envelopes com alguma identificação, data e o que aquelas fotos representam. Seu trabalho é interpretar esses dados, pesquisar as referências e contar aquela memória para o público em exposições ou pelas redes sociais. Ele começou de forma intuitiva, por curiosidade. — O Rio tem uma peculiaridade que é o ofício de catadores, autônomos que circulam pela cidade revirando lixo e garimpando, de segunda a sexta. Aos sábados, alguns deles aparecem no chão da Praça Quinze. O meu ouro são os negativos. Esses acervos guardam a história do Rio e revelam o cotidiano de uma forma muito íntima. Eu compro, digitalizo, organizo por tema e construo a narrativa — relata Cosme, que, em 2024, surgiu na capa do jornal americano New York Times com um de seus garimpos. 'Cansaço causado pelas telas' Outras preciosidades fazem sucesso na Praça Quinze: discos de vinil, móveis antigos, câmeras analógicas e digitais, livros raros, relógios, cartões-postais e documentos pessoais, como passaportes. Na barraca do colecionador e vendedor Eustáquio Marques, de 68 anos, o acervo de dinheiro antigo faz brilharem os olhos até de crianças. Na bancada, figuram moedas e cédulas de réis, de dólares e de cruzeiros, estas estampadas por personalidades como Cecília Meireles, Dom João VI e Santos Dumont, além de moedas de R$ 1 da coleção dos Jogos Olímpicos Rio 2016, ilustradas com os mascotes Vinícius e Tom. A advogada Luciana Belarmino, de 38 anos, fez a alegria do filho, Matteo Belarmino, de 5, ao presenteá-lo com uma dessas relíquias. — Ele adora moeda antiga e geografia. Demos um atlas para ele, que gosta de ficar vendo os mapas dos países. Temos moedas de algumas nações que visitamos. Ele desenvolveu uma curiosidade bem saudável, com cultura e longe da tela do celular — observa a mãe orgulhosa. Professora do curso de História da Uerj, Daiane Alves, frequentadora da feira, avalia que o movimento pró-analógico se explica pelo cansaço causado pelas telas: — Tenho percebido uma sobrecarga causada pelo mundo digital. Há que se fazer um exercício consciente de afastamento. Existe um movimento, sobretudo dos mais jovens, de tentar sair um pouco do telefone e buscar estímulos mais analógicos. Objetos como vinil, o livro físico e a experiência de escutar um CD se inserem nesse contexto. A programadora e universitária Carla Martins, de 23 anos, é frequentadora assídua da Praça Quinze. Ela diz que suas incursões pela feira são uma fuga da internet: — Eu trabalho com computador. Estar aqui é sair da minha zona de conforto e valorizar a história. Gosto muito de elementos feitos à mão, como louças com estampas detalhadas que não se produzem mais. Colaborou Camila Araujo
Carta de despedida e nostalgia: O GLOBO garimpa correspondências e fotos antigas em feira no Centro do Rio; veja o que foi encontrado
Fonte da notícia:
O Globo
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