Carta à dona Marinete, uma mãe nordestina de uma Marielle acolhedora

 

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Hoje escrevo com o coração atravessado por memória e justiça. O dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os irmãos Brazão pelos assassinatos de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a mais de 76 anos de prisão, não é apenas um marco judicial. É um marco para todos nós que vivemos aquele 14 de março de 2018 como uma ferida aberta.

Eu tive contato direto com Marielle. Seu abraço era real, firme, daqueles que atravessam o corpo da gente e encontram a alma. Muitas vezes me emocionei sendo acolhido por ela, não como figura pública, mas como mulher atenta, que enxergava as pessoas.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, vindo de Alagoas, recém-formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), fui recebido por ativistas de direitos humanos que me fizeram integrar a sociedade carioca. Marielle foi uma das primeiras que me estenderam a mão. Mesmo sem me conhecer profundamente, identificou em mim algo que também vinha de sua mãe: a garra nordestina de quem chega para trabalhar e contribuir com a cidade.

Eu morava no Estácio, Zona Norte do Rio, quando ela foi assassinada. Fui uma das primeiras pessoas a chegar à cena do crime. Ao mesmo tempo em que participava da cobertura jornalística, eu carregava uma dor pessoal difícil de explicar. Demorei mais de uma semana para conseguir chorar. Era um misto de luto e responsabilidade. Eu queria que o mundo soubesse. Queria que aquele crime não fosse reduzido a uma estatística. Queria que a história dela ecoasse.

O dia de hoje é profundamente impactante para mim. Porque eu vivi isso no cotidiano, na amizade, no ativismo e no trabalho. Escrevo para dona Marinete, mãe nordestina, que deu a vida e criou Marielle com princípios, honra e senso de justiça. Que a decisão da Justiça seja um sopro de dignidade diante de tanta dor.

Dona Marinete veio de João Pessoa aos 26 anos e criou Marielle na Maré, um dos principais redutos nordestinos no Rio. A ela dedico a coluna Oxente, Rio! de hoje. Uma mulher nordestina, que mostrou ser capaz de mover grandes estruturas em busca de justiça.

Marielle segue sendo referência. No abraço que acolhe, na coragem que enfrenta, na memória que insiste em florescer. Um abraço forte, dona Marinete.