Carnaval gratuito? Foliões gastam até R$1.700 para curtir a festa nas ruas do Rio
Embora os blocos de rua sejam gratuitos, cair na folia na Cidade Maravilhosa pode custar mais do que se imagina. Durante o desfile da Orquestra Voadora, no último dia 17, no Aterro do Flamengo, na Zona Sul, foliões contaram ao GLOBO que os gastos diários com o carnaval variam de R$ 60 a R$ 300, podendo chegar a um total de R$ 1.700 ao fim da maratona de folia, mais do que o salário-mínimo do Brasil.
'Cabe todo mundo no mundo': além da ala anticapacitista, bloco Orquestra Voadora inova com audiodescrição em desfile
Debí tirar más fotos: tendência de câmeras polaroids invade o Aterro do Flamengo
De acordo com estimativas oficiais da Prefeitura do Rio, o carnaval deve movimentar cerca de R$ 5,9 bilhões na economia da cidade este ano, impulsionando setores como turismo, comércio e serviços. Parte desse montante vem justamente do consumo nos blocos de rua.
Mesmo com os custos, foliões afirmam que a experiência compensa. Para muitos, o carnaval continua sendo a forma mais acessível de entretenimento na cidade. De acordo com os foliões entrevistados, os maiores gastos são da locomoção com transporte público ou de carros de aplicativos, fantasias, bebida e alimentação. E, para não deixar a animação na folia ser atrapalhada pela preocupação com os gastos, alguns foliões recorrem a métodos para controle financeiro.
A turista Matilde Faria, de 28 anos, veio de Portugal apenas para curtir o carnaval com as amigas. Ela compartilhou sua estratégia para não gastar tanto: uma planilha de gastos.
— Eu tenho uma planilha com tudo anotado e por lá eu mantenho o meu controle financeiro para todos os dias até o fim do carnaval — compartilhou, orgulhosa.
Matilde Faria e amiga Maria Francisca, no Orquestra Voadora
Joziane Barbosa
Por outro lado, existem foliões que são dispostos a gastar. Daniel Durval, de 28 anos, contou que veio de Honório Gurgel, na Zona Norte, para celebrar o bloco no Aterro do Flamengo:
— Até agora, já gastei R$ 1.700 no total. Gastei mais com bebida, transporte e alimentação, já que não trouxe nada de casa, estou consumindo tudo na rua.
Estratégias para economizar
Uma das estratégias mais usadas pelos foliões é comprar bebidas no mercado e levar para o bloco. Jéssica Souza, de 27 anos, conta que fez compras antes de sair para a folia:
— Para economizar, eu fui ao mercado e gastei R$ 90 só com bebida. Aqui, eu gastei só com a comida, mesmo.
Alexandra, de 29 anos, conta que conseguiu reduzir os custos passando, primeiro, no mercado.
— Eu já gastei muito, já foram R$ 100 só de bebida, comprando no mercado para trazer. Eu comprei para economizar aqui, não comprei nada na rua ainda. Acabei economizando mais por isso.
A ida até os blocos não é barata
O metrô é uma das principais escolhas dos foliões durante o carnaval, em especial daqueles que se deslocam para o Centro da cidade, que tem o trânsito alterado em torno da Sapucaí nos dias de desfile das escolas de samba. A escolha também vem da segurança que sentem ao utilizar o transporte e pela facilidade em chegar aos blocos. Mas o valor da passagem, que custa R$ 7,90 ou R$ 5 (para quem tem a tarifa social), frustra um pouco.
— Eu acho um absurdo a passagem ser quase R$ 8, mas acabo pagando para aproveitar o carnaval — confessou a esteticista Lara Ribeiro, de 26 anos.
Já Douglas Medeiros foi para folia com um grupo de cinco e comentou que o maior gasto é com carro de aplicativo para ir até o metrô:
— Eu não moro perto do metrô, mas carreguei o cartão e tenho que pegar Uber até a estação. E, às vezes, a gente quer voltar mais seguro para casa, quer voltar de Uber, e aí vai uns R$ 120, R$ 150 por dia para dividirmos entre a gente.
Douglas Medeiros (com fantasia do homem-aranha) e os amigos Tiago Santiago, Gaio de Paiva, Durval Martins e Daniel Durval, no Orquestra Voadora
Joziane Barbosa
Tamílis Vásquez e seu namorado, Carlos Henrique, são moradores de São Gonçalo e gastam com aplicativos de transporte para se locomover.
— Nós acabamos gastando muito pela falta opção de ônibus, e é um dos nossos gastos principais. E sempre procuramos blocos próximos às barcas, para tentar diminuir o tempo para ir e voltar — explica ela.
Tamílis Vásquez e Carlos Henrique, no bloco Orquestra Voadora
Joziane Barbosa
As fantasias pesaram o bolso
A fantasia se tornou uma peça fundamental no carnaval de muitos foliões que não economizam na criatividade ou dinheiro para serem, por alguns dias, seus personagens favoritos ou temas que estão em alta no mundo e, principalmente, nas redes sociais.
Cão Orelha, chaveiros e Felca: fantasias mirabolantes viram a marca do carnaval de rua do Rio; veja fotos
Impulsionada por Pedro Sampaio, fantasia de Freddie Mercury Prateado vira hit no carnaval do Rio
A atendente comercial Caroline Pereira, de 35 anos, disse ter gastado R$ 300 na elaboração da fantasia de onça, que foi montada com um conjunto preto de top e hot pants, tiara e acessório de pescoço, além da meia-calça arrastão e muito brilho, além da maquiagem característica do felino.
— Essa é uma fantasia que eu vou usar todos os dias em que for aos blocos — afirmou.
Mas há também quem reutilize fantasias sem deixar de perder a beleza e a animação para a folia. Lia Santos, estudante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e seu namorado Leonardo Garanito usavam fantasias do carnaval passado.
Lia Santos e o namorado Leonardo Garanito, no bloco Orquestra Voadora
Joziane Barbosa
— Nós nos preparamos há um tempo para o carnaval, economizando e até usando fantasia do carnaval passado. Mas estamos pensando mesmo em aproveitar e curtir. Estamos indo a diversos blocos e, apesar da distância, tem valido a pena! — declarou animada.
As amigas Simone Cunha e Dimila Mothe, ambas de 39 anos, comentaram que customizaram roupas que já tinham para elaborar as fantasias de paquitas da Xuxa:
— A gente já tinha as roupas, a cola quente e um sonho, foi tudo customizado. Esse microfone saiu tem meia hora, era uma caixinha velha que eu tinha em casa, O restante, sobrou de outra da fantasia. Juntamos tudo para curtir o carnaval.
As crianças também gastam
Quando os responsáveis levam as crianças também para a folia, os gastos podem aumentar. Além das fantasias de personagens infantis e da preocupação com blocos seguros para os pequenos, também existem os gastos com os pedidos das crianças.
Fabiana e o marido Marco estavam no bloco e compartilharam que apesar de não gastarem tanto com comida ou bebidas para si, o foco é atender aos desejos do filho Romeo:
— Ele está sempre nos pedindo coisas para comer. É pipoca, doce, uma coisa aqui e outra ali, água... Essas coisas. Nós dois não gastamos tanto com a gente, mas com ele, sim.
Fabiana e Marco com o filho Romeo
Joziane Barbosa
