Carnaval 2026: segunda noite da Série Ouro tem homenagem a Conceição Evaristo com participação de personalidades negras
A homenagem que o Império Serrano prestará à escritora Conceição Evaristo, com o enredo "Ponciá Evaristo Flor do Mulungu", reunirá diversas personalidades negras na segunda noite de desfile das escolas de samba da Série Ouro, neste sábado, na Sapucaí. Também cruzarão a Avenida, a partir das 21h, a Botafogo Samba Clube, Em Cima da Hora, Arranco do Engenho de Dentro, Estácio de Sá, União de Maricá e Unidos da Ponte.
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No último carro do Império Serrano, intitulado “Casa de Preto também é academia”, será apresentado como espaço de saber, memória e ancestralidade, transformando-se simbolicamente em um palácio ancestral. A alegoria traduzirá a força da escrevivência negra ao unir livro, palavra e samba, em uma cena que funde passado, presente e futuro a partir do conceito do Tempo Espiralar, desenvolvido por Leda Maria Martins.
As cadeiras imortais que remetem às ancestrais Tia Maria do Jongo, Vovó Joana, Dona Ivone Lara, Tia Eulália e Jovelina Pérola Negra serão ocupadas por grandes mulheres do nosso tempo. Ao lado de Ainá Evaristo — filha da homenageada — , estarão a jornalista Flávia Oliveira, a filósofa Sueli Carneiro, a escritora Eliana Alves Cruz e a ialorixá Mãe Meninazinha de Oxum.
— O enredo surgiu a partir de um encontro entre o Império Serrano e dona Conceição Evaristo. Já tinha muita vontade de falar sobre ela. Achei que não seria possível, mas tudo deu certo e vamos levar para a Avenida os conceitos de escrevivências que são as vivências das mulheres pretas através da escrita e da obra dela — explica o carnavalesco Renato Esteves do Império, quarta escola a desfilar.
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A noite será aberta pela Botafogo Samba Clube que, em seu segundo ano na Sapucaí, mostrará o legado de Roberto Burle Marx, mestre do paisagismo e das artes visuais. O enredo "O Brasil floresce em arte" mostrará a flora e os biomas brasileiros em desfile que contará com plantas cenográficas. Além do lado artístico no modernismo, assim como a expedição por florestas e seus jardins tropicais, seu sítio em Guaratiba será lembrado.
Em seguida, é a vez da Em Cima da Hora, cujo enredo "Salve todas as Marias - Laroyê Pombagira" é uma reverência ao seu espirito de resistência, sua conexão com as ruas e encruzilhadas da vida. A terceira escola a entrar na Sapucaí é a Arranco do Engenho de Dentro, promete transformar a Sapucaí em picadeiro, com a história de Maria Eliza Alves dos Reis (1909-2007), a mulher por trás do Palhaço Xamego, a primeira palhaça negra do Brasil.
Leandro Vieira desenvolveu enredo da Maricá "Berenguendens e Balangandãs"
Léo Queiroz/Divulgação União de Maricá
Do Papa Negro da Estácio ao tamborzão da Ponte
A segunda metade do desfile será aberto pela Estácio de Sá, cujo enredo retratará o líder espiritual Tata Tancredo, que morreu em 1979, aos 74 anos. O pai de santo, que, através de práticas religiosas, impulsionou a tradição de se passar o réveillon na Praia de Copacabana, será representado pelo ex-rei momo Djeferson Mendes.
A União de Maricá mais uma vez tenta subir para o Grupo Especial com o enredo "Berenguendéns e Balagandãs", desenvolvido pelo premiado Leandro Vieira, que na elite do desfile responde pela homenagem a Ney Matogrosso, na Imperatriz Leopoldinense. Em seu desfile, a agremiação vai contar a história da joalheria produzida por negros no Brasil.
—Esse enredo é uma ideia antiga. Vem um pouco na esteira desse pensamento que acaba marcando o meu trabalho desde 2019, que é contar um pouco a história que a história não conta. Existe por trás do balangandã uma história de identidade rebeldia, transexual —explica Leandro.
A Porto da Pedra vai falar das profissionais do sexo no seu enredo "Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite", desenvolvido por Mauro Quintaes. Os desfiles da Série Ouro serão encerradas pela Unidos da Ponte, cujo enredo "Tamborzão - O Rio é baile! O poder é black!", vai exaltar as raízes negras e periféricas prometendo transformar a Sapucaí num grande baile de resistência, identidade e celebração.
Conheça as letras dos sambas
BOTAFOGO SAMBA CLUBE
Carnavalesco: Alexandre Rangel e Raphael Torres
"O Brasil que floresce em arte"
Tão natural quanto o tom da natureza
Relicário de beleza
O abstrato
Nas telas, seus pincéis cheios de vida
Em alma colorida que retrato
E foi assim
Da arte seu talento fez pra mim
Imaginária fonte de inspiração
Inovadora criação
O dom criou as calçadas imortais
Nas curvas de delírios tropicais
O traço que encanta e cativa
Viva a natureza viva!
Baila no ar
Pousa na vitória-régia
Pra encontrar o cerrado dos ipês
Mandacaru é a flor que nasce onde mais seca
A aquarela mais perfeita de meu Deus
Vem contemplar as bromélias
A sutileza coloriu meu pantanal
Em todo canto desse meu Brasil menino
Diversidade sem igual
Cada flor que você protegeu
Cada espécie que catalogou
É mais que moldura, maior que o gesto
É manifesto de amor
Botafogo Samba Clube
Vem cantar é carnaval
O teu legado é patrimônio mundial
Vamos semear o bem como o Mestre ensinou
Entreguei meu alvinegro pra você encher de cor
O amor floresceu nesse lindo jardim
História que não vai ter fim
EM CIMA DA HORA
Carnavalesco: Rodrigo Almeida
"Salve todas as Marias- Laroyê Pombagira"
Acorda Exu, Laroyê
Tem pimenta e dendê
Pombogira Mojubá
Fiz um pedido aos pés de uma figueira
Pra saudar Rosa Caveira
Pambu Njila a girar
Ganga Dilê, Ganga Dilê, ô Ganga
Dona das Almas vai quebrar demanda
Feiticeira dos encantos
Nunca me deixou sozinho
No Cruzeiro ou na Calunga
Meia-noite toca o sino
É lei, é lei, à fogueira, condenada
Quanto mais o fogo ardia, ela dava gargalhada
Ê, cacurucaia, é Tata de Angola
Dona Sete Catacumbas é da Em Cima da Hora
Alma cigana, entregue à liberdade
Te chamam de impura, corpo sem dignidade
Das cinzas renascida, enfrenta o julgamento
Leva pro inferno as más línguas do consenso
É Quitéria, colondina, Rosa Negra e Mortalha
É Mulambo e Padilha, é menina e navalha
Na encruzilhada vou oferecer
Vela preta e vermelha, a champanhe e o padê
Em cada esquina, meu povo vai incorporar
E Cavalcanti vem baixar nesse Congá
Abre a roda
Em Cima da Hora firma o ponto no tambor
Acende um toco, dá um pito e um marafo
Porque a Dona da Casa chegou
ARRANCO DO ENGENHO DE DENTRO
Carnavalesco: Annik Salmon
"A Gargalhada é o Xamego da vida"
A alegria tomou conta de mim
Rufem tambores pra anunciar
Sou eu Falcão pairando em trampolim
No circo da ilusão brilhar
Ó, Guarany!
Na arte, alforria pra resistir
A pretitude às bênçãos do Rosário
A trupe em família se consagrou
Esse é o legado
Ser palhaço é revolucionário
Ê, chamego num xote pra lá de bão
Reina amor no coração
Vem cheio de graça
Com seu par, chamegando daqui acolá
No picadeiro, nosso altar
Será que ela é homem
Ou ele é mulher?
Será que isso importa? Pois é
Não é Benjamin, Carlitos não é
O nome é Maria, aplaudam de pé
E assim, quando a dor torturar
A camélia secar, sorri
Ainda que a lona desbote
A Estrela não morre, sorri
Artista-mãe que nos inspira
Não é delírio, é fantasia!
Nas encruzilhadas da felicidade a sambar
Não tem corda bamba que faça meu riso tombar
Dou gargalhada feliz da vida
O meu Arranco é Xamego na avenida
História de garra, coragem e fé
De tantas Marias, de toda mulher
IMPÉRIO SERRANO
Carnavalesco: Renato Esteves
"Ponciá Evaristo Flor do Mulungu"
Sou eu, a Flor do Mulungu
Brilham os olhos d'Água!
Orayeyê! É de Mamãe Oxum!
Sou Ponciá Consagrada
Entregue às palavras
E ao axé das ancestrais
Se tempos atrás
Ecoavam vozes do porão
Hoje reescrevo a história
Poesia a despertar nas pretas mãos
Nos becos da minha memória
Meu verbo é ouro de aluvião
Meu verso é barro de artesão
Pra Folia de Reis, chamo vô e chamo tio
Na Folia de Reis, vou vivendo por um fio
Ô lê lê, lá vem batuque, pra congada começar
Angorô, vira menino! Angorô, não vou virar!
Não é fácil emergir nesse contraste
Benevuto, a maldade, não quer me ver sorrir
No refúgio desses becos e vielas
De mãos dadas com Sabela
Eu só quero ser feliz
O Rio que me acolheu me ensinou também a florir
Vi muita gente de lá no rosto negro do povo daqui
Sou eu quem dá voz à caneta que silencia o fuzil
Me torno imortal no Livro Brasil
Malungo! Que Negro-Estrela possa ser reconhecido
Sem o choro de um futuro interrompido
Por todo preto, escreviver!
A gente combinamos de não morrer!
Combinamos de não morrer!
Chamei Maria, preta velha jongueira
Vovó Joana, pra benzer Madureira
Busquei Ivone pra matar essa saudade
O negro é raiz da liberdade!
É Kizomba de preta literatura!
É escrita sem censura no Império a florescer!
Casa de Preto também é Academia
Serrinha, Ponciá Yalodê!
ESTÁCIO DE SÁ
Carnavalesco: Marcus Paulo
"Tata Tancredo - O Papa Negro no Terreiro do Estácio"
Macumba é macumba, canjerê, mojubá
Macumba é macumba, firma ponto no gongá
Kolofé, saravá Omolokô
No terreiro de Tancredo a Estácio incorporou
Oh, Tata!
Traz a guia de miçanga
Pra quem é da nossa banda a demanda enfrentar
Oh, Tata!
Salve a linha de umbanda e a bandeira de Oxalá
Naquele tempo de malandro e meganha
Eu usei lata de banha pra fazer o instrumento
Ensinamento pro São Carlos que subia
A ladeira todo dia encarando o regimento
Tancredo o bastião e testemunha
O primeiro fundamento da curimba e da mumunha
Atabaques no terreiro, na porteira o guardião
Uma vela no cruzeiro, duas velas pro leão
Chegou general da banda, azeitado no dendê
Na canjira galo canta, Cantagalo eu quero ver
Vai, nas ondas do mar
Yemanjá ganhar presentes de fé
Todo povo da cidade num só canto
Contra o quebranto firma no batuquejê
Ao papa negro, mandingueiro, de arerê
Quem é de santo, veste branco e vai dizer
Coisa de acender, pemba de riscar
Folha e feitiço pra cura
Coisa de acender, pemba de riscar
Banho de folha e feitiço pra curar
UNIÃO DE MARICÁ
Carnavalesco: Leandro Vieira
"Berenguendéns e Balangandãs"
Nega da ladeira do Pelô
Tens o som de Salvador
E a magia que fulgura
Revolucionar é seu papel
E a arte do cinzel
Tu carregas na cintura
Junto ao tabuleiro nas manhãs
Há o sonho das irmãs que anseiam liberdade
Ecoa toda Nzinga de Matamba
A mandinga e a demanda
Realeza, identidade
Balanço que lembra meu adarrrum
Na armadura de Ogum, memória ancestral
Adorno que guardo no meu Ilê
Herança dos Malês
É forja do metal!
Santa luz da rebeldia que moldou o livramento
Somos joias da princesa, filhas do empoderamento
Penduricalho que te entrego de lembrança
Guarda a fé, o fogo e o talho
Resplandece a esperança
Eu peço aos meus Orixás
E entrego todo o axé
A nega pode e vai ter o que quiser
Tantas pretas consagradas
Meu espelho com orgulho
A quem renega a mulherada
Vá dormir com esse barulho
Balangandãs, berenguendéns
Canta Maricá, o que a baiana tem
Pertencimento que reluz no amuleto
Claro, tinha que ser preto!
PORTO DA PEDRA
Carnavalesco: Mauro Quintaes
"Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite"
Dama do luar e cabaré
Quem ousa enfrentar a força da mulher?
Meu corpo, encruzilhada de mistérios
Na boca, minha língua, uma navalha
Caminho para o céu e o cemitério
Na esquina, o feitiço que gargalha
A ninfa divindade do erudito
Libido que te leva ao infinito
Sou Geni que se libertou
Fiz um Porto da Pedra que você jogou
Eu vim de longe para lhe satisfazer
Meu ofício vem do vício que alimenta seu prazer
A preferida da realeza e do cais
Conheço o chão das promessas que o homem faz
Parceira no amor, transveste sedução
Musa do escritor, veneno e salvação
Também sou moça e de família
Mãe e filha, meu sustento vem da luta
Uma puta mulher, que sabe o que quer
Em casa, na cama, na rua
Dona de mim, vestida ou nua
O preço da vida quem sabe sou eu
Preserve seu corpo, meu bem, ao encontro do meu
Sou da chama a centelha na vermelha luz
Minha sina se assemelha à dor da Vera Cruz
Tenho a garra e a certeza
Sou o que eu queria
Tigresa que mata um leão por dia!
UNIDOS DA PONTE
Carnavalesco: Nicolas Gonçalves
"Tamborzão - O Rio é baile! O poder é black"
Nascido e criado nos berços da África
Venci as mazelas, trilhei o caminho
Essência que luta e resiste
Sou filho valente do Afrobeat
Tentaram suprimir a minha voz
A batida é negritude, tem fundamento
Na ginga, dancei Lundu
No Maxixe, me requebrei
Na força do Black onde o negro é rei
Pega a visão, meu irmão
Não venha afrontar, fechar na vacilação
A gente vai bater de frente e o baile vai rolar
Tenha consciência que o pobre tem seu lugar
Vai, varar a madrugada até o dia amanhecer
O nosso morro tem voz e poder
É dia de graça pra tantos irmãos
Vem botar abaixo a segregação
Nossa arte estampa os muros
Tem charme no viaduto
Ninguém resiste ao nosso som
Minha estrela sempre vai brilhar
Não vou esquecer minha raiz
Sou mais um Silva, eu só quero é ser feliz
Paredão já tá formado, quem quiser poder chegar
Todo mundo convidado a funkear
150 BPM acelerado
No tamborzão da Ponte, ninguém fica parado
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