Carminho é amiga do tempo.
Depois de quase duas décadas de carreira dedicadas ao fado, a portuguesa chega hoje, feliz e em paz, aos 42 anos, em solo carioca.
Admirada por ídolos (e amigos) brasileiros como Chico Buarque, Fernanda Montenegro e Milton Nascimento, ela conversou com a reportagem nos jardins do MAM, perto do Vivo Rio, onde se apresenta amanhã (depois de passar por BH e antes de SP), sobre a relação com o Brasil, as parcerias com Marisa Monte e Rosalía, o poder da música e maturidade.
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— O tempo ajuda a acalmar e a ver.
É uma moeda de dois lados: ele traz um conhecimento e uma experiência na medida em que retira a juventude (risos).
É com essa balança que a pessoa tem que fazer as pazes.
Eu gosto e sinto-me a viver um ótimo momento da minha vida, em paz com o tempo — diz a cantora e compositora que desde novembro do ano passado roda o mundo com o show de seu sétimo álbum, “Eu vou morrer de amor ou resistir”.
No repertório do show e da carreira, como de costume no dramático gênero português...
a tristeza.
Sentimento que adora cantar:
— Me dá um imenso empoderamento.
Eu cresço e aprendo muito sobre mim cantando a tristeza, que talvez seja o sentimento mais dinâmico e criativo de todos.
A tristeza obriga-te a pensar nela.
Cantá-la é uma forma de fazer com que, quem sabe, ela desapareça.
A “resistência” presente no título e na alma do atual projeto é uma forma de se voltar para o seu lado mais solar, que floresce também com “Chuva no mar”, canção de Marisa Monte e Arnaldo Antunes gravada no álbum “Canto” (2014) e que sempre aparece nos seus shows no Brasil.
Retrato da compositora e cantora portuguesa Carminho.
Guito Moreto
A música, Carminho lembra, com um sorriso no rosto, chegou até ela logo depois de conhecer Marisa nos bastidores de um show da carioca, declarar sua admiração e pedir “o que talvez não se peça a ninguém”: “Eu gostaria muito de te conhecer melhor”.
— Ela respondeu: “Claro, Carminho, vamos a isso.
Eu também já ouvi sua música.
Quarta-feira, o que você faz?”.
Fiquei de queixo caído.
Na casa dela, ela abriu a gaveta de músicas que estavam em processo, e são raros os artistas que fazem isso, que mostram esboços — conta.
— Começamos logo a cantar e eu adorei essa música.
Tenho até uma gravação de nós a ensaiar neste primeiro dia.
É muito emocionante.
Gravamos as vozes logo na minha visita seguinte ao Rio, no estúdio da Marisa.
É uma música que me enche de orgulho e alegria.
Ela é de uma positividade e beleza que só eles mesmo.
Para Marisa, também presente em “Estrada do sol”, do disco “Carminho canta Tom Jobim” (2016) — que reúne ainda parcerias com Buarque (em “Sabiá”) e Maria Bethânia (“Modinha”) —, “é sempre um prazer ouvi-la e cantar com ela”:
— Carminho tem uma vivência no mundo do fado que lhe dá autoridade sobre a música portuguesa e tem também curiosidade e interesse no diálogo com outras culturas, o que faz dela uma ponte contemporânea entre Portugal e o mundo.
E como se sente sendo admirada por tantos ídolos brasileiros — e a lista de parcerias também inclui Nana Caymmi (1941-2025), Ney Matogrosso, Dona Ivone Lara (1921-2018)...?
O cantor e compositor Milton Nascimento e a cantora portuguesa Carminho em cena do documentário "Milton Bituca Nascimento"
Divulgação
— Sinto profunda gratidão por esse olhar que eles tiveram sobre mim e também por aquilo que me ensinaram direta ou indiretamente.
Todos foram de uma generosidade que eu não tenho palavras e que procuro absorver para a minha vida.
Já acostumada às plateias do Brasil, Carminho se sente entusiasmada com os shows que, segundo ela, em razão da vibração que vem das pessoas, se enchem de adrenalina e nunca se repetem.
— O povo brasileiro é muito vivo.
Tudo o que eles estão a viver, inclusive momentos políticos, passam para o momento do show.
Tudo que eles sentem, traduzem — diz.
— É um público que gosta de se fazer ouvir e de reivindicar.
Isso é muito poderoso.
‘Memória’
Retrato da compositora e cantora portuguesa Carminho
Guito Moreto
O fado também levou Carminho a um encontro que, aparentemente, pode soar improvável.
Em 2022, depois de ler uma entrevista de Rosalía contando que cantava seus fados em bares de Barcelona no começo da carreira, as duas se conheceram.
Em “Lux” (2025), elas dividem a intimista faixa “Memória”.
— Ela me mostrou esse interesse pelo fado tradicional, o que me deixou orgulhosa porque ele é um gênero de nicho.
Achei aquilo corajoso — conta Carminho, que assistiu ao show da espanhola na semana passada, aqui no Rio, com Marisa e Caetano.
— Anos depois, escrevi uma letra e pus numa melodia muito antiga, que se chama “Fado Maria Rita”, tem nome de cantora brasileira (risos).
Eu a convidei para cantar no meu disco, ela gostou muito e disse que gostaria de gravá-la no disco dela.
Depois, mais tarde, ela convidou-me para cantar com ela, o que fez com que a canção voltasse ao meu repertório.
Acho incrível o trabalho que ela está a fazer.
De Tom Jobim (1927-1994) a Rosalía, de Bárbara Bandeira a Beatriz da Conceição (1939-2015), Carminho não se limita a um tempo ou estilo.
Transita com tanta propriedade e elegância entre um e outro que sua música é classificada como “fado contemporâneo”.
— Claro que existe espaço no fado para alguém que quer cantar os grandes clássicos.
Mas, se não traz alguma visão de repertório, também se torna um “cover” — enfatiza Carminho, que defende “a capacidade de se contribuir para esse cancioneiro com uma atitude crítica ou curatorial”
Para a portuguesa, “existe um poder curandeiro nas músicas que não pode ser subestimado”.
— A música é um superpoder.
Para quem faz, mas também para quem escuta — afirma, antes de lembrar um caso engraçado.
— Meu pai é um péssimo cantor, ou melhor, ele não é cantor.
Minha mãe é uma grande fadista, então ele não canta nem um pio.
Mas ele dizia: “Não é só fadista quem canta e quem toca, também é quem sabe escutar.
Apesar de não saber tocar uma nota, nem cantar, eu tenho certeza de que também sou fadista”.
Isso foi muito bonito.
Levo essa frase muitas vezes para o palco.
Serviço
Onde: Vivo Rio, Parque do Flamengo.
Quando: Sex, a partir das 19h (show às 21h).
Quanto: De R$ 160 a R$ 320.
Classificação: 18 anos.
