Cármen Lúcia: 'A vida é dura, mas é boa e curta', diz a ministra do STF no Festival LED
A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia ainda lembra do seu primeiro dia de aula, há mais de 60 anos, no jardim de infância. A magistrada tem na memória que a professora era uma mulher grande e alta, mas admite que isso pode ser uma confusão de perspectiva da infância. Em silêncio, Dona Joaninha entrou na salinha que tinha menos de dez alunos, foi até a mesa e colocou azeite dentro de um copo d’água — uma prática comum naquele tempo para montar uma lamparina. Sem ninguém falar nada, todos viram o óleo ir até o fundo e depois voltar à superfície.
“Sabe o que é isso?”, disse, finalmente, Dona Joaninha. “Isso aqui é a verdade. Ela demora no fundo, mas sempre vem à tona”.
— Nunca me esqueci disso — afirma Cármen Lúcia, que, no palco principal do Festival LED Globo, na última sexta, refletiu sobre o tempo: — Não sei por que se desperdiça a vida sendo infeliz. A vida é dura, mas é boa e curta. Quando me olho, fico pasma como a vida passou tão depressa. Por isso é preciso usufruir a vida. E com o outro. É perda de tempo ser chato, ser infeliz, ser desagradável. Só consegue infelicitar o outro.
A conversa foi conduzida pela jornalista Julia Duailibi, apresentadora da Globonews e colunista do jornal O GLOBO. No encontro, a magistrada contou que gosta de dar aulas de graduação para ser questionada pelos seus alunos, diz que é preciso seguir aprendendo sempre e defende uma educação para “igualação” entre gêneros.
— Nós educamos ainda os filhos dando a boneca só para a menina para ela cuidar. Depois a gente reclama porque nossos parceiros não têm o cuidado com a mãe ou com o filho. Fomos nós que educamos esses meninos. É preciso que a gente mude a nossa forma de educar, para igualar e dignificar as pessoas, e que o menino cuide igual a menina — afirmou a magistrada.
De acordo com ela, os meninos precisam ser educados para que não sejam “infelizes” após uma mudança cultural na sociedade. No passado, ela diz, as meninas eram criadas quietinhas para esperarem por um príncipe encantado, enquanto os meninos cresciam esperando ocupar os espaços de decisão.
— Isso mudou, nós ocupamos esses espaços e eles ficaram perdidos. Vejo meus alunos, por volta dos 20 anos, muito inseguros. Até em como abordar meninas, mas principalmente do que se espera deles. Ensinar como construir essa Humanidade nova, diferente da que vinha antes, é também papel da educação — explica a magistrada, que, como lembrou Duailibi, é a única mulher entre os dez ministros do STF. — Precisamos construir uma sociedade mais afetuosa. Não quero conflitos entre homens e mulheres. Até porque nos completamos na nossa Humanidade. E a educação também é capaz de fazer isso.
Na sala de aula
Professora de Direito na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC), Cármen Lúcia conta que é conhecida como uma mestre rigorosa — embora diga que já foi mais — e prefere as turmas de graduação do que as mais avançadas, nos cursos de mestrado ou doutorado. De acordo com ela, seus alunos ainda estão numa idade de muitos questionamentos e isso a estimula como docente.
— O estudante de graduação não tem cerimônia para questionar a maior tese do mundo. Eles debatem com a gente e isso nos leva a pensar. E é preciso que a gente se questione permanentemente para não ficarmos no mesmo lugar. A vida é um gerúndio mesmo. Particípio passado, só no cemitério — brincou a magistrada, que completa.
Por isso, Cármen Lúcia tem buscado outros públicos. Ela conta que está visitando escolas para falar sobre democracias com crianças ainda no ensino fundamental. Também quer organizar encontros com adultos que não puderam estudar na infância e estão em fase de alfabetização.
— Temos que amorosamente ensinar o que aprendemos e aprender o que todas as pessoas podem nos ensinar — resume.
Em casa, ela conta, também aprende. Lá, os professores são os sobrinhos-netos pequenos. Mas esses não têm lá muita paciência. Quando a tia-avó precisa de uma ajuda com o celular, os meninos já olham com cara de tédio para a mineira.
— Eles dizem: “Ai, tia, pelo amor de Deus” — conta a ministra do STF, rindo. — Mas é porque isso é banal para eles. E o que é banal para mim, é complicado para eles. É nessa troca que crescemos.
