Carlos Nejar cria 'Quixote às avessas' e aposta na ética da cavalaria em novo romance
Gaúcho de Porto Alegre, o escritor Carlos Nejar já foi chamado de “Dom Quixote dos Pampas”, tamanha sua obsessão pelo personagem de Miguel de Cervantes. Seu mais novo romance, “Dom Luciano de la Tarde, o Cavaleiro de Nobre Figura” (Mourões), que será lançado nesta quinta-feira (7), 17h30, na Academia Brasileira de Letras, renova essa ligação com o fidalgo andante.
O personagem-título é uma espécie de Quixote do mundo bizarro. Ao ler romances de cavalaria, fica mais lúcido em vez de enlouquecer. Sua luta é contra tudo que se opõe ao espírito e ao amor.
— Há um diálogo com Cervantes, claro, mas o caminho e o destino são outros - diz o poeta e romancista de 87 anos, ocupante da cadeira 4 da ABL. — Os personagens são diferentes, o sentido da jornada também.
O icônico personagem está presente em outros livros do autor. Em "A Engenhosa Letícia do Pontal" (2003), temos uma “Quixote de saias”. Já “O campeador e o vento” é uma épica do Rio Grande do Sul que também se aproxima da figura do cavaleiro.
Busca pela gentileza
Mas, se o “Dom Quixote” de Cervantes se consolidou na paródia definitiva dos romances de cavalaria, “Dom Luciano de la Tarde” pretende revitalizar o gênero. O livro se apresenta como uma ode aos valores clássicos das narrativas cavaleirescas — honra, fidelidade, coragem —, que o autor busca resgatar.
Em 1993, por sinal, Nejar foi admitido pelo presidente Itamar Franco à Ordem do Mérito Militar no grau de Cavaleiro especial, uma Ordem Nacional do Mérito Educativo.
— Hoje, mais do que nunca, precisamos de algo que existia nesse universo: a gentileza — diz Nejar. —Eu me interesso por esse lado da condição humana. Há autores que exploram a idiotia. Penso, por exemplo, em Nelson Rodrigues. Eu prefiro buscar a riqueza humana, a possibilidade de superação.
Outro elemento recorrente na obra de Nejar é o Pontal de Orvalho, espaço mítico que aparece em “Dom Luciano de la Tarde” . Embora simbolize o Rio Grande do Sul, o cenário é inspirado no Pontal de Santa Mônica, em Guarapari (ES), onde Nejar morou, de frente para o mar.
— Eu invento territórios, espaços ficcionais que vão se interligando ao longo dos livros — explica Nejar, enumerando alguns desses lugares, como Rio Pampa, Lajeado dos Pardais e Assombro. — No fundo, eles funcionam como uma espécie de mitologia própria.
'Transficções'
Indicado ao Nobel pela Academia Brasileira de Letras em 2017, Nejar lembra que sempre foi mais conhecido como poeta. Sua produção ficcional é tardia, começou após os 40 anos de idade, com “Um certo Jaques Netan” (1991).
— Agora que estão me reconhecendo a minha ficção, que tem uma proposta própria — diz o autor. - Eu não acredito muito em gêneros. Minha escrita mistura formas.
As suas “transficções”, como são conhecidas, não costumam seguir uma estrutura linear tradicional, com começo, meio e fim.
— Eu nunca sei exatamente como um livro vai começar ou terminar —diz Nejar. —Deixo que a invenção da linguagem se revele. Porque é melhor ficar perto do chão para ser plantado do que ficar no ar, não é?
