Carcaça animal como combustível de avião? Os projetos que colocam o Brasil na vanguarda da inovação sustentável
Enquanto o mundo convive com as incertezas provocadas por guerras em curso e a redução forçada na oferta de fontes de energia não renováveis, sobretudo o petróleo árabe, o investimento brasileiro em tecnologias para produção de biocombustíveis mobiliza diferentes projetos. Impulsionados por um cenário nacional favorável, como destacam especialistas, as frentes são diversas e vão de pesquisas com fungos que podem baratear o etanol à transformação da carcaça de animais mortos em combustível capaz de colocar caminhões e até aviões em movimento.
O movimento pela sustentabilidade na produção de energia envolve diferentes atores. Os projetos são encabeçados tanto por startups de menor porte quanto por empresas amplamente consolidadas no mercado, como a Petrobras. A estatal investe em um modelo de fabricação de combustível marítimo mais sustentável, uma espécie de “biobunker”. Entre os benefícios centrais está justamente a redução da emissão de gases do efeito estufa.
As universidades também desempenham papel-chave na consolidação de métodos que permitam a inovação na produção dos biocombustíveis. Um exemplo é a Estadual de Campinas (Unicamp), que detém uma técnica que permite a produção de uma nova geração de leveduras comerciais.
O projeto visa reduzir a dependência brasileira de tecnologias estrangeiras, além de permitir a queda no custo da produção industrial do etanol. Ou seja: enquanto contribui para a sustentabilidade, o trabalho também pode impactar no bolso na população.
Assim, apostar nos biocombustíveis não configura apenas uma estratégia de descarbonização. Para a professora Isabel Veloso, coordenadora do Núcleo de Estudos Avançados em Transição Energética, da FGV Direito Rio, o setor é crucial para o posicionamento econômico do Brasil nas cadeias globais de energia.
— O país tem vantagens comparativas claras, base agrícola e matriz relativamente limpa, que permitem transformar sustentabilidade em competitividade — defende a pesquisadora.
Conheça abaixo algumas dessas iniciativas.
Mercado de carbono
Com o objetivo de democratizar o mercado de carbono, o projeto Nosso Carbono, da Ígnea Biogás, usa sensores de vazão e dispositivos inteligentes instalados em usinas de biogás para medir, em tempo real, a quantidade de gás produzida e destruída. Desse modo, a equipe consegue evitar que o metano — causador do aquecimento global — vá para a atmosfera. Os dados coletados são enviados para uma plataforma que calcula quantos créditos de carbono a instalação gerou.
Eduardo Claviso, CEO da Ígnea Biogás, apresenta o projeto Nosso Carbono em evento
Divulgação/Ígnea Biogás
— Queremos permitir que qualquer planta de biogás, independentemente do tamanho, tenha uma ferramenta simples para provar sua sustentabilidade e gerar uma nova fonte de receita, transformando o passivo ambiental em um ativo financeiro — explica Eduardo Claviso, CEO da Ígnea Biogás.
Na avaliação da empresa, a principal inovação tecnológica é a “automação de confiança”. Se, tradicionalmente, medir créditos de carbono envolvia planilhas manuais e auditorias lentas, a iniciativa utiliza “tecnologia de ponta a ponta”, garantindo que o dado seja imutável e transparente. Significa, na prática, uma “assinatura digital” para o impacto ambiental.
Em fase piloto, o projeto foi idealizado para contornar uma dor real: a dificuldade do pequeno e médio produtor rural em acessar o mercado bilionário de créditos de carbono devido à burocracia e aos custos de medição. A empresa já possui hardware selecionado, a plataforma em nuvem operacional e o primeiro caso de estudo em Concórdia (SC).
— A força do projeto vem da união entre a iniciativa privada e órgãos de pesquisa — destaca Claviso.
Carcaça animal em avião
Imagine converter um dos maiores problemas da indústria de alimentos — o descarte de animais mortos e resíduos de frigoríficos — em combustível para aviões e caminhões. É essa a proposta da Haka Bioprocessos, em um projeto tecnológico inovador que já ultrapassa uma década de história. A ideia surgiu de uma pergunta simples: o que acontece se, em vez de enterrar ou descartar esse material, fosse possível transformá-lo em algo valioso?
Carne, gordura e matéria orgânica acaba convertida em biopetróleo
Divulgação/Haka
A empresa descreve o processo como uma “refinaria do futuro”. O resíduo passa por um preparo inicial e, em seguida, entra em um reator, onde é aquecido. Com isso, toda a carne, gordura e matéria orgânica é convertida em um tipo de óleo, chamado biopetróleo. Esse material, então, passa por um “refino” para remover impurezas e torná-lo pronto para virar um combustível limpo, como diesel verde e até o sustentável de aviação, conhecido como SAF.
A iniciativa é uma parceria com a Embrapa Agroenergia, que auxiliou na limpeza do óleo, de modo a impedir que danificasse equipamentos. Para a Haka Bioprocessos, o principal diferencial do recurso está na criação de um “sistema completo, que aproveita praticamente tudo”.
— Reduzimos o custo do descarte de carcaças, gerando combustível renovável essencial ao planeta — diz Joel Neves, conselheiro da Haka.
A solução altera a lógica de impacto negativo do descarte de animais mortos, transmutando um custo e um problema ambiental em fonte de receita e energia limpa. A Haka opera hoje uma planta piloto, onde produz amostras e valida a tecnologia. O próximo passo é a construção, em breve, de uma unidade maior.
Navios com combustível renovável
Em uma das frentes no desenvolvimento de combustíveis marítimos mais sustentáveis, a Petrobras vem investindo em um bunker — como são chamados esses materiais — com conteúdo renovável. O combustível VLSFO B24 combina o produto mineral tradicional com 24% de biodiesel. A solução pode ser utilizada diretamente nos motores das embarcações sem necessidade de adaptações, o que permite antecipar a transição energética com a infraestrutura já existente.
A Petrobras estima que seu VLSFO B24, que combina o bunker tradicional com biodiesel, pode reduzir as emissões em até 20%
Daniela Xu/Agência Petrobras
A Petrobras diz ter elaborado “uma solução de pronta aplicação” e a vê como um avanço significativo, já que misturas com teores elevados de biocombustível exigem testes de estabilidade, compatibilidade e desempenho para atender às especificações internacionais. Segundo a empresa, o projeto surgiu a partir de um olhar diante do ambiente regulatório global e das demandas crescentes por soluções que reduzam a emissão de gases do efeito estufa.
A empresa estima que a iniciativa pode resultar na queda de aproximadamente 20% das emissões, a depender da matéria-prima utilizada no biodiesel. A Petrobras afirma ainda que prioriza a utilização de biodiesel derivado de fontes residuais, com certificação internacional de sustentabilidade.
Por ora, o VLSFO B24 encontra-se disponível, “na prateleira”, no Terminal de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A estatal firmou contratos de longo prazo para fornecimento desse combustível na região, no contexto de desenvolvimento do corredor verde entre Brasil e Europa. O objetivo é expandir a oferta para outros polos logísticos relevantes futuramente, com destaque para o Porto de Santos, em São Paulo.
Fungos no etanol
A Bioinfood aposta no desenvolvimento de uma nova geração de leveduras comerciais, os fungos responsáveis pela fermentação, para biocombustíveis. Com a inovação tecnológica, a empresa pretende melhorar a eficácia do processo e diminuir custos da produção industrial de etanol.
Nova geração de leveduras comerciais, fungo que faz a fermentação, pode diversificar “o portfólio e a receita de indústrias”, diz a Bioinfood
Divulgação/Bioinfood
O trabalho é uma parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que detém uma patente chave para a técnica pretendida pela Bioinfood. O projeto, que também visa reduzir a dependência brasileira por tecnologias estrangeiras, conta ainda com apoio da Finep, uma empresa pública vinculada ao Ministério do Desenvolvimento.
O resultado desejado consiste numa levedura capaz de expressar enzimas não convencionais que, durante a fermentação, disponibilizam mais açúcares. Como consequência, há maior produção de etanol.
— Acelerar e escalar biotecnologias exige um esforço coordenado entre ciência e mercado — resume Gleidson Teixeira, cofundador da Bioinfood.
Na avaliação da empresa, a iniciativa está estrategicamente alinhada às políticas públicas para a transição energética sustentável, “por introduzir e acelerar a adoção de processos biotecnológicos de baixo impacto ambiental e alta eficiência, fundamentais para a meta de transformação e fomento à bioeconomia”. Além disso, a nova tecnologia contribui também com impacto positivo na estrutura de mercados globais, uma vez que “oportuniza, integra e diversifica o portfólio e a receita de indústrias”.
