No dia 28 de agosto de 2025, a avenida Brigadeiro Faria Lima acordou tomada por viaturas. O coração financeiro do país foi alvo de três operações policiais ao mesmo tempo: a Tank e a Quasar, da Polícia Federal (PF), e a Carbono Oculto, deflagrada pelo Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Realizadas com o apoio da Receita Federal, as ações eram complementares. O objetivo: desmantelar as estruturas financeiras usadas para lavar e ocultar dinheiro de criminosos vinculados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A presença de viaturas e agentes de polícia em 63 endereços na Faria Lima deixou um clima tenso no ar. Em apenas 2,5 quilômetros da avenida, foram 40 alvos.
Além deles, dezenas de outros endereços nos arredores receberam mandados de busca e apreensão. Acostumados a ambientes de luxo e tranquilidade, executivos e funcionários das financeiras se surpreenderam com a presença de policiais fortemente armados.
Postos de combustíveis e lojas de conveniência sempre foram instrumentos privilegiados para a lavagem de recursos criminosos, uma vez que são empresas que movimentam grande quantidade de dinheiro vivo. Ao serem incluídas no esquema, as fintechs da Faria Lima elevaram o alcance das fraudes bancárias.
Com elas, foi possível escamotear a propriedade de recursos e ativos financeiros na casa dos bilhões por meio de transferências em cascata entre fundos de investimentos. Um dos principais alvos daquela quinta-feira inusual foi a gestora Reag, que seria liquidada dali a alguns meses, em janeiro de 2026.
Ao menos oito fundos de investimento geridos ou administrados pela financeira foram alvo de busca e apreensão naquele 28 de agosto. Desvelado pela Operação Carbono Oculto, o emaranhado de fundos da Reag gerou informações importantes para a Receita Federal descobrir como operam as novas engrenagens da lavagem de dinheiro.
As diligências contra o dinheiro do PCC geraram know-how para o Estado rastrear recursos financeiros de outras atividades ilícitas. Depois da operação, o governo exigiu mais transparência dos fundos de investimento, implantando, por exemplo, o e-BEF, formulário que obriga a revelar os beneficiários finais de fundos com estruturas patrimoniais complexas.
Fundos de investimento regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), porém, não precisam preencher o cadastro diretamente uma vez que, em tese, prestam informações mensalmente. O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, considera que, entre os legados da operação, estão avanços tecnológicos para a fiscalização.
O conhecimento sobre a cadeia de fundos revelado pela Carbono Oculto ajudou, por exemplo, a rastrear a rede de transações fraudulentas do Banco Master. “Quando a Reag saiu na Carbono Oculto, já era possível vislumbrar uma conexão dela com o Banco Master.
Se não fosse a Reag aparecer na Carbono Oculto, não teria intervenção no Banco Master”, aponta o presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz. O grupo de Beto Louco e Primo e o Banco Master, de Daniel Vorcaro, usavam métodos semelhantes para inflar o valor de fundos de investimento.
Uma das táticas, reproduzida nos dois esquemas, foi a aquisição dos papéis podres do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) - um negócio de muitos milhões. Após anos de prejuízos, em 2009, o Besc foi extinto e incorporado ao Banco do Brasil.
Dali a 15 anos, do dia para a noite, a instituição financeira teve uma espécie de sobrevida: títulos que já não valiam mais nada foram inflados artificialmente. Beto Louco e Primo começaram, em 2022, a alocar valores desviados de sonegação fiscal no fundo Mabruk II, então gerido pela Reag.
No ano seguinte, o Gaeco deflagrou a Operação Cassiopeia. O fundo aparecia como dono da Aster, distribuidora de combustíveis.
Depois da Cassiopeia, com medo de um bloqueio patrimonial a qualquer momento, Beto Louco e Primo passaram a diversificar a aplicação de seus lucros, montando uma cadeia de fundos. Nesse momento, o empresário João Carlos Mansur, então dono da Reag, sugeriu que a dupla investisse nos papéis do Besc.
Os títulos do Besc eram comprados a cerca de R$ 1 e valorizados artificialmente quando passavam de um fundo da Reag para outro. No fim da cadeia, um título que valia R$ 1 passava a valer R$ 600.
Entre os fundos usados nessa teia de valorização, estava o Gold Style, conectado a Primo e à sua esposa, Silvana Corrêa, segundo a investigação. Na época que o banco catarinense foi federalizado, os acionistas tiveram duas alternativas: ou converter 12 ações do Besc por uma do Banco do Brasil, ou vender cada ação por R$ 2,45.
Alguns, porém, acharam que sairiam perdendo e não aceitaram o negócio. Os títulos que não foram convertidos seguem circulando.
Chamados de cártulas do Besc, são pedaços de papéis que não têm valor real. Para serem valorizados, precisam ser comprados pelo Banco do Brasil, que hoje só faz o negócio se for obrigado pela Justiça.
As cártulas do Besc são malvistas no mercado e há até desconfiança de que parte delas seja falsificada, já que são papéis físicos. Mesmo quando uma decisão judicial permite a conversão pelo banco federal, os títulos ficam com um valor aproximado de R$ 2 - bem distante dos R$ 600 que constavam nos balanços dos fundos da Reag.
O dinheiro que estava no Mabruk II também foi destinado para a Usina Catanduva, do Grupo Virgolino de Oliveira. O aporte foi de R$ 43 milhões para que a usina voltasse a moer cana-de-açúcar.
Outro destino dos recursos acumulados no Mabruk II foi o Fundo Pompeia. As investigações apontam que R$ 224 milhões do Mabruk II foram para a Scotia Holdings e, em seguida, pularam para o Pompeia.
De lá, o dinheiro foi para outras empresas que acabaram investigadas na Carbono Oculto, como a FL Properties and Investments, usada para comprar o terreno onde seria construída a futura sede da Usina Itajobi, o “palácio de Primo”. O terreno foi comprado por R$ 3,9 milhões e passou por cinco contas bancárias do BK Bank em apenas sete minutos.
A operação distanciou a origem ilícita do dinheiro do destino final. Para os vendedores e no cartório, o comprador do imóvel foi a RGP Property (atual FL Properties), e não os líderes da organização criminosa que comandava a Copape a Aster.
O Gold Style, fundo que participava do “milagre da valorização” dos fundos do Besc, é considerado, pelos investigadores, como uma camada intermediária na engenharia financeira do grupo de Beto Louco e Primo. Em uma das transações mapeadas, a distribuidora de combustíveis do grupo, a Aster, transferiu recursos para o Gold Style, que, por sua vez, repassou para o Anna, outro fundo, que enviou o montante para o Hans 95.
No início de 2026, o Banco Central (BC) identificou seis fundos que teriam ligações tanto com o escândalo do Master como com a Carbono Oculto: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. Parte desses fundos leva o nome de personagens do desenho animado Frozen, da Disney, e, por isso, são chamados de fundos Frozen.
Pertencentes à mesma cadeia de investimentos, eles tinham como beneficiários finais três cotistas: os filhos de João Carlos Mansur, o ex-dono da Reag. A utilização de fundos dentro de fundos cria várias camadas de ocultação e dificulta a localização dos reais detentores do dinheiro: ou seja, é um mecanismo eficiente para blindar o patrimônio.
A estratégia foi usada pela Reag para as mais diversas operações ilegais. Tanto que a colaboração premiada de Mansur, acertada com a Procuradoria-Geral da República em setembro de 2026, tem sido chamada, nos corredores do Ministério da Fazenda, de “delação do fim do mundo”.
O esquema fraudulento liderado por Beto Louco e Primo abrangia adulteração de combustíveis, sonegação fiscal e ocultação patrimonial, entre outros crimes. As atividades criminosas se estendiam desde a administração de plantações de cana-de-açúcar no interior de São Paulo até as operações bancárias entre fundos de investimento situados na Faria Lima.
Um ano depois da Carbono Oculto, Primo e Beto Louco estão foragidos. Postos que eram controlados pela dupla continuam em atividade, apesar de não terem autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Em São Paulo capital, motoristas se perguntam sobre a qualidade do combustível que usam para abastecer seus veículos. No interior, trabalhadores de canaviais não sabem se receberão os salários atrasados.
Ainda assim, os legados da Carbono Oculto são consistentes. O governo paulista estima ter aumentado a arrecadação do setor de combustíveis em quase R$ 3 bilhões após a operação.
O fim do império de Primo e Beto Louco também estimulou a concorrência e, agora, há mais disputa pelo consumidor. A defesa de Mohamad Mourad diz que as acusações são especulativas e “não encontram respaldo nos autos do processo”.
Os advogados negam que Primo tenha relações com o PCC, afirmando que a inocência do cliente será provada na Justiça. Leia nota completa da defesa aqui
A defesa de Roberto Leme, o Beto Louco, diz que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e garante que responderá a todas as acusações quando isso acontecer. Os advogados consideram um “erro grave” estabelecer relações entre o cliente e o PCC.
Leia nota completa aqui. O advogado William Martinez, que representa a Usina Itajobi, nega que existam vínculos entre a usina e o PCC e reclama que as associações feitas após a deflagração da Carbono Oculto estão causando danos reputacionais à empresa.
O advogado que representa a BK Bank esclarece que a instituição já apresentou às autoridades responsáveis pelas investigações relacionadas à Operação Carbono Oculto todas as informações pertinentes. Ressaltou também que a BK Bank exerce atividades lícitas, submetidas à regulamentação e à fiscalização do Banco Central do Brasil.
A Reag não quis se manifestar.
Metropoles