Capo 'sanguinário' da contravenção, patrono do Salgueiro e mais: conheça a história de Adilsinho, bicheiro preso pela PF

 

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A festança para 500 convidados aconteceu no Copacabana Palace. Foi animada por shows de estrelas da música brasileira como Gusttavo Lima, Ludmilla, Alexandre Pires e Dudu Nobre. Era maio de 2021, o país vivia o auge da mortal pandemia de Covid-19, e as autoridades recomendavam distanciamento social como forma de evitar a propagação da doença. Imagens da fila na porta do hotel luxuoso se espalharam pelas redes, assim como o convite em forma de vídeo, inspirado no tema “máfia”, com trilha sonora emprestada do filme “O poderoso chefão”. Como todo aniversariante, Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, queria fazer da celebração dos seus 51 anos um evento inesquecível. Conseguiu.

Adilsinho: contraventor apontado como chefe da máfia do cigarro, é preso pela PF e Polícia Civil do Rio

Operação Libertatis II: o que é a ação da PF que levou à prisão de Adilsinho, contraventor apontado como chefe da máfia do cigarro

Um mês após posar vestindo black tie no Copacabana Palace, Adilsinho foi alvo da Operação Fumus, da Polícia Federal — pela primeira vez, a corporação o acusava de chefiar uma quadrilha que impunha, com violência, o monopólio da venda de cigarros ilegais no Grande Rio. Ao longo dos quatro anos seguintes, ele foi incluído em quase uma dezena de operações, até ser preso na manhã de ontem, em Cabo Frio, na Região dos Lagos.

Adilsinho nasceu em maio de 1970, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, época em que os pontos da cidade passaram a ser dominados pela “Paratodos”, banca de jogo do bicho da qual seu pai era sócio. A jogatina enriqueceu a família, que se mudou para o Leblon, na Zona Sul carioca.

Black tie. Festa de aniversário no Copacabana Palace

Reprodução/Redes sociais

O primeiro registro policial conhecido em seu nome é até singelo: em 1991, aos 21 anos, foi detido em flagrante dirigindo sem documentos. Com o tempo, sua ficha ganhou novas anotações: pouco mais de dois anos depois da festa no Copa, já foi procurado em sua cobertura na Barra da Tijuca por policiais civis que traziam um mandado de prisão por homicídio — mas não foi encontrado. Da contravenção em família, partiu para voos mais altos. Hoje, investigado por atos criminosos que incluem execuções, sequestros e atentados, é acusado de comandar um império clandestino com ramificações em vários estados do país.

Futebol e carnaval

Curiosamente, quando não estava se dedicando aos negócios ocultos que atraem a atenção da polícia, o contraventor sempre buscou algum tipo de exposição pública. Em 2010, fundou o Centro Esportivo Yasmin, clube de futebol batizado com o nome de sua filha, que um ano depois passou a se chamar Clube Atlético da Barra da Tijuca.

Além de presidente da agremiação, Adilsinho foi atacante do time, que participou de divisões inferiores no estado. Entre 2011 e 2018, disputou 63 partidas, marcou 10 gols e chegou a ser destacado como o jogador mais velho em atividade no país. As cores da equipe são as mesmas do Fluminense, time de coração do cartola e artilheiro. O escudo do tricolor das Laranjeiras, inclusive, é sua marca no submundo da contravenção e está estampado até nos lacres de suas máquinas de caça-níquel.

A atenção pública voltou-se para Adilsinho mais uma vez em março de 2024, quando o contraventor foi apresentado na quadra do Salgueiro, no Andaraí, como patrono da escola. O posto já havia sido ocupado pelos bicheiros Miro e Maninho, pai e filho, mortos em 2004: o primeiro, vítima de complicações decorrentes de um enfisema pulmonar, e o segundo, assassinado.

Desde então, uma disputa sangrenta pelo comando da escola e outras empreitadas do clã se consolidou. Alcebíades Paes Garcia, o Bid, irmão de Maninho, foi assassinado após uma noite na Sapucaí, no carnaval de 2020. Preso como mentor intelectual do crime, Bernardo Bello foi casado com Tamara Garcia, irmã gêmea de Shanna Garcia, filhas de Maninho. José Luís de Barros Lopes, o Zé Personal, então marido de Shanna, foi baleado e morto em 2011. E própria Shanna Garcia sobreviveu a um ataque a tiros em 2019.

Carnaval. Anunciado como patrono na quadra do Salgueiro

Reprodução/Redes Sociais

Com apoio de Rogério Andrade e Vinicius Drumond, integrantes, assim como ele, da chamada “nova cúpula do bicho”, Adilsinho tomou áreas do jogo ilegal que, no passado, eram dominadas por Maninho. O passo seguinte foi dar as cartas no mundo do carnaval. Durante uma feijoada na quadra do Salgueiro, o novo patrono discursou:

— Espero com a minha chegada conseguir estar levando o Salgueiro, junto com todo o pessoal, o presidente, os segmentos. Sem vocês, é difícil. Espero contribuir bastante — disse, na época.

No carnaval de 2025, o nome de Adilsinho como patrono da agremiação foi lembrado ao microfone em plena Sapucaí, mas a escola não teve bom desempenho na disputa do Grupo Especial: acabou ficando fora do Desfile das Campeãs, o que motivou uma nota indignada dirigida aos “ladrões de plantão”. Este ano, outra mensagem, divulgada horas antes da passagem da escola pela Avenida, mencionou “plena confiança na realização de julgamentos justos” e fé na “lisura, no comprometimento e na condução séria” da Liesa e de seu presidente, Gabriel David. Houve quem enxergasse no tom do texto o inconformismo do patrono do Salgueiro com o resultado do carnaval anterior.

Adilsinho teria creditado as notas baixas recebidas pela agremiação em 2025 à sua má relação com os bicheiros da “velha guarda”, como Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, e Anísio Abraão David, patronos, respectivamente, da Vila Isabel e da Beija-Flor. Contou-se, nos bastidores, que, este ano, ele chegou inclusive a pedir que seu nome fosse desvinculado da agremiação: orientou que fossem evitadas menções a ele na quadra, assim como em entrevistas, para não atrapalhar o alto investimento feito no desfile do Salgueiro.

‘Nova cúpula’

Longe dos holofotes dos estádios, do Copacabana Palace ou da Sapucaí, Adilsinho, antes visto pelas autoridades como um bicheiro de “segundo escalão”, foi ganhando poder e influência no submundo do crime. Em uma ligação interceptada pela Polícia Federal, tornada pública em 2022, manifestou a intenção de criar uma nova cúpula do jogo. “O ‘verde e branca’ falou comigo de fazer uma nova organização. Só que eu não consigo falar com ele. Eu também quero, eu também quero poder”, disse. Segundo a PF, “verde e branca” seria uma referência a Rogério Andrade, patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, que tem as duas cores em sua bandeira.

A nova organização sugerida substituiria justamente a de chefões como Capitão Guimarães e Anísio. “Já deu, já passou! É outra geração agora! Tem que entender! Não tem santo... é tudo malandro! Tudo bandido mesmo! Trata a gente bem na vaselina, mas quer ser centralizador! A velha cúpula já foi há muito tempo”, afirmou Adilsinho.

O aumento da área de atuação, quando passou a reinvestir o dinheiro do jogo ilegal na produção e comercialização de cigarros clandestinos, levou a outros crimes. Desde 2022, pelo menos 70 cidadãos paraguaios já foram resgatados de condições análogas à escravidão em fábricas clandestinas da quadrilha instaladas em três cidades do Rio. Aliciados em seu país de origem, os estrangeiros foram trazidos ilegalmente e, em depoimento, relataram jornadas de 12 horas diárias, sem folgas, sob a vigilância de segurança armado.