Capacitação de policiais e acordos globais no combate à manipulação de apostas
O crescimento do setor de apostas de quota fixa no Brasil traz desafios que dificultam o amadurecimento do mercado. A manipulação de resultados esportivos é um dos entraves que o Ministério do Esporte vem tentando combater no país. A Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e Desenvolvimento Econômico do Esporte, do Ministério do Esporte, implementou várias ações com o objetivo de coibir a prática da manipulação desde a regulamentação dos jogos estruturada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda.
Em 2025, a Secretaria de Apostas Esportivas criou um grupo de trabalho composto por representantes dos ministérios do Esporte, da Fazenda, da Justiça e Segurança Pública e da Polícia Federal, com o objetivo de elaborar a proposta da Política Nacional de Combate à Manipulação de Resultados Esportivos, a partir de atividades e debates coletivos.
— Detectamos que o problema da manipulação cresceu muito pela falta de regulação (entre 2018 e 2023). Houve um capital excessivo despejado no mercado e um empreendedorismo criminoso que surpreende a todo momento. Essas quadrilhas começaram a aliciar cada vez mais jogadores, e entendemos que era muito importante criar uma política que fosse perene, envolvendo outros ministérios — explicou Giovanni Rocco, secretário nacional de Apostas Esportivas e Desenvolvimento Econômico do Esporte, durante o painel “A construção de um mercado regulado”, no SBC Summit, evento do mercado de iGaming que aconteceu no Rio de Janeiro entre 3 e 5 de março de 2026.
O grupo de trabalho (GT) realizou uma série de atividades em conjunto. Um dos destaques foi o I Encontro Técnico Nacional sobre Combate à Manipulação de Resultados Esportivos, que aconteceu em setembro do ano passado, voltado ao treinamento das forças de segurança para o enfrentamento das manipulações esportivas. O segundo encontro está previsto para acontecer no final de abril de 2026.
— O GT foi criado e já fizeram evento técnico de capacitação de policiais. O crime de manipulação de resultados é muito complexo para identificar, produzir provas, fazer a parte da investigação. Entendemos que era necessário capacitar as polícias civis de todas as unidades da federação e a Polícia Federal. Notamos que, com essa capacitação, o número de apontamentos caiu. As quadrilhas perceberam que o Estado está atuando — comemorou Rocco.
O Ministério do Espor te também firmou parcerias com entidades internacionais para ter acesso a tecnologia avançada e a dados globais que ajudam no monitoramento das práticas. Além disso, assinou acordos de cooperação com instituições especializadas em integridade esportiva, que encaminham à pasta relatórios com análises de partidas potencialmente suspeitas de envolvimento em manipulação de resultados. Por último, aderiu à Convenção de Macolin, tratado internacional criado pelo Conselho da Europa com o objetivo de combater a manipulação de competições esportivas a partir da cooperação entre governos, autoridades do setor de esportes e operadoras de apostas.
Em 2026, a Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte assinou acordos de cooperação técnica com o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC) e com o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), com o objetivo de conscientizar atletas sobre integridade esportiva.
Durante sua participação no painel do SBC Summit, Giovanni Rocco exaltou as conquistas do segmento, a partir da regulação do mercado, e ressaltou a importância de combater operadoras ilegais para eliminar a manipulação esportiva.
É de competência exclusiva da Secretaria o combate à manipulação de resultados e a proteção à integridade do esporte. Há uma quantidade de recursos muito grande vindo para as entidades esportivas. Nós nos preocupamos em combater o mercado ilegal, porque, quando ele é muito grande, não conseguimos fazer o combate e a prevenção à manipulação de resultados — afirmou ele, acrescentando que o governo federal segue no caminho de derrubar as plataformas ilegais:
— Já foram bloqueados mais de 27 mil sites ilegais. Não são 100 ou 200. E ainda tem muito para derrubar, porque é um sistema complexo. Isso não se resolve da noite para o dia.
Expectativa dos operadores é que futebol seja capaz de atrair novos apostadores este ano
A proximidade da maior competição internacional de futebol entre seleções masculinas, em junho, desperta expectativas e projeções sobre o mercado brasileiro de apostas. É a primeira vez que o país participará do evento com o setor regulamentado. A VBET, uma das plataformas licenciadas no Brasil, acredita que o torneio vai ser o maior em termos de volume de transações de apostas. Para Ruben Tovmasyan, CEO da VBET Brasil, o campeonato deve atrair um novo perfil de jogador.
Integrantes do I Encontro Técnico Nacional sobre Combate à Manipulação de Resultados Esportivos
MARIANA RAPHAEL/MESP
— Esperamos um aumento expressivo de público, superior a 100% em comparação a períodos de competições regulares, como as ligas europeias ou o Brasileirão. O evento não atrai apenas o apostador recorrente, mas o “apostador de ocasião”, que vê no torneio a extensão do entretenimento social — afirma ele.
Tovmasyan acredita que o retorno dos rendimentos alcançados durante o período da competição e a sustentabilidade do negócio precisam ser garantidos pela superação do principal desafio do segmento: o combate ao mercado ilegal.
— Enquanto empresas comprometidas com a integridade investem recursos significativos para cumprir exigências de licenciamento, pagamento de outorgas e conformidade técnica, operadores ilegais continuam a atuar à margem da lei. Essa ilegalidade drena recursos que deveriam ser revertidos em impostos para segurança, educação e esportes no Brasil. Mais do que uma questão fiscal, a atuação de sites não autorizados gera uma concorrência desleal. O grande diferencial de um mercado regulamentado é a segurança do apostador. Fora da regulamentação, o consumidor não tem garantias no pagamento de prêmios ou proteção de dados — aponta ele.
Para o CEO da VBET, é imprescindível que haja um esforço conjunto entre governo e operadores licenciados no enfrentamento à ilegalidade. O ambiente rigorosamente fiscalizado e o bloqueio de plataformas ilegais, de acordo com ele, é o que vai garantir que o foco principal das apostas durante o torneio seja o entretenimento, fazendo ainda com que o segmento contribua efetivamente para a economia nacional.
— O sucesso da competição será medido não apenas pelos números de apostas, mas pela robustez e pela seriedade do nosso sistema regulatório — avalia Tovmasyan.
Gustavo Godinho, head jurídico, Regulatório e DPO da Blaze no Brasil, adianta que as plataformas devem oferecer diversas opções de jogos durante o torneio. Ele ressalta que o importante durante o período é buscar o entretenimento seguro:
— Torcemos para que os apostadores, sempre maiores de 18 anos, façam uso de plataformas legalizadas e aprovadas pela SPA/MF, que vão oferecer odds, recompensas e muito conteúdo. Será possível apostar no campeão, no artilheiro e em cada partida individual. O intuito é jogar, se divertir e apostar com responsabilidade — concluiu o executivo.
