Cão Orelha: como um software francês ajudou a localizar autor durante ataque
Um software francês de geolocalização foi usado pela Polícia Civil de Santa Catarina para indicar a presença de um dos adolescentes suspeitos na área onde o cachorro Orelha foi atacado, no horário do crime. Os investigadores concluíram a investigação sobre a morte do cão comunitário na Praia Brava, em Florianópolis, e apontaram o jovem como autor da agressão.
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Para sustentar a acusação, os investigadores afirmam ter reunido contradições no depoimento do jovem, analisado mais de mil horas de imagens e coletado dados de localização obtidos por um software estrangeiro. De acordo com os investigadores, essa informação tecnológica reforçou a versão de que o jovem estava fora do condomínio no momento da agressão, diferentemente do que ele alegara em depoimento.
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Veja abaixo detalhes da investigação:
A madrugada do ataque
Segundo a Polícia Civil, Orelha foi atacado na madrugada de 4 de janeiro, por volta das 5h30, na Praia Brava, no Norte da Ilha. Laudos da Polícia Científica indicam que o cachorro sofreu uma pancada contundente na cabeça, possivelmente causada por um chute ou por um objeto rígido, como um pedaço de madeira ou uma garrafa. O animal foi resgatado no dia seguinte por moradores e levado a uma clínica veterinária, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos e passou por eutanásia.
Cão comunitário
Orelha vivia havia cerca de dez anos na Praia Brava e era considerado um mascote do bairro. Conhecido pela docilidade, era alimentado e cuidado por moradores e comerciantes da região. A morte do animal gerou forte comoção e mobilização social, com protestos e cobranças por respostas das autoridades.
Contradição no depoimento
De acordo com a polícia, o adolescente apontado como autor do ataque saiu do condomínio onde mora às 5h25 da manhã e retornou às 5h58, acompanhado de uma amiga. Em depoimento, no entanto, afirmou que havia permanecido dentro do condomínio, na área da piscina.
Segundo a corporação, o jovem não sabia que sua saída havia sido registrada por câmeras de segurança, o que levou os investigadores a classificarem o relato como contraditório e falso.
Mil horas de imagens
Para chegar à autoria, a Polícia Civil afirma ter analisado mais de mil horas de filmagens captadas por 14 câmeras instaladas na região da Praia Brava. Além disso, 24 testemunhas foram ouvidas ao longo da apuração. Inicialmente, quatro adolescentes chegaram a ser apontados como possíveis envolvidos, número que posteriormente subiu para oito investigados. No entanto, só foi pedida a internação de um deles.
Roupas, boné e tentativa de ocultação
A polícia também destacou a identificação das roupas usadas pelo adolescente no dia do ataque, registradas nas imagens analisadas. Quando o jovem retornou ao Brasil, após passar um período no exterior, foi interceptado no aeroporto. Segundo a corporação, um familiar tentou esconder um boné rosa e um moletom que estavam com ele.
Ainda conforme a investigação, o parente tentou justificar que o moletom havia sido comprado durante a viagem, versão que teria sido desmentida pelo próprio adolescente, ao admitir que já possuía a peça antes do crime.
Saída do país
O adolescente deixou o país após a morte de Orelha e permaneceu no exterior até 29 de janeiro. A Polícia Civil informou que a investigação avançou mesmo durante esse período e que o retorno do jovem foi monitorado. Após o depoimento prestado nesta semana, a corporação considerou o inquérito concluído e pediu à Justiça a internação do adolescente, medida equivalente à prisão no sistema adulto, devido à gravidade do caso.
Caso Caramelo
Além da morte de Orelha, a polícia concluiu a investigação sobre maus-tratos ao cão Caramelo, que teria sido levado ao mar e submetido a uma tentativa de afogamento no mesmo dia. Quatro adolescentes foram responsabilizados nesse episódio. Três adultos também foram indiciados por coação a testemunha relacionada à morte do cão comunitário.
Sigilo
Por envolver menores de idade, a Polícia Civil não divulgou nomes, idades ou detalhes que permitam a identificação dos envolvidos, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Todo o procedimento foi encaminhado ao Ministério Público e ao Judiciário para análise.
Defesa contesta investigação
Em nota, os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte afirmam que o adolescente foi indevidamente associado ao crime e que houve “politização do caso”. A defesa questiona a ausência de imagens que mostrem a agressão e sustenta que os elementos apresentados são circunstanciais.
Segundo os advogados, a necessidade de apontar um culpado teria comprometido a investigação e violado ritos legais, além de causar danos irreparáveis a pessoas inocentes. A defesa também afirma que ainda não teve acesso integral aos autos do inquérito.
