Cantareira entra no período de seca com pior nível em 10 anos, enquanto Sabesp aumenta captação

Cantareira entra no período de seca com pior nível em 10 anos, enquanto Sabesp aumenta captação

 

Fonte: Bandeira



O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Grande São Paulo, iniciou a estação seca de 2026 com o menor volume dos últimos dez anos, e em condições externas ainda mais pressionadas do que na principal crise da última década. Entrando com 40,9% do volume útil na última semana de maio, o reservatório está bem abaixo da faixa considerada normal — na casa dos 55% — e registra patamares que superam apenas o período da crise hídrica, entre 2014 e 2016. Neste cenário, especialistas alertam sobre a ampliação da retirada de água do sistema, que pode agravar o panorama hídrico nos próximos meses.

Segundo dados das agências reguladoras e de um relatório do Instituto Água e Saneamento (IAS), quando o Cantareira operava com volume semelhante ao atual (44%), em 2022, a Sabesp retirava 21,4 m³/s do sistema. Em abril de 2026, com o reservatório ainda mais baixo (42,5%), a média de captação saltou para 25,6 m³/s, alta de cerca de 20%.

A concessionária já havia batido recordes de retirada em 2025, e a combinação entre maior captação e menor reposição de chuvas acelerou a queda dos reservatórios. Para Eduardo Caetano, coordenador de conhecimento e difusão do IAS, as decisões tomadas pela empresa privada são difíceis de explicar.

— Em 2023, os mananciais estavam em nível bem mais confortável e estavam sendo retirados entre 21 m³/s e 22 m³/s de água. Hoje estamos em uma situação bem mais delicada, e a Sabesp está retirando cerca de 4 m³/s a mais. Algo que nos preocupa é ver como saímos de um quadro tão confortável em 2023 para um cenário bem alarmante, próximo do que já vivemos no passado — afirma.


A SP Águas, órgão estadual que fiscaliza a operação, pondera que a Sabesp ainda opera dentro dos limites regulatórios, já que na faixa 2 (nível de "atenção"), o teto permitido é de 31 m³/s. A concessionária também se apoia na interligação do Jaguari-Atibaia, que transfere água da Bacia do Rio Paraíba do Sul. Mas o cenário por lá não é tranquilo: no primeiro quadrimestre de 2026, a Sabesp já consumiu quase metade (48%) do autorizado para este ano.

— A previsão era de que no fim de abril a gente estivesse em torno de 46% do sistema integrado municipal de represas, e a gente estava com 53%, mais ou menos, o que já denota que de fato a gente tem se mantido acima, ou próximo ao patamar de segurança que foi traçado, mas isso foi graças às medidas que foram endereçadas — afirmou Camila Viana, diretora-presidente da SP Águas.

Inaugurada em 2018, a interligação Jaguari–Atibainha não impediu as quedas de nível registradas nos anos seguintes, período em que operou de forma intermitente ou ficou inativa. Reativada em maio de 2024, a obra coincidiu com o pico recente de 78% do sistema, mas os reservatórios já estavam em recuperação quando a transferência voltou a funcionar, o que limita o peso da interligação na melhora daquele ciclo.

Déficit de chuvas e projeções críticas

Além do cenário desconfortável sobre a retirada de água do sistema, o déficit de chuvas e o panorama meteorológico para os próximos meses não devem ajudar. Em abril, a vazão natural do Cantareira ficou 46% abaixo da média histórica, com déficit de chuvas na casa dos 30% no último mês. Como resultado, o volume retirado superou o volume que entrou, equação que, mantida, leva inevitavelmente à deterioração das condições do sistema. Em números, o pico neste ciclo chuvoso foi de apenas 41,6%, ante 60% no ano passado e 78% no ano anterior.

Mapa da rede de represas do Sistema Cantareira em São Paulo

Criação/O GLOBO

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) projeta que, mesmo com chuvas dentro da média histórica daqui para frente, o Cantareira deve encerrar setembro com apenas 36% de água no reservatório. Esse número é classificado como faixa de “alerta”, entre 30% e 40%, panorama já enfrentado em março deste ano.

— As frentes frias voltam a se deslocar de forma mais regular, o que diminui a velocidade de queda dos reservatórios e eventualmente permite a subida de alguns décimos percentuais. No entanto, teremos que atravessar o período seco com um dos piores níveis em dez anos e a expectativa de um El Niño que proporcionará ondas de calor na próxima primavera e verão — corrobora o meteorologista Alexandre Nascimento, sócio-diretor da Nottus.

Pressão reduzida e risco eleitoral

Para conter o consumo, a Arsesp mantém a redução de pressão nas tubulações em 10 horas diárias, acima das 8 horas previstas no protocolo original para a Faixa 2. A agência justificou a exceção pelo baixo nível do Cantareira, critério que não estava previsto nas regras iniciais. A diretora da SP Águas explicou também que a decisão é uma cautela adicional.

— A gente tem hoje um sistema muito mais resiliente do que tinha em 2014, por conta de obras estruturantes, como a transposição do Paraíba do Sul e o sistema produtor São Lourenço, além de obras que aumentaram a integração entre sistemas — diz Viana ao defender que, mesmo com uma situação difícil, a probabilidade de uma crise como a de 2014 e 2015 se repetir é menor hoje.

Janeiro de 2026: a barragem Jaguari-Jacarei faz parte do sistema de barragens da Cantareira de São Paulo, que abastece 46% da região metropolitana de São Paulo

Nelson ALMEIDA / AFP

Caetano, do Instituto Água e Saneamento, alerta que a medida de despressurização do sistema durante a noite tem efeito regressivo: afeta desproporcionalmente moradores de regiões periféricas e mais altas, onde a água começa a faltar primeiro e demora mais a voltar. O especialista também levanta preocupação com o calendário político e teme que medidas impopulares sejam adiadas em ano eleitoral.

— O receio que existe é que determinadas medidas realmente não sejam adotadas e que, na administração da gestão da demanda e do quanto se coloca de água na rede, esse problema vai demorando a ser combatido até as eleições — afirma. — Postergar o problema para transmitir um cenário de falsa tranquilidade é algo que pode custar muito caro depois das eleições.

Em nota, a Arsesp afirmou que fora do período em que está em vigor a Gestão de Demanda Noturna (GDN) a Sabesp deve assegurar a normalidade da pressão no abastecimento. A agência também reconheceu que a medida pode impactar o consumidor de forma desigual.

"Graças a essa ação, até o dia 10 de maio, mais de 140,1 bilhões de litros de água foram economizados, volume suficiente para abastecer o município de São Paulo por 40 dias", afirmou a nota. A agência afirma que o impacto da despressurização nos bairros mais afetados está sendo minimizado com um programa da Sabesp que distribui e instala caixas d´água para famílias de baixa renda.

Outro lado

Questionada pelo GLOBO, a Sabesp afirmou que está captando água no Cantareira dentro dos limites permitidos pela outorga. O contrato prevê que o período seco começa só em junho, e a empresa diz ainda que, quando foi feita a privatização, se comprometeu a investir em estrutura para reduzir impactos da exploração dos mananciais.

"O novo contrato de gestão da Sabesp, firmado em 2024, previu a apresentação de um Plano de Segurança Hídrica, com horizonte até 2060, voltado a garantir a disponibilidade de água ao longo de toda a concessão", diz a companhia em nota. "A diversificação de fontes e a ampliação da integração entre sistemas são, de forma estruturante, os principais eixos dessa estratégia de longo prazo".

A Sabesp argumenta também que o investimento em tecnologia ajudará a gerir a economia de água na distribuição.

"A companhia intensificou os investimentos no combate às perdas, com uso de tecnologias como inteligência artificial, imagens de satélite, sensores e câmeras inteligentes", afirma o comunicado. "Desde 2024, já foram investidos cerca de R$ 1 bilhão nessas ações, com previsão de R$ 9,7 bilhões até 2029. O objetivo é reduzir o índice de perdas totais da Sabesp, atualmente em 29,40%, percentual inferior à média nacional, que é de 40,31%."