As chamadas canetas emagrecedoras deixaram de ser assunto restrito aos consultórios e passaram a fazer parte das conversas nas redes sociais, entre relatos de pacientes, celebridades e influenciadores que compartilham suas experiências durante o tratamento.
Entre as mudanças mais comentadas estão a redução da fome, a maior sensação de saciedade e a perda do interesse por alguns alimentos.
Agora, outro efeito curioso vem aparecendo nesses relatos: perfumes que antes eram agradáveis passam a causar incômodo, sobretudo fragrâncias muito doces ou marcantes.
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A percepção não se limita aos cosméticos.
Algumas pessoas também relatam maior sensibilidade ao cheiro de determinados alimentos ou uma mudança na forma como sabores e aromas são percebidos.
Embora ainda não haja evidências suficientes para dizer que medicamentos que atuam sobre o GLP-1 alterem diretamente o olfato, especialistas apontam que outras transformações comuns durante o tratamento, como náuseas, redução do apetite e mudanças na relação com a comida, podem interferir na experiência sensorial.
Para o endocrinologista Renato Reis, é importante separar uma percepção relatada por pacientes de um efeito já comprovado e com mecanismo conhecido.
"Os medicamentos que atuam na via do GLP-1 interferem de maneira importante nos mecanismos relacionados à fome, à saciedade e ao comportamento alimentar.
Quando o paciente percebe que determinados cheiros ou sabores passaram a incomodar, precisamos considerar todo esse contexto.
É um fenômeno interessante, observado por algumas pessoas, mas que ainda precisa ser mais estudado para entendermos exatamente quais mecanismos estão envolvidos", explica.
A endocrinologista Maria Letícia Murba chama atenção para a proximidade entre olfato, paladar e náusea.
Embora sejam sentidos diferentes, eles participam conjuntamente da maneira como alimentos e aromas são experimentados.
"Nosso olfato e paladar não funcionam de maneira completamente independente.
Eles participam juntos da experiência que temos com alimentos e aromas.
Se o paciente apresenta náuseas ou passa a ter aversão a determinados alimentos durante o tratamento, é possível que alguns cheiros também sejam percebidos de outra maneira, especialmente aqueles que remetem a comidas muito doces ou intensas", afirma.
Por que perfumes doces podem incomodar?
A relação entre fragrâncias e comida pode ajudar a entender por que aromas antes agradáveis passam a causar rejeição.
Para a nutróloga Mariana Comério, a mudança pode estar ligada à forma como o cérebro integra cheiro, paladar, prazer e sensação de mal-estar.
"As canetas emagrecedoras alteram principalmente a relação com o paladar, a saciedade e o sistema de recompensa.
Um paciente que antes tinha uma procura muito grande por doces, por exemplo, pode perceber uma redução importante desse desejo.
Como nossas experiências sensoriais estão interligadas, o olfato também pode participar dessa mudança.
Se um cheiro muito doce passa a ser associado à comida, à náusea ou ao mal-estar provocado pelo medicamento, o organismo pode desenvolver uma espécie de resposta de aversão e aquela fragrância que antes era agradável começa a incomodar", diz Mariana.
Na prática, esse tipo de relato pode aparecer de diferentes formas.
A nutróloga diz que pacientes também mencionam incômodo com cheiros de comida ou repulsa repentina a determinados alimentos.
"É comum ouvirmos relatos como 'não tolero mais aquele perfume', 'o cheiro da comida me enjoa' ou 'senti determinado alimento e fiquei nauseada'.
Existe uma associação entre aquele estímulo sensorial e a possibilidade de mal-estar.
Não podemos afirmar que exista uma alteração direta do olfato causada pela medicação, porque isso ainda não está estabelecido cientificamente, mas observamos na prática que as mudanças fisiológicas de saciedade, paladar e náusea podem repercutir na experiência sensorial do paciente", acrescenta.
É motivo para preocupação?
Quando a mudança aparece durante o tratamento e está acompanhada de náuseas ou redução do apetite, pode ser passageira.
Isso não significa, porém, que qualquer alteração no olfato ou no paladar deva ser automaticamente relacionada à medicação.
A endocrinologista Patricia Gracitelli, recomenda atenção principalmente quando o sintoma é intenso ou não desaparece.
"Se a alteração começou durante o tratamento, é importante comunicar ao médico e observar sua intensidade e evolução.
Mas uma mudança persistente de olfato ou paladar possui diferentes causas possíveis e não deve ser atribuída automaticamente à medicação.
O contexto clínico é fundamental para decidir quando existe necessidade de investigação", orienta.
Mariana segue na mesma linha e reforça que a duração e a intensidade do sintoma são importantes para avaliar o quadro.
"Quando essa aversão aparece durante o tratamento, é leve e está associada às náuseas ou à redução do apetite, pode fazer parte das mudanças percebidas pelo paciente e tende a ser reversível.
Agora, se a alteração de olfato ou paladar for muito intensa, persistir ou continuar mesmo fora do tratamento, precisa ser investigada.
Existem outras condições capazes de provocar esse tipo de sintoma, e não devemos presumir que a medicação seja sempre a responsável", pondera.
As mudanças relatadas durante o tratamento podem aparecer também na percepção de cheiros e sabores.
Entre os exemplos estão fragrâncias que antes agradavam, mas que passam a incomodar, especialmente quando são muito doces ou intensas.
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