Canetas emagrecedoras no verão 2026: promessa de magreza e riscos ignorados
Fui salva pela agulha nesse verão.” Foi assim, sem cerimônia, entre um gole de água de coco e outro, que a frase saiu numa roda de conversa entre amigas. A que falou riu meio sem graça, meio aliviada. Disse que, depois de tantas tentativas, dietas, recomeços de início de ano, as tais agulhadas das canetas emagrecedoras lançadas tinham finalmente feito efeito.
Ficava com medo do bafo causado pelo tempo que agora consegue passar sem comer. Entende que precisa se policiar, mas está feliz. Com menos peso, menos culpa ao vestir o biquíni que estava aposentado. Um certo suspiro de vitória.
A outra, do outro lado da mesa, franziu a testa. “Não consigo normalizar isso”, falou baixo, mas firme. Disse que lhe incomodava a velocidade com que as canetas viraram solução mágica, quase acessório de verão. Que tinha medo da lógica do atalho. Medo do preço, depois. Medo do corpo virar campo de experimento, porque a pressa e a pressão são grandes. E também reforçou o quanto seguimos padrões estranhos sem pensar o quanto não fazem o menor sentido.
A terceira entrou na conversa como quem pede a palavra num debate antigo. “Mas deixa eu contar do meu lugar.” Ela não falava de verão. Falava de anos. De obesidade, de dores, de exames alterados, de médicos que recomendavam “força de vontade” como se fosse remédio. Em defesa, reforçou que as canetas, para ela, não eram questão de estética, mas tratamento. Um jeito, finalmente, sistemático, acompanhado, possível. Não milagre, ferramenta ainda em experimentação.
E ali, entre amigas, não houve consenso. Nem precisava. Porque o Verão das Canetas não é sobre concordar. É sobre o fato de que elas estão por toda parte, especialmente entre os privilegiados financeiramente e os que podem se dar o benefício da dúvida, já que não são nada baratas.
No consultório chique, no grupo de WhatsApp e em outras redes sociais, na conversa sussurrada da praia, no medo vencido de quem sempre detestou ser furada. As canetas emagrecedoras se popularizaram como combate ao sobrepeso, como promessa de magreza, como solução rápida para um problema que é tudo, menos simples.
O que chama a atenção não é a caneta em si ou a busca pelo emagrecimento, que já é tópico há tempos. É o quanto ainda precisamos falar mais de limites, de consequências, de uso contínuo, de efeitos no corpo e na cabeça. Ainda cabe muito espaço para se discutir o que é tratamento de saúde pública e o que é demanda estética empurrada por uma cobrança sem fim.
Que conta essas canetas vão trazer para a vida das pessoas? Segundo estudo recente publicado na revista Jama Network Open, 82% ganham peso após fim do tratamento. Para quem vive uma luta real contra o sobrepeso e a obesidade, podem representar conquista, alívio e possibilidade. Para outras, podem virar atalho e atalhos, a gente sabe, às vezes custam caro.
Enquanto isso, a estação passa, as fotos são postadas e as histórias de um sucesso imediato circulam mais rápido do que as dúvidas e estudos. E o debate fica ali, pairando como um calor que não vai embora: canetas ou não?
Mais do que demonizar ou glorificar, é hora de falar. De trazer o tema literalmente à mesa. Porque, se o Verão da Caneta chegou com tudo, ele pede menos hype e trends e mais conversa séria para entender até onde vai “o poder da caneta”. O corpo agradece. A saúde pública e coletiva também.
