Candomblé perde Mestre Luiz Bángbàlà

 

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A esposa do Ogan Bángbàlà, Maria Moreira-Harrungindala, publicou nesta madrugada no Facebook uma nota comunicando o falecimento do Mestre Bángbàlà, aos 106 anos, reverenciado como o Ogan mais velho do Brasil.

Em sua mensagem emocionada, ela escreveu que o Candomblé perdeu uma de suas figuras mais importantes, o Comendador Ogan Bangbala, o mestre dos mestres. “Meu coração sangra de tanta dor. Vá em paz, meu amor, meu orgulho, meu mestre.”

Luiz Ângelo da Silva, conhecido em todo o Brasil como Ogan Bángbàlà, nasceu em 21 de junho de 1919, no Bairro da Muriçoca, em Salvador, Bahia. Foi confirmado no Candomblé por Mãe Lili D’Oxum. Iniciado como Ogan ainda muito jovem, aos 14 anos, Mestre Bángbàlà construiu uma trajetória marcada pela disciplina, respeito à hierarquia e profundo compromisso com a tradição.

Seu nome religioso, Bángbàlà, em yorùbá, significa “ajude-me a receber riqueza” ou “que eu receba a riqueza”. Ele próprio se tornou essa riqueza viva, um baú de sabedoria, conhecimento e memória ancestral. Tocou atabaques nos mais célebres Terreiros do país, foi respeitado em casas das mais variadas nações e tornou-se referência incontestável.

Homem de múltiplos talentos, era mestre em capoeira, fabricava atabaques, berimbaus, caxixis e o tradicional ṣẹ̀kẹ̀rẹ̀, além de produzir e ministrar cursos de cantigas de Òrìṣà e percussão em sua residência na Baixada Fluminense, especialmente em Belford Roxo, no estado do Rio de Janeiro. Seus CDs com cânticos de Candomblé formaram e continuam formando jovens Ogans em todo o Brasil.

Também marcou presença nos Afoxés, tendo sido diretor do Filhos de Gandhy, em Salvador, e posteriormente integrante da diretoria do Filhos de Gandhy do Rio de Janeiro, sempre apoiando e fortalecendo a cultura afro-brasileira.

Em 2020, foi enredo da escola de samba Unidos do Cabuçu, que o homenageou com o tema “A Cabuçu canta pra subir no Centenário de Bángbàlà”. Recebeu importantes honrarias, entre elas a Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República, além de diversas distinções que reconheceram sua grandeza ainda em vida.

Ao longo de mais de um século, testemunhou profundas transformações históricas, lembrava da inauguração do Maracanã, falava de futebol com brilho nos olhos e afirmava que viver era uma dádiva. Nunca se considerou famoso. Dizia apenas que sabia se portar, respeitava a todos e não inventava moda. Realizou incontáveis Axexês pelo Brasil afora, sempre com extremo cuidado e reverência.

Agora, o Rio de Janeiro e o Brasil se despedem do Ogan mais velho em atividade, um patrimônio vivo do Candomblé, um homem que atravessou gerações mantendo intacta a essência do que aprendeu com seus mais velhos.

Aqui do ayé, os atabaques se silenciam em respeito. No Òrun, Olódùmarè e os àwọn Òrìṣà (Orixás) recebem aquele que dedicou cada batida de atabaque ao sagrado. O acolhimento certamente se dá com as merecidas honras de mestre eterno, guardião do ritmo e da tradição.

Mestre Bángbàlà retorna ao Òrun como riqueza viva, transformado em memória ancestral, exemplo e eternidade.

Kí Olódùmarè fún ọ ní ìsinmi tó yẹ. (Que Olódùmarè lhe conceda o merecido descanso.)