Seis candidatos estão na disputa pelo Governo do Pará nas eleições de 2026: Araceli Lemos (Psol), Dr.
Daniel Santos (Podemos), Gal Leite (UP), Hana Ghassan (MDB), José Lucivaldo Moita (Democrata) e Well Macêdo (PSTU).
A reportagem de O LIBERAL conferiu os planos de governo disponibilizados no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para identificar as principais propostas e os temas que recebem maior atenção nas plataformas.
Entre os temas mais recorrentes estão saúde, educação, segurança pública, geração de emprego e renda, infraestrutura e logística, meio ambiente e desenvolvimento econômico.
As plataformas, porém, dão pesos diferentes a essas áreas.
Enquanto alguns candidatos enfatizam serviços públicos e redução das desigualdades, outros priorizam infraestrutura, atração de investimentos, inovação, bioeconomia e desenvolvimento regional.
Os documentos também trazem propostas específicas.
Há quem defenda tarifa zero no transporte coletivo urbano, salário mínimo regional de R$ 2,2 mil, fim dos pedágios e câmeras corporais em 100% do efetivo policial.
Outros planos prometem 200 mil empregos formais, 30 novos terminais hidroviários, 1 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, 100% das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) conectadas à telessaúde e um Centro de Excelência em Inteligência Artificial.
Araceli Lemos
A plataforma de Araceli Lemos reúne 50 propostas e defende maior presença do Estado em serviços públicos.
Na área de saneamento, propõe revisar a privatização da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa) e criar uma nova companhia de água e esgoto.
Também prevê salário mínimo regional de R$ 2.200, concursos públicos e medidas para trabalhadores de plataformas.
Araceli Lemos (Foto: Cristino Martins | O Liberal)
Na saúde, estabelece prazo de até 60 dias para exames e procedimentos, interiorização do tratamento oncológico e descentralização do atendimento a pessoas com deficiência, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências.
No meio ambiente, propõe desmatamento zero e combate ao garimpo ilegal.
Também defende a retomada do controle estatal das rodovias privatizadas, com fim dos pedágios, câmeras corporais em 100% do efetivo policial e participação popular na definição do orçamento.
Dr.
Daniel Santos
O plano é organizado em oito eixos, incluindo gestão pública, desenvolvimento econômico, educação, saúde, segurança, infraestrutura, desenvolvimento humano e Amazônia.
Na educação, prevê formação profissional conforme as vocações de cada região e ampliação gradual do ensino em tempo integral.
Dr.
Daniel Santos (Foto: Wagner Santana/O Liberal)
A infraestrutura inclui investimentos em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos, energia, conectividade e logística integrada.
Entre as primeiras medidas estão um programa emergencial para reduzir filas na saúde, diagnóstico da infraestrutura das escolas, gabinete integrado de segurança, grupo para atração de investimentos e geração de empregos e um Plano Estadual de Infraestrutura e Logística.
A bioeconomia também é destacada.
Gal Leite
O programa da UP defende ampliação do papel do Estado e participação de trabalhadores e movimentos sociais nas decisões.
Propõe reestatizar empresas como Cosanpa e Centrais Elétricas do Pará (Celpa) e submeter grandes projetos a controle ambiental e social.
Gal Leite (à esquerda) ao lado de Raquel Brito (Carmem Helena/O Liberal)
Também prevê frentes emergenciais de trabalho e obras públicas, sistema estadual público e integrado de transportes, empresa pública estadual de transporte e rede pública hidroviária, com redução das tarifas e avanço para a tarifa zero.
Na área ambiental, defende brigadas contra queimadas, proteção de unidades de conservação e trata a natureza como sujeito de direitos.
Entre as propostas mais específicas estão hortas comunitárias em espaços urbanos ociosos e ações contra fogos de artifício com estampidos.
Hana Ghassan
O plano está dividido em três pilares: “Cuidar das Pessoas”, “Desenvolver o Pará” e “Preparar o Futuro”.
Na saúde, prevê o Hospital Estadual dos Olhos, dois novos Hospitais da Mulher, hospitais regionais, Hospital do Câncer Infantil e Hospital do Coração, além de Saúde Digital.
Hana Ghassan Tuma (Foto: Wagner Santana/O Liberal)
Na educação, propõe 200 Escolas Cívico-Militares, estágio remunerado, intercâmbio pelo “Bora Estudar pelo Mundo”, distribuição de tablets e Ensino Superior Tecnológico.
Também prevê o programa “Primeira Oportunidade” para jovens de 16 a 29 anos.
Na infraestrutura, quer pavimentar, requalificar e duplicar 2 mil quilômetros de rodovias estaduais.
O plano ainda propõe modernização do licenciamento ambiental, Plano Estadual de Adaptação Climática, mercado de carbono e combate ao desmatamento ilegal.
Entre as propostas específicas estão o Centro de Excelência em Inteligência Artificial, o “Banheiro em Casa” e isenção de Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para motos de até 200 cilindradas e carros elétricos de até R$ 150 mil.
José Moita
O plano se destaca pelas metas numéricas para 2030: mais de 200 mil empregos formais, 50 mil títulos fundiários, redução de 100% do desmatamento ilegal e substituição de todas as pontes de madeira das rodovias estaduais.
(divulgação / TRE)
Na saúde, prevê 100% das UBSs conectadas à telessaúde.
Na educação, o “Pará Alfabetizado” busca alfabetizar 100% das crianças até o fim do segundo ano.
Na economia, o “InvestPará 2.0” condiciona incentivos fiscais ao processamento local de matérias-primas e à contratação de pelo menos 80% de mão de obra local.
Na infraestrutura, propõe mais de 1 mil quilômetros de rodovias pavimentadas e 30 novos terminais hidroviários.
Também prevê 50 mil títulos de propriedade e recuperação de 1,5 milhão de hectares de pastagens degradadas.
Well Macêdo
O programa do PSTU tem como eixo a defesa de direitos trabalhistas e maior atuação pública em áreas estratégicas.
A candidata defende o fim da escala 6x1, sem redução de salários e direitos, estágio remunerado de um salário mínimo e garantia de inserção de jovens no mercado de trabalho.
Well Macêdo (Foto: Divulgação)
Na habitação, propõe um plano estadual de moradia pública, regularização fundiária gratuita e assistência técnica pública.
Na educação, prevê ampliação dos investimentos públicos, fim da privatização e terceirização de atividades permanentes e escolas técnicas públicas.
Na saúde, defende um sistema 100% público, estatal, gratuito e de qualidade.
O programa também propõe suspender sete megaprojetos para estudos independentes, demarcar terras indígenas, titular territórios quilombolas, realizar reforma agrária, combater o garimpo ilegal e reestatizar a mineração e setores estratégicos.
Também defende a descriminalização das drogas e a desmilitarização da Polícia Militar.
Leitura técnica
Para o cientista político Edir Veiga, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), os documentos apresentados pelos candidatos nem sempre podem ser considerados, propriamente, planos de governo.
Ele explica que alguns se aproximam mais de declarações de princípios ou diretrizes gerais.
“Um plano de governo deve abarcar no mínimo um diagnóstico geral, regional ou setorial do local onde se pretende atuar como governo”, afirma.
Ele também considera necessário apresentar eixos estruturantes, metas, fontes de financiamento e mecanismos de transparência e avaliação dos resultados.
Edir Veiga (Foto: Arquivo pessoal)
Na avaliação do professor, as diferenças entre as candidaturas também revelam distintas concepções sobre o papel do Estado.
Ele afirma que os programas de PSTU e UP apresentam uma rejeição mais clara à articulação entre poder público e iniciativa privada, defendendo que as políticas sejam executadas diretamente pelos órgãos públicos e estatais.
“As propostas revelam em suas nuances uma ideia genérica de um projeto de sociedade”, avalia.
Entre os documentos analisados, Veiga considera que o de Hana Ghassan é o que mais se aproxima de um plano de governo, por apresentar um diagnóstico, propostas para ampliar serviços e investimentos em infraestrutura logística e social.
O professor, entretanto, ressalta uma limitação: “não apresenta metas e muito menos fonte de financiamento destas propostas, parece mais uma declaração de intenções”.
Ele também aponta que a proposta de criação de 200 escolas cívico-militares deve provocar debate durante a campanha: “vem sendo proibidas pelo poder judiciário e tem ampla rejeição dos setores progressistas da sociedade”.
Sobre o Dr.
Daniel Santos, o cientista político avalia que o documento tem um caráter mais genérico.
“Parece uma carta aos eleitores, muito mais do que um plano de governo”, afirma.
Para Veiga, a candidatura de oposição mais competitiva também apresenta propostas que se aproximam de uma carta de princípios, embora considere a área da saúde mais consistente no documento, em razão da especialidade do candidato.
O professor também faz ressalvas às promessas que estabelecem grandes números sem detalhar como serão executadas.
Sobre propostas como a criação de 200 mil empregos e a pavimentação de milhares de quilômetros, ele afirma que, sem indicação de metas anuais, localização e fontes de financiamento, “parecem um programa promesseiro, demagógico e que poderá criar e ampliar as frustrações do eleitorado com as candidaturas”.
Para Veiga, propostas de ruptura, como o fim dos pedágios, a desmilitarização da Polícia Militar e a suspensão de grandes projetos, também funcionam como marcadores ideológicos das candidaturas.
Principais propostas dos candidatos
Araceli Lemos — Psol
Revisar a privatização da Cosanpa e criar uma nova companhia de água e esgoto.
Estabelecer salário mínimo regional de R$ 2.200.
Implantar tarifa zero no transporte coletivo urbano.
Estabelecer prazo de até 60 dias para exames e procedimentos.
Interiorizar o tratamento oncológico.
Retomar o controle estatal das rodovias privatizadas e acabar com os pedágios.
Instalar câmeras corporais em 100% do efetivo policial.
Criar Centros de Referência Integral ao Idoso em todas as regiões.
Dr.
Daniel Santos — Podemos
Criar um plano emergencial para reduzir filas de consultas, exames e cirurgias.
Ampliar a educação profissional de acordo com as vocações de cada região.
Expandir gradualmente a educação em tempo integral.
Criar um Plano Estadual de Infraestrutura e Logística.
Criar um grupo para atração de investimentos e geração de empregos.
Integrar políticas de bioeconomia, inovação e desenvolvimento sustentável.
Implantar uma plataforma digital única para serviços públicos.
Fortalecer a inteligência e a integração das forças de segurança.
Gal Leite — UP
Reestatizar a Cosanpa e a Celpa.
Criar frentes emergenciais de trabalho e obras públicas.
Implantar um sistema estadual público e integrado de transportes.
Criar empresa pública estadual de transporte e rede pública hidroviária.
Avançar em direção à tarifa zero no transporte.
Criar uma rede estadual de Centros de Referência da Pessoa com Deficiência.
Criar brigadas estaduais e comunitárias permanentes contra queimadas.
Tratar a natureza como sujeito de direitos.
Hana Ghassan — MDB
Construir o Hospital Estadual dos Olhos.
Construir dois novos Hospitais da Mulher.
Criar o programa “Primeira Oportunidade” para jovens de 16 a 29 anos.
Implantar 200 Escolas Cívico-Militares.
Criar o programa “Bora Estudar pelo Mundo”, com intercâmbio internacional.
Pavimentar, requalificar e duplicar 2 mil km de rodovias estaduais.
Implantar um Centro de Excelência em Inteligência Artificial.
Implantar o Programa “Banheiro em Casa” para famílias vulneráveis.
José Lucivaldo Moita — Democrata
Gerar mais de 200 mil empregos formais até 2030.
Conectar 100% das UBSs à telessaúde.
Alfabetizar 100% das crianças até o fim do 2º ano do ensino fundamental.
Pavimentar mais de 1 mil km de rodovias estaduais.
Construir 30 novos terminais hidroviários.
Substituir 100% das pontes de madeira das rodovias estaduais.
Entregar 50 mil títulos de propriedade.
Reduzir a zero o desmatamento ilegal.
Well Macêdo — PSTU
Acabar com a escala 6x1, sem redução de salários e direitos.
Criar estágio remunerado de um salário mínimo para jovens.
Implantar um amplo programa estadual de habitação pública.
Desapropriar grandes imóveis urbanos abandonados e sem função social.
Garantir saúde 100% pública, estatal, gratuita e universal.
Acabar com privatizações, terceirizações, OSs, OSCIPs e PPPs na saúde.
Suspender sete megaprojetos para estudos independentes.
Defender a reestatização da mineração e de setores estratégicos da economia.
