Campeões morais entre os botecos

 

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O que a costela no bafo do Cachambeer, o bolinho de feijoada do Aconchego Carioca e o bolinho de arroz do Momo têm em comum? Apesar de serem algumas das iguarias mais badaladas da gastronomia carioca, nenhuma delas conquistou o primeiro lugar no Comida di Buteco. Cartões-postais-etílicos da cidade, não ganharam a competição uma vez sequer. Mesmo sem nunca terem chegado ao topo do pódio no concurso, abocanharam um título muito mais importante, o de campeões morais.

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As polêmicas começaram já na primeira edição. O bolinho que carregava uma feijoada completa num bocado só era recém-nascido, um ano apenas. Coisa de louco: crocante por fora, cremoso por dentro, com a couve, as carnes e até um torresminho para acompanhar. Um divisor de águas no vocabulário das biroscas. Barbada, né? Que nada. Quem levou foi o original do Brás, com uma versão boba de bife à rolê.

O tempo fez seu trabalho direitinho e, em 2021, a criação de Katia Barbosa foi declarada Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Rio. Isso sem falar que virou símbolo da gastronomia carioca e é um dos petiscos mais copiados em bares e restaurantes país afora.

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No ano seguinte, só se falava nela: a costela no bafo do Cachambeer. Um prato-ostentação para Flintstone nenhum botar defeito. Horas e horas sendo velada de perto até ficar pronta, os ossos que saíam de puxar com as mãos, a carne desmanchando e as histórias do Marcelão para temperar a cerveja.

Dessa vez, estava tudo certo. Silêncio ensurdecedor para o anúncio do segundo e do primeiro lugares. Câmeras focadas na família Cachambeer. Eis que veio o nome do bar vencedor: Academia da Cachaça, com uma empada. Como se não bastasse, uma empada de queijo coalho e alecrim. Nada contra a empada. Está no cardápio até hoje e tenho até amigos que pedem. Mas é outro patamar.

Já o craque dos botecos, o Arroznaldo, do Momo, nem chegou a disputar as cabeças na época. O bolinho de arroz mais famoso da cidade atingiu uma tímida nona colocação em 2013. Quatro anos depois, o bar bateu na trave e ficou com o vice com um prato em homenagem a Aldir Blanc. O "entre o torresmo e a moela" era uma tigelinha com purê de batata-doce, moela, tomate, cebola, coentro e torresmo. Quem fez o gol? Bolinhos de milho recheados com carne seca e queijo, do Bar do Davi.

Já o Da Gema foi, sim, campeão do CdB. Foi em 2011, com o doce subsolo de buteco, um tutu de feijão preto, com carne seca desfiada, couve e creme de aipim, cheio de camadas, complexidade e sabor. Só que o curioso ali é que tem gente que jura de pé junto até hoje que o bar chegou a ser campeão com o pastel de feijão gordo ou com a polentinha com rabada. A verdade é que Luiza e Leandro nunca colocaram esses petiscos na competição.

Bar Sambódromo no Comida di Buteco

Divulgação

Tentando quebrar o encanto das surpresas da grande final, quem promete abalar as estruturas com o porquinho asiático em águas tupiniquins é o Bar Sambódromo. O guioza de porco com repolho caramelizado no molho de ostra e molho ponzu de tucupi já caiu no gosto do povo, dos especialistas e das redes sociais. Mas nunca se sabe. Em 2024, o porco ao mar, um carpaccio de barriga de porco com molho tarê de caldo de polvo, pimenta togarashi, ovas de tobiko, gergelim, cebolinha, raspas de limão e katsoubuchi, venceu todas as bocas de urna até os envelopes serem abertos, e não deu em nada. Será que agora vai?

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