A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial garantiu ao PT mais quatro anos no poder, mas também expôs a urgência de uma discussão que o partido adia há anos: quem ocupará o espaço político do presidente quando ele não puder mais disputar eleições. A reeleição reforçou o papel central do ex-líder sindical na esquerda, mas, diante de sua anunciada saída de cena — completou 81 anos nesta semana —, ficou ainda mais evidente a necessidade de o partido construir uma liderança capaz de herdar seu espólio.
Menos mau que a histórica virada no segundo turno, mais do que levar Lula a um triunfo que parecia improvável, sinalizou mudanças na hierarquia do petismo e apontou os principais candidatos a carregar o bastão a partir de 2030. As novas movimentações ficaram visíveis na composição do palanque da vitória.
Ganharam destaque o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e o ex-governador do Ceará e senador Camilo Santana, ambos citados nos pronunciamentos após a proclamação do resultado — além deles, foram mencionados o vice-presidente Geraldo Alckmin e o deputado federal André Janones, responsável pela estratégia digital que alavancou a virada no segundo turno.
Tanto Camilo quanto Fonteles estavam postados estrategicamente ao lado do presidente nas duas ocasiões. COMPANHEIRO - Alckmin “faz o L” na Paulista: vice também é opção para 2030Arthur Lamonier/Thenews2/Ag.
O Globo/. A ascensão dos governadores do Nordeste não se deu à toa.
Ambos foram chamados às pressas e assumiram funções vitais de coordenação no segundo turno, depois de o presidente terminar a primeira rodada atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Fonteles foi responsável por ajudar na errática comunicação da candidatura, enquanto Camilo assumiu a coordenação geral do segundo turno, dividindo o posto com o presidente do PT, Edinho Silva, muito criticado por fragilidades na campanha que o próprio Lula chamou de a “menos organizada” da qual participou.
Lula só foi citar Edinho na quarta-feira 28, quando fez um post nas redes: “Quero aqui fazer um reconhecimento ao trabalho realizado pelo companheiro Edinho Silva, presidente do meu partido e coordenador da minha campanha. Sua dedicação foi fundamental para a pavimentação desse caminho que nos conduziu à vitória”, escreveu.
Edinho agradeceu, mas reconheceu a necessidade de mudanças. “Somos o maior partido de esquerda da América Latina.
Sei que temos desafios e muitas mudanças a serem feitas. E elas serão feitas, na escuta e no diálogo com a direção partidária e a nossa base”, respondeu.
A ascensão de Fonteles e Camilo coroa a relevância crescente do Nordeste para o PT e Lula. Reeleito com mais de 70% dos votos no primeiro turno, Fonteles, 41 anos, é o segundo governador mais jovem do país (atrás de Lucas Ribeiro, da Paraíba, 37).
Ao longo da campanha, ele abasteceu a equipe com trackings que ganharam o apelido de “DataRafael”. Quando menos de 2% das urnas haviam sido apuradas e o clima entre os aliados era de apreensão, ele publicou um vídeo nas redes falando que já era possível dizer que Lula seria o escolhido.
Matemático de formação — foi o primeiro no vestibular, graduou-se pela Universidade Federal do Piauí na metade do tempo previsto e fez mestrado em economia matemática aos 19 anos, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), do Rio de Janeiro —, ele explicou que, mesmo que o percentual da apuração fosse baixo, já havia muito mais votos computados do que entrevistas coletadas em qualquer pesquisa, o que já permitiria fazer uma estimativa “com rigor estatístico enorme”.
Continua após a publicidade NO PÁREO - Haddad: aposta antiga para suceder a Lula, ele acumula derrotas eleitorais, mas tem confiança do presidenteRoberto Casimiro/Fotoarena/.
Fonteles, porém, tem outras características que o credenciam a ganhar espaço com Lula. Ele foi secretário estadual da Fazenda na gestão de Wellington Dias e presidiu por dois mandatos o Comitê Nacional dos Secretários Estaduais da Fazenda, o que o fez ser cotado para ministro da Fazenda, cargo central no futuro mandato, que já começará pressionado pela cobrança por ajuste nas contas públicas — como secretário e governador, Fonteles implantou estratégias para melhorar a trajetória da dívida e a capacidade de pagamento e de crédito do estado e incentivou as parcerias público-privadas.
Cautelosamente, ele nega ter conversado com Lula a respeito de cargos e descarta renunciar ao governo do Piauí. “Isso nem passa pela minha cabeça”, disse.
RENOVAÇÃO - Ana Elisa, 21, e Ana Júlia, 26: jovens petistas chegam à CâmaraArquivo pessoal/Arquivo pessoal Continua após a publicidade
Já Camilo Santana só consolidou uma ascensão que vinha desde a eleição de 2022. Naquele ano, após dois mandatos bem-sucedidos como governador do Ceará, conquistou vaga no Senado com mais de 70% dos votos e elegeu, no primeiro turno, Elmano de Freitas (PT).
Em 2024, ajudou o PT a fazer o único prefeito de capital no país — Evandro Leitão, em Fortaleza. Neste ano, foi peça central na acirrada disputa que terminou com a vitória de Elmano sobre o ex-governador Ciro Gomes (PSDB).
Na campanha de Lula, é atribuída a Camilo parte da estratégia de intensificar as caminhadas e os atos de rua com a presença do candidato. Esteve com o presidente em manifestações que arrastaram multidões na véspera da votação em Copacabana e na Avenida Paulista.
Pelo desempenho, é cotado para assumir a Casa Civil, uma posição que ampliaria sua força em Brasília. A ocupação de espaço pelos dois governadores do Nordeste reflete tanto o peso eleitoral da região quanto a necessidade de ampliar o grupo de lideranças capazes de sustentar o projeto petista para além de sua figura central.
Na reta final da campanha, além de Camilo e Fonteles, também ganharam espaço o governador reeleito da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e Rui Costa, eleito senador pelo mesmo estado, que passou a coordenar as agendas do segundo turno. Esse movimento pode abrir espaço para lideranças de fora do eixo paulista, tradicionalmente influente no PT.
Também há incerteza sobre o espaço de Fernando Haddad, que emendou a sua quarta derrota consecutiva nas urnas, reacendendo dúvidas sobre sua viabilidade como sucessor de Lula, embora tenha o respaldo do presidente, a quem sempre mostrou fidelidade, mesmo em missões impossíveis como a última eleição ao governo paulista.
A disputa por ministérios e funções estratégicas ainda pode alterar o equilíbrio interno do partido, especialmente se lideranças que ganharam projeção na campanha passarem a ocupar posições de maior poder no governo. A briga por espaço é complicada, porque há mais de uma dezena de aliados do presidente que foram derrotados nas urnas e aparecem como nomes fortes para assumir uma pasta, como Márcio França (PSB), Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede), Gleisi Hoffmann (PT), Randolfe Rodrigues (PT), Eduardo Paes (PSD) e João Campos (PSB).
Chama atenção que uma boa parte deles não pertence ao PT, e sua escolha poderia indicar disposição do partido de ceder espaço a aliados de outras siglas. No discurso da vitória, Lula deu destaque ao vice Geraldo Alckmin (PSB), a quem concedeu a primeira fala.
O ex-tucano também é cotado para ocupar um ministério importante (foi especulado para a Fazenda) e não é descartado como candidato a sucessor de Lula em 2030, apesar da dificuldade do PT em abrir mão da cabeça de chapa. Continua após a publicidade
PRESSÃO - Edinho Silva, presidente do PT: após críticas no primeiro turno, dividiu a coordenação da campanha com CamiloMaira Erlich/Bloomberg/Getty Images O desafio central da questão sucessória é saber se o PT conseguirá construir uma liderança que reúna condições de manter sua competitividade eleitoral sem depender de Lula.
O presidente é dono de uma trajetória política singular, com identificação junto a parcelas importantes do eleitorado e capacidade de articular setores que nem sempre compartilham as mesmas prioridades. Para o cientista político e professor da ESPM Paulo Ramirez, esse é um dos principais desafios para o último mandato do presidente.
“O papel de Lula nesses quatro anos, além de governar o país, é construir uma liderança que possa sucedê-lo”, analisa. Ramirez aponta que, historicamente, líderes com grande capital político deixam para anunciar a sucessão quase às vésperas da eleição para diminuir a chance de desgaste do escolhido.
Foi assim com Dilma Rousseff, apresentada oficialmente como candidata em dezembro de 2009, e com o próprio Flávio Bolsonaro, escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em dezembro de 2025. A projeção de novas lideranças no PT também não se restringe a encontrar um sucessor para Lula, mas também em oxigenar o partido.
Jovens quadros apareceram com destaque na mobilização pela reeleição, como as deputadas federais eleitas para o primeiro mandato Ana Elisa (PT-MG), que aos 21 anos foi a mulher estreante mais votada do país, e Ana Júlia Ribeiro (PT-PR), 26 anos, que conquistou destaque nas ocupações de estudantes secundaristas contra a reforma do ensino médio, quando era adolescente.
Ana Júlia, que estava ao lado de Lula no discurso da vitória, diz que limitar o papel da juventude à modernização dos discursos e à adaptação da comunicação para as redes é reducionista. “É diminuir o papel que podemos ter.
Nós queremos pautar o que queremos para o Brasil, fazer um debate profundo das reais necessidades das pessoas”, afirma. Além do debate programático, a juventude terá como desafio conquistar espaço próprio no Congresso e dentro do partido.
Continua após a publicidade A renovação se torna ainda mais urgente porque, embora a discussão sobre o pós-Lula seja tratada há anos como tabu, o PT precisará enfrentá-la no próximo ciclo.
A escolha de um sucessor não será apenas uma questão de estratégia eleitoral ou de equilíbrio interno: dela dependerá a capacidade de sobrevivência do partido como protagonista da política brasileira. Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019
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