Câmeras registram marido de pesquisadora retirando vírus de laboratório da Unicamp
Registros de câmeras de segurança da Unicamp mostram o momento em que Michael Edward Miller deixa um laboratório carregando caixas, em um período que coincide com o desaparecimento de material biológico. As amostras teriam sido retiradas sem autorização do Instituto de Biologia e levadas para a Faculdade de Engenharia de Alimentos. As imagens, do fim de fevereiro, foram cedidas pela universidade.
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A Polícia Federal investiga se Michael participou do transporte do material. Ele e a esposa, a pesquisadora Soledad Palameta Miller, são investigados pelo furto de vírus na universidade. A Unicamp aponta Michael como principal suspeito. Segundo a PF, ainda não é possível confirmar o conteúdo das caixas, que passarão por perícia. Há, no entanto, indícios da participação dos dois no caso, de acordo com o delegado André Almeida Azevedo Ribeiro.
De acordo com a Polícia Federal, no dia 13 de fevereiro, uma pesquisadora percebeu o desaparecimento de caixas com amostras de vírus do laboratório de virologia – uma área de nível 3 de biossegurança, o mais alto disponível atualmente no Brasil para o estudo de agentes infecciosos.
No dia 21 de março, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão na casa da pesquisadora e também na universidade. Segundo a direção da universidade, no mesmo dia, à tarde e à noite, Soledad foi aos laboratórios acompanhada de uma aluna. Como não tinha acesso autorizado, a estudante teria aberto as portas para ela.
Na manhã do dia 23 de março, a pesquisadora foi vista novamente nos laboratórios. Pouco depois, os espaços da Faculdade de Engenharia de Alimentos foram interditados temporariamente. Na mesma data, a Polícia Federal realizou novas buscas e encontrou o material furtado em locais onde Soledad não tinha autorização para entrar, mas conseguia acesso com a ajuda de outros pesquisadores. Enquanto as equipes atuavam na universidade, outra frente da PF prendeu a pesquisadora em flagrante. Ela foi levada da delegacia para a Penitenciária Feminina de Mogi Guaçu.
Antes de ser presa, Soledad teria tentado descartar parte das amostras em lixeiras dos laboratórios. A corporação descarta risco de contaminação fora da universidade, que todas as amostras foram recuperadas e que os vírus não saíram do ambiente da instituição.
No dia seguinte, 24 de março, ela passou por audiência de custódia. A Justiça Federal concedeu liberdade provisória. A pesquisadora passou a responder ao processo em liberdade, com medidas cautelares: comparecimento mensal à Justiça, pagamento de fiança de dois salários mínimos, proibição de deixar Campinas por mais de cinco dias sem autorização e de sair do país. Ela também está impedida de acessar os laboratórios envolvidos na investigação.
Entre os materiais levados estavam vírus como H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A, além de outras amostras de origem humana e suína. Todo o conteúdo foi encaminhado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, que mantém sob sigilo os detalhes das análises.
O casal é sócio de uma startup de biotecnologia instalada em um parque tecnológico dentro do campus, voltada à pesquisa e desenvolvimento em ciências físicas e naturais.
A investigação aguarda laudos periciais, incluindo a análise detalhada das amostras, além de dados de celulares e computadores apreendidos na casa dos suspeitos. Registros de acesso aos laboratórios também serão utilizados.
A Polícia Federal informou que Soledad permaneceu em silêncio ao ser presa. O casal ainda deve ser ouvido.
A reportagem entrou em contato com a defesa de Soledad Palameta Miller e de Michael Edward Miller, mas não obteve resposta até a última atualização.
A Unicamp informou que a comissão de sindicância interna, já instaurada, vai apurar todos os fatos relacionados ao caso.
A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança informou que tomou conhecimento do caso e adotou as medidas necessárias em alinhamento com a Polícia Federal. Segundo o órgão, também houve articulação com instituições competentes para garantir uma resposta rápida e coordenada.
A comissão acrescentou que permanece mobilizada e presta apoio técnico especializado às investigações, com o objetivo de assegurar o cumprimento rigoroso dos protocolos de segurança biológica, além de monitorar e avaliar continuamente os procedimentos adotados.
A reportagem entrou em contato com a defesa dos dois, mas não houve retorno. Já a Unicamp disse que a Comissão de Sindicância Interna, já instaurada, vai apurar os fatos relacionados ao caso.
O que diz a Unicamp
"A Faculdade de Engenharia de Alimentos atua nas áreas de ensino, pesquisa e extensão voltadas à produção, processamento, qualidade e segurança de alimentos. No campo da microbiologia de alimentos, umas das vertentes de atuação da Faculdade, os agentes virais de relevância são predominantemente vírus entéricos, associados à transmissão fecal-oral, como norovírus, rotavirus e vírus da hepatite A, dentre outros.
Esses agentes não possuem transmissão respiratória, estão relacionados à contaminação de alimentos e água e, em geral, enquadram-se em níveis de biossegurança até NB2.
Por outro lado, vírus respiratórios, como influenza (por exemplo, H1N1 e H3N2), possuem transmissão predominantemente aérea e não são considerados agentes de interesse da Engenharia de Alimentos, tampouco estão relacionados à cadeia produtiva de alimentos sob a perspectiva de risco alimentar. Da mesma forma, pesquisas envolvendo agentes classificados como NB3 (nível de biossegurança 3) exigem infraestrutura altamente especializada, além de autorizações específicas, não integrando o escopo de atuação da Engenharia de Alimentos.
A FEA dispõe de infraestrutura compatível com suas áreas de atuação, observando rigorosamente as normas de biossegurança, as autorizações institucionais e os planos de trabalho aprovados. Todavia, não estão no escopo da FEA e no plano de trabalho de quaisquer membros do corpo docente da Faculdade, desenvolver atividades de
pesquisa laboratorial nas instalações da Faculdade envolvendo vírus respiratórios ou de importância veterinária ou agentes de maior nível de contenção, não sendo também automaticamente autorizadas pelo vínculo institucional do docente.
Conforme já divulgado, a Universidade instaurou sindicância interna para apuração rigorosa dos fatos, incluindo a verificação da aderência das atividades realizadas aos planos aprovados e o cumprimento das normas institucionais e de biossegurança. A FEA e a UNICAMP colaboram integralmente com as autoridades competentes, incluindo a Polícia Federal, autoridades sanitárias e órgãos regulatórios.
A Faculdade de Engenharia de Alimentos reafirma seu compromisso com a segurança biológica, a integridade científica, o cumprimento rigoroso das normas legais e institucionais e a transparência perante a sociedade. Ressalta-se, ainda, que a FEA é resultado do trabalho árduo e contínuo de gerações de docentes, pesquisadores, estudantes e servidores, que ao longo de décadas contribuíram para a construção de uma instituição de excelência, reconhecida nacional e internacionalmente e posicionada entre as melhores do mundo na área de Engenharia de Alimentos."
