Câmeras inteligentes não inibem foliões em São Paulo: 'Só paro de vir quando divulgarem traição'
Mais vigiado do que nunca, o carnaval de rua de São Paulo é monitorado por cerca de 40 mil câmeras inteligentes — metade da prefeitura, metade do setor privado. Além dos equipamentos integrados ao sistema municipal, totens de monitoramento privado tornaram-se comuns da paisagem, sobretudo em bairros mais ricos e movimentados da capital.
Em meio à folia, essa presença costuma passar despercebida — mas não deixa de provocar reações. Há quem brinque, quem minimize e quem aprove, mas também quem manifeste preocupação com o que chamam de “Big Brother” das ruas.
Diferente do monitoramento tradicional, limitado à gravação de imagens, os novos dispositivos utilizam inteligência artificial para identificar atividades suspeitas, reconhecer rostos e ler placas de veículos.
O sistema é utilizado principalmente para a identificação de pessoas com mandado de prisão, localização de desaparecidos, apoio a investigações e monitoramento de ocorrências em tempo real. Nas ruas, a tecnologia desperta um misto de indiferença, curiosidade e aprovação.
No carnaval de 2025, defensoras públicas do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos enviaram ofício à prefeitura pedindo que o sistema não fosse utilizado para “identificar indivíduos que participarem pacificamente de um bloco”. Segundo elas, a aplicação poderia ocorrer de forma “discriminatória”.
A recomendação não foi adotada e acabou criticada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), que tem o programa como uma das bandeiras de sua gestão. Neste ano, não houve manifestações semelhantes, e a prefeitura ampliou a divulgação do uso da tecnologia.
— Acho que já estamos acostumados a sermos filmados hoje em dia. Depois de um tempo curtindo, o pessoal nem pensa mais nisso. Mas é bom ter o programa funcionando — disse Mariana Santos, 21, estudante de direito, enquanto atravessava as ruas da República, no centro da capital paulista.
— Eu fiz xixi em uns postes, mas acho que eles não estão preocupados comigo. É só não fazer nada de errado que está tudo certo — brincou o vendedor Rafael Pereira.
Muitos dos que circulavam pela avenida também se mostraram despreocupados. Alguns perguntavam como o sistema funcionava; outros afirmavam não ver problema na vigilância.
— Já pensou se começam a divulgar quem traiu quem? Aí eu paro de vir ao carnaval. Mas, até lá, esse negócio a gente esquece — comentou, em tom de humor, o personal trainer Thiago Alves, que participava da festa ao lado da namorada.
Antes de ser colocada em funcionamento, a tecnologia foi questionada na Justiça por possível viés discriminatório racial e risco à privacidade de dados. Segundo a prefeitura, desde então, o programa já possibilitou a captura de 2.730 foragidos da Justiça desde sua implantação, além de 3.650 prisões em flagrante e a localização de 159 pessoas desaparecidas.
“Somente no primeiro dia oficial do Carnaval de Rua 2026, o sistema levou à prisão de três foragidos. Entre eles, um homem condenado por estupro, identificado enquanto participava de um bloco carnavalesco e preso após alerta emitido pelas câmeras. O condenado havia cometido o crime no estado da Bahia e possuía mandado de prisão em aberto”, informou a administração municipal.
Empresas privadas que operam sistemas semelhantes afirmam seguir as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Segundo elas, o compartilhamento de imagens ocorre apenas mediante comunicação oficial às autoridades, com controle de acesso aos registros. O período de armazenamento varia entre sete e 30 dias.
