Calor extremo agrava disputa por água entre castas em região seca da Índia - QTU Questões do Universo

Calor extremo agrava disputa por água entre castas em região seca da Índia

Fonte: Bandeira da fonte

Em uma das regiões mais secas da Índia, o calor extremo e a escassez de água estão agravando uma desigualdade que atravessa gerações: o acesso ao abastecimento também é marcado pela divisão por castas.
Em Bundelkhand, no norte do país, moradores Dalits relatam que precisam esperar integrantes de castas dominantes deixarem as bombas manuais antes de retirar água, enquanto temperaturas que ultrapassam 40°C aumentam a pressão sobre um recurso cada vez mais disputado.
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Mamta, de 40 anos, vive em uma aldeia do distrito de Jalaun e chegou a fazer até 10 viagens por dia para buscar água.
Logo depois do nascer do sol, saía de casa com três baldes plásticos vazios e caminhava algumas centenas de metros até a bomba manual mais próxima.
À BBC, ela conta que as torneiras instaladas por um programa governamental de abastecimento de água potável estavam secas havia dois anos.
Com isso, a maior parte das cerca de 1.000 pessoas da aldeia dependia de apenas algumas bombas manuais.
Mamta precisava passar horas buscando água suficiente para a família, formada por 11 pessoas, e para os animais.
Mas a escassez não era o único obstáculo.
Dalits dizem que precisam esperar para pegar água
Mamta pertence à comunidade Valmiki, integrante dos Dalits, grupos que, dentro da antiga hierarquia de castas da Índia, eram considerados “intocáveis” e continuam enfrentando discriminação generalizada.
Calor extremo agrava disputa por água entre castas em região seca da Índia
Reprodução/BBC
Segundo ela, quando integrantes das castas dominantes estão nas bombas, moradores Dalits precisam esperar para se aproximar.
— Se eles estão lá, não podemos pegar água.
Temos que esperar até que eles saiam — afirmou Mamta.
Ela diz ainda que alguns moradores de castas superiores jogam água sobre a bomba depois de utilizá-la para “purificá-la”.
— Isso acontece há décadas — relatou.
O problema ganha peso em uma região onde a água já é naturalmente escassa e o calor aumenta a necessidade de abastecimento.
Região enfrenta secas frequentes
Bundelkhand é uma região semiárida que abrange vários distritos dos estados de Uttar Pradesh e Madhya Pradesh e é conhecida pela frequência de secas.
Entre 2002 e 2016, a área passou por várias secas graves.
O terreno rochoso do planalto de Bundelkhand tem baixa capacidade de armazenar água subterrânea.
Chuvas irregulares e temperaturas mais altas também tornaram o acesso ao recurso menos previsível, apesar de diferentes iniciativas de conservação realizadas pelo governo e pela comunidade.
Um estudo baseado em mais de um século de registros meteorológicos identificou aumento das temperaturas em praticamente toda a região.
Nos últimos verões, algumas partes de Bundelkhand chegaram perto de 48°C.
Mitashi Singh, do Centre for Science and Environment, afirma que o problema da disputa por água não é novo, mas está sendo intensificado pelo calor.
— O conflito por água não é novo — afirmou Singh: — O que está mudando é o papel que os verões mais quentes estão desempenhando ao tornar a água mais escassa e intensificar tensões que já existiam.
Autoridades negam discriminação
Autoridades locais rejeitam as alegações de escassez de água e de discriminação por castas nos pontos públicos de abastecimento.
Moradores pertencentes às castas dominantes ouvidos também negaram que exista discriminação, embora tenham reconhecido o aumento da pressão sobre os recursos hídricos.
Ram Gopal Singh, que está na casa dos 50 anos, apontou para vários poços abandonados na aldeia.
— Esses poços estão secos há quase 20 anos — afirmou.
Segundo ele, outras fontes de água secaram ou ficaram contaminadas.
Conexões de água pouco confiáveis também fizeram com que mais famílias passassem a depender das bombas manuais.
Singh afirmou que os moradores tentam buscar água nas horas mais frescas da manhã e que isso provoca discussões sobre a ordem de atendimento e a quantidade que cada família pode retirar.
— Mas não há disputa relacionada a castas nessas bombas manuais — disse Singh.
Dalits relatam medo de confrontos
Os moradores Dalits entrevistados apresentam um relato diferente.
Segundo eles, não existe uma fila formal nas bombas manuais e as famílias procuram ir em horários diferentes para evitar confrontos.
Mamta diz que normalmente busca água muito cedo pela manhã ou no fim da tarde.
— O medo de ser alvo continua comigo o tempo todo — afirmou.
A cerca de 50 quilômetros dali, em Shahjahanpur, Shiv relatou uma experiência semelhante.
Segundo ele, integrantes de sua comunidade não se aproximam da bomba manual enquanto famílias de castas dominantes estão usando o equipamento.
— Não importa o quanto esteja quente, mesmo que tenhamos que esperar horas por um balde de água potável, esperamos porque não temos escolha — disse Shiv.
No verão, quando aumenta a quantidade de água necessária para sua família, os períodos de espera também se tornam mais frequentes.
Em Bundelkhand, o calor extremo e a escassez de água pressionam uma população que já convive com secas recorrentes.
Para os moradores Dalits ouvidos, porém, a dificuldade de conseguir água não está apenas na quantidade disponível: também passa por quem pode chegar primeiro à bomba e por quanto tempo é preciso esperar para ter acesso a ela.