A migração é um tema perpétuo, pois a viagem humana para novos lugares existe há muito tempo, seja por escolha ou força. Este é um atributo importante da civilização e da cultura, inspirando clássicos da literatura mundial ao longo dos séculos.
E foi durante uma viagem de ônibus entre o Maranhão e o Piauí que a escritora e poeta baiana Calila das Mercês teve uma repentina inspiração para seu primeiro romance, “Nódoa”. Ela se lembra que primeiro ouviu a voz de uma mulher chamada Raimunda.
Em seguida, veio outra, Regina, e, a partir desses sussurros, a trama ganhou rumo e tomou forma. O romance começa de forma impactante, quando Regina, dada como morta em um acidente de ônibus, desperta após três dias de um quadro de catalepsia.
As pessoas se assustaram quando viram o corpo mexendo as pernas dentro do saco que seria encaminhado para o cemitério. Calila teve a ideia durante o velório de um parente quando um primo questionou se o finado poderia ressuscitar.
Foi o bastante para a autora pesquisar sobre casos de catalepsia ao redor do mundo. O “quase falecimento” reforça também o conceito de migração, o cruzamento de uma fronteira — no caso, entre a vida e a morte.
“Nódoa”, na verdade, é uma trama em que várias mulheres estão em constante deslocamento em uma narrativa que se passa em diversos pontos do Brasil, dos anos 1960 aos dias atuais. Estar em trânsito, estar em deslocamento é a condição definidora do homem moderno.
O livro propõe um quebra-cabeça com peças que, à medida que são reveladas, acrescentam afetos e pertencimentos. Mulher misteriosa
Além de Regina, outros personagens de destaque são sua irmã, Raimunda, a Mundinha, e Lurdes Maria, com quem mantém um complexo vínculo fraternal. Todas rodeiam Dona América, mulher misteriosa cuja longa vivência vai costurar o destino das demais, especialmente quando incentiva a mudança do sertão nordestino para São Paulo, em busca de uma vida melhor.
A escrita de Calila é carregada de poesia, por vezes artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade. Em meio a um “silêncio falante”, uma personagem reclama de “dores nos sonhos” e a atemporalidade é tratada de forma lúdica: “Hoje é amanhã e ontem ao mesmo tempo.”
Um dos momentos mais tocantes é a emoção provocada pela descoberta do mar, que despertou “um certo temor quando a gente encarava uma imensidão que se mexia”. O sentimento provoca ainda uma curiosa sequência de ação e reação: “Conheci a praia.
Ou será que foi o mar que me viu e me tocou?” Outra característica da escrita de Calila das Mercês é a variedade de formatos narrativos, como o uso de cartas, cadernos, notícias, músicas, fotografias, conversas e outros fragmentos que se cruzam ao longo da narrativa.
Elementos que surgem como que atados por nós narrativos. No sentido estrito da palavra, “nódoa” significa mancha ou sinal de sujeira deixado por alguma substância.
No sentido figurado, é entendida como algo que mancha a reputação ou a honra de alguém. No romance de Calila, a palavra é entendida, segundo a observação do escritor Mia Couto, como algo “feito de pano, de nós, agulhas e linhas que se costuram alfabeticamente, um relato de rendas e remendos para consertar o rasgão sempre mal-acabado entre a vida e a morte”.
A sutileza permite que certos momentos sejam tratados com delicada ternura, como o relacionamento que nasce entre Regina e Júlia, cunhada de uma de suas irmãs, a partir de um forte aperto de mãos. “Senti um estalo, parecia uma brasa na barriga”, descreve Regina, que descobre um amor libertador, “que fabricamos ali com o empenho de quem monta uma invenção nunca imaginada e testada”.
Nas palavras e ações das personagens, é possível notar os indícios sutis de uma imensa riqueza psíquica e emocional, repleta de instabilidades, compondo figuras humanas de grande complexidade. Calila garante não ter escrito um relato autobiográfico pois, mais que narrar os feitos, seu interesse está em mostrar como se convive com o passado, com a necessidade de entendê-lo, de mostrá-lo, de indagar quem é cada um.
Os nós que nos unem, nos sustentam e nos mantêm vivos ao longo do tempo. Cotação: Ótimo.
Ubiratan Brasil é jornalista
O Globo