Depois de atravessarem o mar em busca de uma nova vida na Europa, milhares de migrantes marroquinos iniciaram o caminho de volta para casa em uma marcha marcada pelo cansaço e pela frustração.
Segundo relato publicado pelo jornal espanhol El País, homens, mulheres e crianças caminhavam sob o sol em direção à fronteira com o Marrocos — alguns com as pernas enfaixadas —, vestindo calças rasgadas, chinelos trocados e camisetas improvisadas sobre a cabeça para se proteger do calor — um retrato da derrota após a entrada em massa em Ceuta.
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A maior parte dos migrantes havia chegado ao enclave espanhol, no norte da África, apenas um ou dois dias antes, atravessando o mar a nado ou escalando as cercas da fronteira na esperança de encontrar melhores condições de vida.
Agora, a cena era outra: filas silenciosas, escoltadas por militares espanhóis, seguiam de volta ao Marrocos depois que a cidade ficou sem estrutura para recebê-los.
Entre eles estava um casal que carregava nos braços a filha de três anos.
Apenas 24 horas antes, os dois haviam atravessado o mar com a criança presa a uma boia, uma travessia que deixou ao menos 67 mortos nas praias de Tarajal.
A esperança de começar uma nova vida deu lugar à decepção.
— Estamos indo embora porque não há comida.
Temos dinheiro, mas ninguém nos vende nada.
Não há leite para a menina, tudo está fechado.
Apontaram facas para nós e atiraram pedras.
Só queríamos um futuro para nossa filha — conta Wisal, mãe da menina, ao El País.
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O marido, Nabil, de 30 anos, trabalha como motorista de aplicativo no Marrocos.
A esposa, de 23, cuida da filha, que sofre de asma.
Diante das dificuldades encontradas em Ceuta, a família decidiu abandonar a tentativa de permanecer na Espanha.
Centenas de boias usadas na travessia ficaram espalhadas nas instalações da Guarda Civil ou à deriva no mar, enquanto o fluxo de pessoas retornando ao Marrocos permaneceu constante ao longo do dia.
Militares posicionados ao longo da estrada apenas organizavam a passagem e orientavam os migrantes a seguir em frente.
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Uma jovem que pretendia seguir viagem até Madri, onde vive seu marido, contou que também foi obrigada a desistir.
— Eu não queria ir embora, mas os militares disseram que eu tinha que voltar — diz.
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Ela passou a noite na rua, ao lado de um supermercado, sem conseguir se alimentar.
Queria que o irmão, ainda menor de idade, permanecesse em Ceuta, mas relatou que quem entrava na fila organizada pelos militares já não podia retornar.
Era sua primeira entrada irregular na Espanha.
'Me dizem para voltar'
De acordo com o El País, o cenário em Ceuta era o de uma cidade completamente transformada pela crise migratória.
Com o comércio fechado, centenas de jovens descalços ou usando apenas um chinelo vagavam pelas ruas e pelos morros em busca de abrigo ou alimento.
A tradicional festa de Santa María de África foi cancelada, ambulâncias e viaturas cruzavam a cidade constantemente e moradores permaneceram recolhidos em casa por orientação das autoridades ou por receio da situação.
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As praias que normalmente recebem turistas passaram a servir de ponto de descanso e de higiene para os migrantes, enquanto lixo e restos de alimentos se acumulavam pelas ruas.
A falta de estrutura também atingiu os centros de acolhimento.
Adam Taher, de 16 anos, contou que foi orientado a deixar o Centro de Permanência Temporária para Imigrantes porque já não havia vagas disponíveis.
Migrantes estão deitados na praia de Trampolin enquanto aguardam a entrada no centro de acolhimento temporário de migrantes (CETI), no enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, em 1º de agosto de 2026
JORGE GUERRERO / AFP
O adolescente viajou de Casablanca até a fronteira e atravessou o mar durante a noite para chegar a Ceuta.
Sem conseguir abrigo, passou o tempo caminhando pela cidade, sem comer nada, e dormiu na praia de Almadraba.
Depois de telefonar para a família, ouviu dos pais um único pedido:
— Eles me dizem para voltar.
Na região da fronteira, militares continuavam retirando pessoas da água e conduzindo grupos para áreas de contenção.
Em meio ao fluxo de retornos, um menino de cerca de 11 anos se perdeu da mãe, sem conseguir se comunicar com quem estava ao redor.
O reencontro só aconteceu quando moradoras de Ceuta conseguiram entender o que ele tentava dizer e localizaram a mulher.
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Enquanto adultos deixavam a cidade, menores desacompanhados buscavam vagas nos centros de acolhimento improvisados pelo governo espanhol.
Segundo o El País, antigos galpões da zona comercial foram adaptados para receber crianças, mas a capacidade rapidamente foi esgotada.
Muitos adolescentes perguntavam onde ficavam os abrigos, conscientes de que a idade poderia representar a única chance de permanecer na Espanha.
Para outros, como Ali, mecânico, Siham, costureira de 19 anos, e os adolescentes Ilías e Abderramán, a travessia terminou sem o futuro imaginado.
Depois de dias dormindo ao relento e convivendo com a falta de comida, eles se juntaram às longas filas que retornavam ao Marrocos.
Embora a movimentação tenha diminuído, Ceuta ainda está longe de recuperar a normalidade.
Militares continuam patrulhando as ruas, jovens permanecem espalhados por praças e praias e a cidade tenta retomar a rotina enquanto a crise migratória permanece sem solução definitiva.
