O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, sinalizou na noite de terça-feira (25), em entrevista à TV Globo após o Jornal Nacional, que uma vez eleito não pretende alterar as regras atuais para reajuste do salário mínimo e das aposentadorias.
O ex-governador de Goiás reafirmou que vai encaminhar uma proposta de emenda constitucional (PEC) para limitar as despesas públicas a uma correção pela inflação e mais 50% do crescimento do PIB do ano anterior.
Sinalizou, ainda, que não pretende mexer nos pisos dos gastos com saúde e educação.
Veja o que é #FATO e o que é #FAKE na entrevista de Ronaldo Caiado
Questionado sobre onde pretende cortar despesas e qual seria o tamanho do ajuste necessário para conter o avanço da dívida pública, Caiado não apresentou números nem detalhou medidas.
Disse genericamente que pretende rever subvenções e incentivos fiscais, combater a corrupção, reduzir salários que considera excessivos e restringir emendas parlamentares a ações previstas no plano de governo.
Ao ser pressionado a citar medidas concretas, comparou as contas públicas a um paciente atropelado que precisaria ser examinado antes da definição do tratamento.
“Quais são os pontos que você vai priorizar? Poxa, eu nem examinei o doente.
Calma”, respondeu.
Em seguida, enumerou áreas nas quais pretende atuar: “O que eu tenho hoje de subvenção, o que eu tenho de incentivo fiscal, o que eu tenho de corrupção, o que eu tenho de salários em excesso, o que eu tenho hoje de emendas impositivas que estão indo para outro local que não a finalidade do projeto aprovado pela população”.
Sobre o modelo de reajuste do salário mínimo, Caiado pretende preservar a atual política.
“Não vou mexer.
Olha, o pobre coitado recebendo salário mínimo, o pobre coitado que está vivendo de aposentadoria, deixa eles em paz, pelo amor de Deus”, disse.
Segundo Caiado, o ajuste fiscal deve começar por outras áreas: “Vamos cortar na própria carne.
Vamos para cima desses salários abusivos.”
A falta de detalhamento se repetiu nos questionamentos sobre a Previdência.
Caiado reconheceu que o envelhecimento da população e o fim do bônus demográfico exigem discutir a sustentabilidade do sistema, mas não apresentou proposta.
Questionado três vezes se pretende alterar a idade mínima para aposentadoria, não respondeu.
“Eu buscarei as melhores cabeças no Brasil”, afirmou.
Questionado por que esses especialistas ainda não haviam sido reunidos durante a campanha para apresentar uma proposta aos eleitores, respondeu: “Eu não tenho condições de detalhar minúcias”.
Depois, acrescentou que pretende promover uma reforma administrativa e cortar despesas também fora do Executivo.
“Corte não só no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, no TCU [Tribunal de Contas da União] e em todos os órgãos independentes do governo.
Todos”, afirmou ele.
Caiado também disse que pretende revisitar pontos da reforma tributária aprovada pelo Congresso.
Criticou o modelo formulado pelo economista Bernardo Appy, que, segundo ele, foi inspirado na Índia e não corresponderia à realidade brasileira.
“Ele copiou o modelo da Índia e trouxe para cá.
Eu fui lá na Índia ver.
Não tem nada a ver com a realidade brasileira”, afirmou.
Embora tenha defendido a simplificação tributária e reconhecido benefícios para setores que acumulam créditos, Caiado criticou a alíquota do novo IVA e o imposto seletivo.
“Não pode é o cidadão me meter 28% no IVA e ainda criar um imposto seletivo que eles ironicamente dizem do pecado.
Não, pecado quem está fazendo é o [presidente] Lula.”
Acusado de poupar críticas ao seu principal adversário na direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL), Caiado centrou fogo no presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante toda a sabatina.
O nome do presidente foi citado oito vezes, contra uma do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Questionado se alterar uma reforma tributária aprovada depois de décadas de discussão não representaria retrocesso, negou.
“Não existe retrocesso.
Você vai revisitar o tema.
Aqueles pontos que são positivos, você faz simulação com outros”, afirmou.
Segundo ele, os efeitos precisam ser reavaliados sobre MEIs, pequenos empresários, profissionais liberais, indústria e exportadores.
Questionado sobre os quase 84 milhões de brasileiros com contas atrasadas e sobre a ausência, em seu programa, de valores e fontes de recursos para políticas de crédito e garantias, Caiado também não apresentou uma medida específica para renegociação das dívidas.
Preferiu atacar o programa federal Desenrola.
“O Lula, quando ele fala no Desenrola, ele é quem enrolou.
O Lula passou a ser o grande agiota no Brasil”, afirmou Caiado.
A solução apresentada voltou a ser sua proposta de ajuste fiscal.
Segundo Caiado, a aprovação da PEC produziria um “choque de confiança” capaz de reduzir fortemente os juros.
“Naquela hora em que tomar essas medidas, o perfil será outro.
Ele vai para 6%, a taxa de juros, e vai para 3% a inflação.
Então isso não é milagre".
Anistia pelo 8 de janeiro e segurança
Caiado também reafirmou que enviará ao Congresso uma proposta de anistia “ampla, geral e irrestrita” aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.
Para justificar a medida, voltou a afirmar, erroneamente, que Lula teria sido anistiado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“O Supremo diz: ‘Olha, o foro não foi correto, não poderia ser lá no Paraná’.
E, de repente, ele foi anistiado.
Quer dizer, uma atitude do Supremo o anistiou para que ele voltasse até para disputar eleição”, disse.
As condenações de Lula foram anuladas pelo STF, e não houve qualquer anistia.
Na segurança pública, voltou a defender uma polícia sul-americana para combater narcotráfico, lavagem de dinheiro e tráfico de armas.
Caiado disse acreditar que a negociação seria facilitada pelo alinhamento político dos governos vizinhos.
“Todos os limítrofes nossos, os presidentes, hoje são da centro-direita.”
O candidato, porém, se confundiu ao explicar os poderes da nova força.
Citou a Europol como modelo e afirmou que a agência europeia teria “toda a ação liberada para poder fazer prisões”.
Corrigido pelos entrevistadores, que lembraram o papel da Europol na cooperação e no compartilhamento de informações entre autoridades nacionais, Caiado reformulou a resposta: “Se ficar alguma dúvida em relação a isso, eu, como presidente, vou propor aos meus colegas presidentes limítrofes que façamos com que a prisão seja feita”.
Ao final da sabatina, Caiado fez um apelo ao STF para que sejam retirados sigilos relacionados às investigações do INSS, do Banco Master e da Operação Carbono Oculto durante a campanha.
“Eu pediria que eles refletissem bem e abrissem o sigilo para que nós não fôssemos amanhã enganados, pessoas envolvidas em graves crimes e que amanhã pudessem ser eleitas”, finalizou.
