Caiado mira em Lula ao assumir candidatura e testa discurso para não ser visto como 'linha auxiliar' de Flávio
Confirmado nesta segunda-feira como candidato do PSD ao Palácio do Planalto, após decisão da cúpula do partido em São Paulo, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, entra na disputa com um papel debatido e desenhado entre aliados. A ideia é ocupar o espaço de confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas sem dar pretexto para ser confundido como uma "linha auxiliar" do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Interlocutores do PSD dizem que essa calibragem é condição para que a candidatura avance sobre o eleitorado de centro.
Esse desenho foi fechado nos últimos dias, em conversas com o núcleo político do partido, sob coordenação do presidente da sigla, Gilberto Kassab, e o marqueteiro Paulo Vasconcelos, a partir de um diagnóstico que ganhou força dentro do PSD.
A aposta é ancorar a candidatura na experiência administrativa e em um perfil mais institucional, capaz de dialogar com setores do empresariado e do centrão que hoje resistem ao bolsonarismo, mas também não se alinham ao governo.
— Se tem alguém que tem independência, se chama Ronaldo Caiado. Nunca fui linha acessória de ninguém. Tenho luz própria — disse ao GLOBO.
A avaliação, porém, é que não é necessário antecipar um confronto mais direto com Flávio agora.
No PL, interlocutores avaliam, em reservado, que o movimento de Caiado em mirar no atual governo pode resolver um problema da pré-campanha. Flávio vem evitando o confronto para tentar construir a imagem de "moderado". Com a entrada de Caiado, o governador poderia se dedicar à campanha de desgaste de Lula.
A pré-campanha de Caiado pretende concentrar ataques nas áreas de segurança pública e economia do governo Lula. Também irá evitar qualquer gesto que sinalize alinhamento com o bolsonarismo, preservando uma identidade própria.
Para aliados de Caiado, há o cuidado de não perder tração entre eleitores mais à direita. Por isso, a campanha decidiu subir o tom contra Lula, puxando o debate para a segurança, que é vista como principal ativo do governador.
— Segurança é o que a sociedade demanda. É uma pauta obrigatória, mas não é só isso. Educação é um caos, desenvolvimento é um caos — afirmou.
Essa estratégia começa a aparecer nas inserções de TV já preparadas pela equipe. As peças apostam no confronto direto com o governo e reforçam os resultados de Goiás na área de segurança.
— Você acha mesmo que bandido é vítima da sociedade? Que rouba sua carteira e seu celular só para comprar uma cervejinha? — diz Caiado em uma delas.
Em outra, ao abordar feminicídio, ele afirma:
— Existe uma arma que pode dar um jeito nisso. É a caneta. A diferença é que eu tenho coragem para ousar.
Nos bastidores, a avaliação é que o objetivo é provocar o governo e forçar uma resposta nesse terreno, deslocando o debate para uma agenda em que Caiado se sente mais confortável.
Ao mesmo tempo, as inserções ajudam a marcar posição própria na direita, sem dividir espaço diretamente com o bolsonarismo neste primeiro momento.
Interlocutores de Flávio Bolsonaro admitem que o papel de Caiado alivia a pressão interna para antecipar ataques a Lula. O filho do ex-presidente busca fechar um discurso econômico mais consistente e avançar na construção de alianças fora do bolsonarismo.
Entre dirigentes do centrão, uma das condições para apoiá-lo é justamente a manutenção de um tom mais moderado, sem escalada no discurso.
Percalços para Caiado
Dentro do PSD, a escolha por Caiado veio acompanhada de outro diagnóstico. O governador entra na disputa com capital político consolidado em Goiás, mas ainda precisa ganhar projeção nacional e reduzir resistências em regiões como o Nordeste.
O nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, chegou a ser defendido por uma ala do partido justamente por esse perfil mais ao centro. A comparação ajuda a dimensionar o desafio que Caiado terá pela frente.
Aliados reconhecem que a indefinição do PSD nos últimos meses atrasou essa construção e que será preciso acelerar a exposição nas próximas semanas.
