Cadela de família palestina espancada por colono israelense revela nova face da violência na Cisjordânia

Cadela de família palestina espancada por colono israelense revela nova face da violência na Cisjordânia

 

Fonte: Bandeira



A crueldade se tornou algo comum na Cisjordânia, onde colonos israelenses extremistas espancam e atiram em palestinos, roubam suas ovelhas, arrancam suas plantações de oliveiras e tocam fogo em seus carros e casas. Colonos, fora da lei de inúmeras maneiras, raramente enfrentam consequências por suas ações — porém, mesmo para os palestinos que vivem sob a ameaça constante de ataques, algumas formas de violência ainda têm a capacidade de chocar. Foi o caso de um vídeo que viralizou mostrando um colono ameaçando uma cadela de um ano e meio com um pedaço de madeira em cada mão, e golpeando-a com força na cabeça.

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No vídeo, a cadela, uma pastor-belga malinois chamada Lucy, urra de dor e tenta desesperadamente escapar. Mas ela havia sido acorrentada a uma oliveira para ficar na sombra durante uma tarde quente. O que acontece em seguida, registrado pelos donos do animal — uma família palestina na vila de Atara — é extremamente difícil de assistir e também de descrever.

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Até recentemente, a violência em Atara seguia um roteiro mais típico, com objetivo de forçar palestinos a fugir em busca de segurança — abandonando suas casas, pastagens e terras agrícolas para colonos invasores, de modo que os espaços árabes diminuíssem e os espaços judaicos se expandissem. Um grupo de jovens colonos estabeleceu um posto avançado ilegal chamado Kfar Tarfon no ano passado, a cerca de 1,2 Km da casa da família Abu Rejalah, na montanhosa Atara, ao norte de Ramallah.

Segundo os moradores, eles atiravam pedras nos carros palestinos na estrada principal que leva à cidade. Também assediaram um criador beduíno de ovelhas na periferia de Atara até que ele desistisse e fosse embora. Moradores da vila disseram que, no outono passado, sentiram medo demais para colher centenas de oliveiras localizadas logo abaixo do posto avançado.

Depois, os colonos passaram a mirar a família Abu Rejalah, que estava crescendo — e não fugindo — à medida que os sete filhos de Hassan Abu Rejalah, de 50 anos, começavam a se casar e ter seus próprios filhos. A casa da família, em expansão e ainda em construção, com três andares, é visível de Kfar Tarfon através de um pequeno vale.

Os colonos conduziam suas ovelhas pela pequena propriedade da família, destruindo plantações, segundo Abu Rejalah, dois de seus filhos e outros membros da família. Eles chegavam até a porta da casa como se fossem donos do lugar, roubando vegetais colhidos e danificando o portão da entrada diante das câmeras de vigilância.

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Também acusaram dois membros da família de tê-los atacado, segundo Abu Rejalah. A família afirmou que a acusação era falsa. Em 9 de janeiro, soldados israelenses prenderam seus filhos Ibrahim, de 31 anos, e Daoud, de 26, que foram espancados, levados a uma delegacia israelense, presos em uma prisão militar por cinco dias e depois libertados sem acusação formal, pai e filho.

Questionado sobre as prisões, o Exército israelense confirmou que soldados detiveram palestinos após um civil israelense afirmar que eles haviam atirado pedras nele. O Exército não respondeu se os palestinos foram espancados. Disse apenas que eles foram entregues à polícia, que não respondeu às perguntas sobre o incidente. Experiências assim são familiares demais para os palestinos em toda a Cisjordânia. O incomum foi a crueldade contra os animais.

Ano passado, um vizinho da família que mora mais perto do posto dos colonos encontrou um jumento morto pendurado em uma de suas oliveiras, disseram moradores. O episódio foi citado como uma das razões pelas quais os habitantes da vila desistiram da colheita anual de azeitonas, um marco da vida palestina e importante fonte de renda.

Membros da família Abu Rejalah disseram que, em 18 de fevereiro, encontraram um colono pastoreando suas ovelhas em sua propriedade e atirando pedras em outro cachorro, Angel, um vira-lata com mistura de Malinois. Dois dias depois, o animal morreu em decorrência dos ferimentos.

Ninguém filmou o ataque, mas em 14 de maio, quando um colono magro apareceu na casa da família e atirou uma pedra em uma janela, Ibrahim gravou um vídeo de dentro da residência. Ele chamou a polícia israelense e os serviços de segurança palestinos. Soldados israelenses chegaram logo depois, segundo ele, e mandaram o homem embora. Ibrahim disse que os oficiais israelenses e palestinos o alertaram: "Enquanto eles estiverem por perto, não saiam de casa".

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Crueldade animal extrema

O mesmo colono — que, segundo a polícia, foi identificado na quinta-feira — voltou no dia seguinte por volta das 18h. Ninguém saiu de casa. Dois membros da família pegaram seus celulares e começaram a gravar. Nos vídeos, cuja autenticidade foi verificada pelo New York Times, o jovem, vestindo um moletom com capuz, segura um pedaço de madeira e está acompanhado de dois cães brancos. Ele anda de um lado para o outro, observando as janelas da casa. Depois, caminha até a oliveira à qual Lucy está acorrentada. Perto dali, outra cadela, Cheetah, solta, lhe faz companhia.

O homem pega uma pedra e a atira contra um dos cães. Cheetah, ensanguentada, foge. Lucy não consegue. O homem, segurando um pedaço de madeira em cada mão, começa a espancá-la violentamente. A cadela tenta colocar a árvore entre ela e o agressor, mas ele a alcança ao redor do tronco para golpeá-la. Ao vê-la ferida, aproxima-se ainda mais.

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Ele esmurra sua cabeça, balançando os dois pedaços de madeira. Uma vez. Duas vezes. Somente após pelo menos o 17º golpe duplo a cadela desaba. O agressor não para. Ele a golpeia mais nove vezes.

Ibrahim Abu Rejalah disse que ligou para a polícia israelense enquanto o ataque ainda acontecia e foi informado de que soldados seriam enviados imediatamente. Segundo ele, policiais e soldados só apareceram dias depois, no domingo. Questionada sobre o caso, a polícia israelense declarou na quinta-feira que só tomou conhecimento do incidente depois que o vídeo do ataque viralizou nas redes.

A polícia ainda disse que a investigação foi "intensiva" e pediu que o agressor "se entregasse, pois o longo braço da polícia o alcançará". Em seu próprio comunicado, o Exército israelense acrescentou que Kfar Tarfon era um "posto avançado ilegal" e que "deveria ser esvaziado".

Colono israelense agrediu repetidamente cão de família palestina com porrete de madeira

Reprodução/X/Government Communication Center - Palestine

No posto dos colonos, na terça-feira, dois homens abordados por repórteres do New York Times se recusaram a comentar.

— Não há nada para vocês aqui — disse um deles em hebraico.

Quando lhe mostraram uma imagem congelada do vídeo do ataque e pediram que identificasse o agressor, o homem não respondeu e foi embora.

Sobrevivente

A cadela sobreviveu, de alguma forma. Seu crânio sofreu fraturas em apenas dois pontos, abaixo de um corte de 10 centímetros, disse o veterinário Ashraf Shiban, que atua em Rama, no norte de Israel. O tratamento está sendo pago por um grupo israelense de resgate animal.

Lucy perdeu a visão do olho esquerdo, mas Shiban disse, na quarta-feira, que ela já estava voltando a comer. Com o tempo, afirmou, ela deverá se recuperar.

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Membros da família Abu Rejalah disseram temer novos ataques por parte dos colonos de Kfar Tarfon, especialmente agora que falaram publicamente sobre as hostilidades. Eles demonstraram pouca confiança de que o agressor será punido. Pareciam igualmente incrédulos de que o ataque tivesse acontecido.

— Trabalhei por anos dentro de Israel. Toda casa tem um animal de estimação, um cachorro ou um gato. Eles amam animais — disse Hassan Abu Rejalah. — O que faria alguém fazer uma coisa dessas, senão para assustar as pessoas?