'Cabide de emprego' do crime: afastado dois dias após eleição é o terceiro prefeito seguido de cidade na PB acusado de elo com o CV
Eleito para um mandato-tampão no domingo, o prefeito da cidade paraibana de Cabedelo, Edvaldo Neto (Avante), foi afastado do cargo após decisão judicial por suspeita de estar envolvido em um esquema que pode ter desviado até R$ 270 milhões em benefício de integrantes da facção criminosa Tropa do Amigão, braço local do Comando Vermelho (CV). Neto é o terceiro prefeito do município a ser alvo da Justiça por conta da aliança com o crime organizado. Os outros dois antecessores no cargo, também filiados ao Avante, tiveram a inelegibilidade confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral no início do mês.
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Um dos principais nomes envolvidos no esquema é o de Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, uma das principais lideranças criminosas da Paraíba. Foragido da Justiça, ele estaria escondido no Rio de Janeiro e comandaria a Tropa do Amigão à distância.
"Os elementos colhidos nesta fase inicial indicam que o controle territorial armado em comunidades carentes do município, com seu uso financeiro e político, era garantido mediante um sistema de troca por contratações direcionadas no poder público, utilizando, para tanto, empresas terceirizadas", diz o TJ-PB em nota divulgada nesta segunda-feira sobre o caso.
Segundo a Justiça da Paraíba, as evidências coletadas pelos investigadores indicam que Edvaldo Neto deu continuidade a um esquema criminoso que havia se estabelecido na gestão de Vitor Hugo Castelliano (Avante). A ligação com o tráfico havia sido instituída com o fim de manter o grupo político no poder através da troca de favores com a facção. Em 2024, o esquema favoreceu o sucessor de Castelliano, Andre Coutinho (Avante). Na semana passada, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve a inelegibilidade dos dois antecessores de Edvaldo, condenados por abuso de poder político e econômico no pleito daquele ano.
Presidente da Câmara Municipal, Edvaldo Neto assumiu o cargo de prefeito interino de Cabedelo em dezembro de 2025, logo após a Justiça cassar o mandato de Coutinho e da vice Camila Lucena. Segundo a decisão desta segunda-feira, uma testemunha ouvida na investigação relatou que o novo prefeito foi o responsável por retomar o acordo com a facção, brevemente rompido em dado momento por Coutinho que teria receio de ser atingido pelas investigações.
Um dos eixos principais do esquema criminoso era a contratação da empresa Lemon Terceirização como prestadora de serviços, prática iniciada na gestão de Vitor Hugo Castelliano. A empresa empregava entre seus funcionários integrantes da facção ou familiares deles, que passavam, com isso, a receber o dinheiro da Prefeitura. Em troca, a Tropa do Amigão/CV garantia o apoio ao grupo político nos territórios que controla.
Nas investigações anteriores, pen-drives apreendidos na Secretaria de Administração do município revelaram planilhas com nomes de contratados por intermédio da Lemon. Ao lado de cada funcionário, havia uma coluna na qual se indicava que Fatoka ou sua filha adotiva, Marcela Pereira da Silva, eram os responsáveis pela indicação. A própria Marcela chegou a assumir na gestão de Vitor Hugo o cargo de secretária municipal adjunta de Ação Governamental, tendo sido exonerada posteriormente. Segundo um parecer da Procuradoria Regional Eleitoral, a nomeação era um plano de Fatoka para projetar a filha politicamente.
Entre aqueles na folha de pagamento da Lemon estavam nomes que respondiam na Justiça por tráfico de drogas. Um deles, Robério Santana de Souza, com ligação com o CV e a Tropa do Amigão, havia regredido para o regime fechado e constava na planilha como "detido". A repetição de nomes com vínculos criminosos para as autoridades revela "um padrão sistemático de contratações pelo município totalmente incompatível com os ordinários critérios técnicos de seleção de pessoal".
Apesar da cassação de Coutinho no ano passado, Edvaldo Neto teria retomado o esquema criminoso, segundo a Justiça da Paraíba. A decisão do desembargador Ricardo Vital, que determinou o afastamento do prefeito, cita duas licitações com indícios de fraudes, supostamente cometidas para beneficiar a Lemon. Em ambos os casos, empresas que apresentaram as propostas mais vantajosas não levaram o certame e foram desclassificadas, resultando na vitória da Lemon.
As ligações com o tráfico não se esgotam nos contratos públicos. Um dos alvos da operação foi Cynthia Denize Silva Cordeiro, advogada de Fatoka e sogra de Edvaldo, além de amiga da família de Vitor Hugo. As investigações apontam que ela teria articulado a aliança inicial entre os políticos e a facção. Segundo a decisão, há indícios também de que ela seria uma ponte com o Comando Vermelho (CV) e que mantém "relação de confiança com Fernandinho Beira-Mar".
Além de Edvaldo, a Justiça determinou o afastamento da secretária de Administração de Cabedelo, Josenilda Batista dos Santos, e do secretário de Gestão Governamental de João Pessoa, Rougger Guerra. De acordo com a decisão, Josenilda seria um "braço operacional interno", recebendo os currículos dos indicados pela facção e sendo a responsável pela contratação. Rougger, por sua vez, é descrito como um "lobista" da empresa. O ex-prefeito Vitor Hugo Peixoto Castelliano está proibido de se aproximar do prédio da prefeitura.
"A repercussão dessas supostas fraudes na Administração de Cabedelo teria se configurado como um verdadeiro loteamento da máquina pública, escamoteado sob a prestação de serviços terceirizados, convertendo, teoricamente, a Prefeitura em um balcão de negócios e cabide de empregos para o crime organizado", diz a decisão.
Em nota enviada à TV Paraíba, a defesa de Edvaldo Neto afirmou que a decisão tem natureza cautelar e que a medida tem "natureza provisória". Vitor Hugo, por sua vez, declarou que é alvo de uma perseguição. Já a Lemon afirmou que pauta suas atividades "na ética, na qualidade de seus serviços e no respeito às normas, sobretudo aos princípios que regem a administração pública".
'É impossível ganhar'
Após o afastamento de Edvaldo Neto, o presidente da Câmara Municipal José Pereira, também do Avante, assumiu como novo prefeito interino do município, sendo o quarto político do partido a comandar o Executivo desde 2024. Dos 16 vereadores da cidade, seis estão filiados ao Avante, sendo a maior bancada da casa.
Derrotado na eleição suplementar que deu vitória a Edvaldo Neto, o deputado estadual Wallber Virgolino (PL) disse em entrevista à imprensa local que é "impossível ganhar" no município.
"Perdi porque é impossível ganhar em Cabedelo. Da forma que está, da estrutura que está montada. Quem nasceu e mora em Cabedelo não tem coragem de ser candidato", disse Virgolino ao programa Correio Debate.
O advogado do PL Saul Barros disse ao GLOBO que o partido prepara uma série de ações relativas ao pleito. Em uma delas, a sigla deve pedir para que Virgolino assuma. Ele admite, no entatno, que a tese deve enfrentar resistência por ir no sentido oposto ao da legislação, que determina novas eleições.
— Estamos preparando uma nova ação para apresentarmos ao TRE pedindo que não realize novas eleições e que proceda com o segundo colocado por essa reiteração de conduta — disse Barros, que acrescentou — Vamos insitir para ganhar tempo e segurança para termos um julgamento e uma eleição em paridade.
