'Cabe todo mundo no mundo': além da ala anticapacitista, bloco Orquestra Voadora inova com audiodescrição em desfile
Com expectativa de reunir cerca de 100 mil foliões no Aterro do Flamengo nesta terça-feira, a Orquestra Voadora aposta na inclusão como protagonista de sua 17ª edição. Sob o manifesto “Cabe todo mundo no mundo”, o tradicional bloco carioca, que completa 18 anos, e inova ao oferecer audiodescrição do desfile, ampliando o acesso de pessoas com deficiência visual à experiência do cortejo.
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Segundo Camila Alves, organizadora da ala de acessibilidade do bloco, a audiodescritora está posicionada na corda, de frente para o desfile, para poder descrevê-lo. Cada pessoa cega recebeu um equipamento de som e um fone de ouvido descartável com abafador de ruído.
— A audiodescrição está funcionando pela primeira vez nesse desfile, o que é uma conquista e tanto. Temos uma equipe qualificada fazendo esse trabalho técnico. Nossa expectativa é que dê tudo certo. Os testes já foram feitos, estamos ansiosos. Parece que está tudo certo, mas o mistério é quando a banda começar a tocar. Se der certo, é revolucionário: audiodescrição em bloco de rua, andando. Vai ser sucesso para sempre.
Orquestra Voadora completa 18 anos
Esther Gama
Renata Rodrigues, uma das organizadoras da Orquestra Voadora, destacou o compromisso do bloco com a acessibilidade e a inclusão.
— O nosso objetivo é mostrar que essas pessoas podem estar nesses espaços como qualquer outra, que são seres desejáveis, têm direito de brincar o carnaval e de se misturar. Não se trata de criar um espacinho separado, porque, às vezes, essas tentativas de inclusão acabam estigmatizando as pessoas.
Acessibilidade que funciona
Lívia Mafra decidiu levar o filho para viver a experiência do bloco. Segundo ela, a Orquestra Voadora é o único bloco em que consegue curtir o carnaval em família, sem ser infantil.
— É um dos únicos blocos a que conseguimos ir. Na verdade, em família, sem ser bloco infantil, é o único. E os temas que eles trazem são sempre fundamentais. No ano passado foi a nossa estreia, com o tema acessibilidade. Este ano, com “Cabe todo mundo no mundo”, foi ainda mais lindo, e a gente não podia deixar de estar aqui curtindo e prestigiando.
Juliana Coutinho curte bloco com amigas
Esther Gama
Já Juliana Coutinho, escritora, destacou que o bloco, com ala reservada para pessoas com deficiência, é maravilhoso.
— Ter um bloco que reserva uma ala para nós, não podería ser melhor. O bloco mostra que a gente é gente como qualquer outra. Nós amamos, nos apaixonamos, transamos e vamos ao bloco.
A magia da Orquestra Voadora também encantou Ana Beatriz, de 22 anos, que, pela primeira vez, voltou a um bloco de carnaval desde que contraiu uma doença que reduziu seus movimentos e a levou a usar cadeira de rodas, em 2017.
— O bloco é muito inclusivo e colorido. É a minha primeira vez desde que virei cadeirante e estou amando!
18 anos de bloco
Fundada em 2008, a Orquestra Voadora é referência no carnaval de rua do Rio por misturar samba, pop, funk, maracatu e afrobeat com performances circenses. O bloco, que desfila desde 2009 no Aterro do Flamengo, já conta com ala anticapacitista, intérpretes de Libras e mediadores de acessibilidade e agora amplia o alcance com a audiodescrição em tempo real do desfile.
Em comunicado, o grupo afirma que o cortejo “funciona como a antítese da guerra, unindo diferentes identidades e ancestralidades em um coro potente que celebra a existência mútua”. Segundo o manifesto, o compromisso com a democratização do espaço público é inegociável e busca transformar a rua em um território verdadeiramente plural.
Com manifesto "Cabe todo mundo no mundo", Orquestra Voadora desfila no Aterro.
Esther Gama
A Orquestra Voadora ocupa atualmente a sétima posição no ranking de público estimado pela prefeitura, segundo dados da Riotur e do Centro de Operações Rio. As iniciativas de inclusão reforçam que a festa vai além da folia e se consolida como espaço de cidadania.
Segundo a organizadora Renata Rodrigues, a Orquestra quer fazer, neste desfile, uma declaração a favor da tolerância, da inclusão e da diversidade.
— Vivemos um momento no mundo em que movimentos de intolerância, racismo e fascismo estão ganhando corpo e força política. E o carnaval convida você a misturar: misturar classes, misturar crenças. O manifesto tem a ver com isso.
Neste ano, a fala no início do desfile ficou a cargo de Robert Montinard, refugiado haitiano que mora no Rio e é fundador de uma organização voltada à defesa dos direitos de refugiados. Robert também trouxe uma banda haitiana para tocar no bloco.
