Busca por vida mais saudável está fazendo brasileiros buscarem comida com menos açúcar e suplementos
Comidas e bebidas proteicas, zero açúcar, enriquecidas com vitaminas, ingredientes funcionais e “superfoods”. Esse tipo de produto já pertenceu a uma pequena seção do supermercado, mas hoje - você com certeza percebeu -, se espalha por praticamente todos os corredores, além de cada vez mais lojas especializadas e praticamente todo lugar que vende alimentos.
Essa nova realidade reflete o comportamento do consumidor, cada vez mais atento à saúde, à nutrição e ao desempenho físico.
É o que mostram dados inéditos obtidos pela CBN: entre quem consome esses produtos, 76% praticam atividade física, 75% vão ao médico com frequência e 31% fazem dieta com orientação profissional.
Os números são da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres.
A diretora executiva da Abiad, Gislene Cardozo, pontua, por exemplo, que esse mercado atende a um público que está em expansão: o dos usuários de canetas emagrecedoras:
"Consumidores das canetas GLP-1 são consumidores que utilizam tanto para o controle do diabético e também para o controle da obesidade. Ele vai procurar alimentos com controle de açúcar e uma ingestão adequada de proteína e também um equilíbrio nutricional ao longo, inclusive às vezes após o término do uso"
A entidade acaba de consolidar os números do consumo em 2025: o consumo aparente, que considera produção e importações, cresceu 4,2% no ano.
Para o setor, os números indicam uma expansão consistente, mas sem excessos, indicando um consumo moderado.
Histórias de quem decidiu mudar de estilo de vida mostram esse padrão.
O administrador Tiago Gonçalves, de 42 anos, começou esse movimento na pandemia, quando chegou a pesar 135 quilos. Hoje com 89, ele relata que alguns industrializados “fitness” ajudam na rotina, como iogurtes proteicos, whey e refrigerantes sem açúcar:
"E o resto é carne, a proteína animal, arroz e feijão e legumes. Os produtos industrializados ajudam a gente na nossa rotina. Nós temos uma rotina corrida. Eu não vejo problema em consumir produtos industrializados e ultraprocessados. Não vejo. Eu acho que o equilíbrio é a chave do sucesso nessa situação, porque assim, eu estou no escritório. Eu com certeza ia preferir na parte da tarde fazer um ovo mexido e comer, mas eu não posso. Se você quando tem a oportunidade, você opta pela refeição limpa, o ultraprocessado, ele não vai ter peso na sua rotina"
Os especialistas da área da saúde alertam para a necessidade desse tipo de consciência por parte do consumidor.
A nutricionista pela USP Amanda Figueiredo lembrou, por exemplo, que nomenclaturas como "fitness" ou "zero", por si só, não garantem que o produto é saudável:
"Um produto, ele pode ser zero, ele pode ser fitness, ele pode ser natural, mas o que a gente tem que levar em consideração? Se ele é um produto ultraprocessado, processado. Existem produtos que são ultraprocessados e colocam que são zero, ou seja, eles não têm açúcar adicionado, mas ele não deixa de ter outros aditivos, corantes, de ter gordura em excesso. Então a melhor coisa para a gente se proteger é aprender a ler os rótulos e entender quais são esses ingredientes. Não é só porque um produto é zero que os ingredientes são saudáveis"
O médico colunista da CBN Luis Fernando Correia, apresentador do podcast "Além do Peso", também alerta sobre o consumo de alimentos ultraprocessados:
"Temos que ter muito cuidado, gente, porque as pessoas querem, genuinamente, se alimentar melhor. Comoaalimento natural, a frase que vale sempre, vamos descascar mais e desembalar menos. Quer uma coisa natural para te dar energia para o seu treino? Come uma fruta. Pode tomar até um iogurte que tenha algum grau de processamento industrial, mas ainda é mais saudável do que aquela barrinha que você nem sabe o que foi misturado para chegar naquele formato"
É uma preocupação da arquiteta Victoria Gabriel, de 25 anos, que prioriza alimentos naturais e reduziu ao máximo os industrializados. Mesmo assim, ela usa esse tipo de produto em momentos de necessidade:
"Com certeza mudou o meu olhar para os rótulos tabelas nutricionais, mas principalmente evitar os alimentos industrializados, né? Hoje em dia nas minhas compras de mercado é muito mais alimentos naturais do que os processados, então muito mais fruta, verdura, proteína e deixar realmente esses industrializados para o momento de correria, onde precisa de uma barrinha de proteína ali como um lanche mais rápido, mas também sempre olhando e pegando as mais naturais possíveis com menos ingredientes. Então mudou bastante"
Aumenta a demanda, aumenta a oferta: não à toa a indústria alimentícia vem investindo não só em produtos novos, mas em novas versões "fit" de produtos tradicionais antes considerados "fat": refrigerantes e outras bebidas com menos ou zero açúcar; adição de proteína a iogurtes, biscoitos e salgadinhos; doces com suplementos alimentares.
A tendência tem aquecido o setor de diversas formas: entre janeiro e setembro de 2025, ante o mesmo período no ano anterior, a Abiad registrou alta de 4,1% nos empregos.
As importações somaram 854 milhões de dólares, com destaque para itens voltados ao controle de açúcar e vitaminas, que avançaram mais de 30%.
