Busca de criminosos por alianças alavanca explosão de roubos de rua em bairros de classes média e alta de SP

 

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Num sábado de fevereiro do ano passado, a médica Marília Dalprá saiu de casa antes das 5h, como fazia há mais de uma década, para correr pelo Parque Continental, na Zona Oeste de São Paulo. Ainda estava escuro, e as ruas estavam vazias. Logo no início do exercício, uma moto com dois ocupantes estancou ao seu lado, e o garupa anunciou o assalto. Ao ver as duas alianças de ouro na mão esquerda da mulher — uma de seu próprio casamento, a outra herdada de sua mãe —, o criminoso ordenou que ela entregasse as joias. Marília tentou explicar que as alianças nunca haviam saído do dedo. Irritado, o homem pegou sua mão e passou a tentar tirá-las a dentadas.

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— Ele me machucou, mas não conseguiu remover. Depois, derrubou e passou a me dar pontapés. Fiquei quatro dias na UTI à base de morfina, tive uma hemorragia pulmonar e sofri oito fraturas em vértebras e costelas — conta a médica, que voltou a correr após se recuperar. Hoje, ela usa um carro blindado para ir ao local dos treinos.

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Na contramão da queda de 15% no total de roubos de rua — casos de joias, relógios, carteiras e outros objetos subtraídos de pedestres — na capital paulista, assaltos em que alianças foram levadas das vítimas mais do que duplicaram: passaram de 1.377 em 2023 para 3.163 casos em 2025. No entanto, nas três regiões onde os ataques a pedestres mais avançaram na cidade no ano passado — todas com uma população majoritariamente de classes média e alta —, foram casos envolvendo alianças que alavancaram a escalada de crimes, revela o Mapa do Crime, ferramenta interativa de monitoramento de roubos do GLOBO.

Grafico 1 - Dia 5 - Mapa do Crime SP (v2)

Arte O GLOBO

O distrito policial do Jaguaré, que engloba o local onde Marília foi assaltada, foi o terceiro com maior aumento de casos do tipo em toda a cidade: de 348 roubos em 2024 para 433 em 2025, uma variação de 24,4%. As ocorrências com alianças, entretanto, mais do que duplicaram — de apenas 24 em 2024, pularam para 80 em 2025.

O Tatuapé, conhecido como lar dos "novos ricos" paulistanos, foi onde os roubos de rua mais cresceram entre todos os distritos da capital: de 306 casos para 462, um aumento de 51%. A variação de casos com alianças, no entanto, foi ainda mais acentuada — 250%, de 10 para 35. Já no Morumbi, o aumento nos ataques a pedestres foi de 35%, enquanto as ocorrências envolvendo alianças cresceram 151%, de 101 para 254. Na região, em cada 10 roubos contra pedestres em 2025, quatro tiveram alianças entre os bens levados.

Duas vias que cortam o Morumbi estão no pódio dos roubos de alianças na cidade: as avenidas Giovanni Gronchi, que lidera o ranking com 60 casos em 2025, e Professor Francisco Morato, terceira colocada, com 42. Segundo a Polícia Civil, ambas são impactadas pela atuação de quadrilhas de assaltantes a serviço de um dos principais polos de receptação de ouro da capital, a favela de Paraisópolis, nas imediações das duas avenidas. O local é base de atuação de Suedna Barbosa Carneiro, a Mainha do Crime, presa em fevereiro de 2025 e apontada como responsável por "patrocinar" centenas de assaltos — ou seja, fornecer armas, motos, capacetes e mochilas de aplicativos para os criminosos; em troca, ela recebia os bens roubados.

Grafico 1 - Dia 5 - Mapa do Crime SP (v2)

Arte O GLOBO

A Operação Ouro Reverso, desencadeada a partir da prisão de Suedna e da apreensão de seu celular, desvendou como uma rede de joalherias passou a fomentar o roubo de alianças em São Paulo. Com a quebra de sigilo do aparelho, a polícia chegou a Rony Gonçalves, o comprador das alianças receptadas por ela. Gonçalves, segundo a investigação, era um negociador de ouro a serviço de quatro estabelecimentos, que pagavam as joias com dinheiro vivo para depois as fundir e reutilizar em outros produtos.

— Nos últimos anos, o valor do ouro subiu muito: o grama pulou de pouco mais de R$ 500 para mais de R$ 800 por conta da desvalorização do dólar. Para driblar esse aumento, as joalherias preferiam pagar pouco mais de R$ 300 pelo grama de alianças roubadas. Os donos das lojas até pressionavam o Rony para que ele conseguisse cada vez mais joias — conta o delegado Fernando David de Melo, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Hoje, Suedna e Rony estão presos e respondem por receptação e organização criminosa. Quatro donos de joalherias tiveram prisões decretadas e estão foragidos.

O aumento do preço do ouro também atraiu criminosos integrantes da "gangue do Rolex" — ladrões especializados em roubos de relógios de luxo, com preços que podem ultrapassar os R$ 500 mil —, que também passaram a roubar alianças. Dois crimes em menos de dois meses escancaram essa migração. Em 13 de março do ano passado, dois homens em duas motos mataram a tiros o agente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) José Domingos da Silva, de 48 anos, na Zona Oeste, durante seu turno de trabalho, por se recusar a entregar sua aliança. A investigação identificou como responsáveis pelo crime dois integrantes de uma quadrilha especializada em roubos de Rolex, Gabriel Pedroza da Silva e Luan Schiavotto Gomes, que já haviam sido condenados por uma série de subtrações de relógios de luxo no interior paulista. Em maio, Pedroza voltou a agir: no Itaim Bibi, rendeu o delegado Antônio de Assunção Olim, que também é deputado estadual (PP), e levou seu Rolex.

— Esses ladrões de Rolex trabalham com receptadores que mandam os relógios para fora do país. Mas no meu caso, ninguém quis comprar o Rolex depois do roubo. Sabiam que era de um policial. Aí, ele ficou dois meses sem conseguir repassá-lo. Quando a polícia o prendeu, em julho, recuperei o relógio — conta Olim. Pelo latrocínio do agente da CET, a dupla de assaltantes foi condenada a 26 anos de prisão. Já pelo assalto a Olim, Pedroza foi sentenciado a uma pena de seis anos.


De 2023 a 2025, São Paulo registrou 187 roubos de Rolex — uma média de um caso a cada cinco dias. Em todos os anos, os bairros recordistas de casos foram Jardins e Itaim Bibi, onde o delegado foi abordado. No triênio, a Avenida Brigadeiro Faria Lima está no topo do ranking de roubos, com seis casos. Quanto ao roubo de notebooks e tablets, a Praça da República e seus arredores aparecem como ponto com maior concentração de casos no período. A marca mais roubada, em todos os anos, foi a Dell, seguida da Lenovo. Já a via que lidera o ranking de outras joias — como colares, pulseiras e brincos, exceto alianças — é, há três anos, a Avenida Paulista.

Apontado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) para responder os questionamentos do GLOBO, o delegado Daniel Borgues, da 1ª Delegacia Seccional (Centro), afirmou que a pasta redobrou a atenção aos roubos de aliança "à medida que a alta se consolidou".

— Houve intensificação das investigações da Polícia Civil para mapear receptadores, além de reforço do policiamento preventivo da Polícia Militar em áreas com maior concentração de casos, como regiões da Zona Oeste — afirma Borgues.

Quanto aos roubos de relógios de luxo, Borgues alegou que "a repressão aos mercados clandestinos que receptam e comercializam relógios, joias e outros artigos de luxo é parte central da estratégia e objeto de ações de inteligência policial. O objetivo é a asfixia dos receptadores e, desse modo, não havendo quem compre, há a desmotivação do criminoso em roubar ou furtar, uma vez que toda a cadeia criminosa e ilegal é desmontada".

O que é o Mapa do Crime de São Paulo?

O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.

Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.

Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.

*Estagiária sob a supervisão de Rafael Soares