O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, prometeu nesta quarta-feira tomar decisões difíceis para reformar o sistema de assistência social a adultos na Inglaterra, afirmando que pretende trabalhar com outros partidos para acabar com os altos custos considerados injustos para os usuários, que ele comparou ao sistema de saúde dos Estados Unidos. Leia também: Análise: Burnham pode ser o fracasso de que o Reino Unido precisa Reino Unido diz que está preparado para se defender após alerta do Irã
Sucessivos governos fracassaram em reformar o sistema de assistência social para adultos, cujos custos podem chegar a centenas de milhares de libras para as famílias. Propostas anteriores foram derrotadas pela oposição, que as classificou como um "imposto sobre a demência" ou "imposto sobre a morte".
Burnham não descartou elevar impostos para financiar um novo modelo e afirmou que "campanhas de alarmismo" em manchetes de jornais não o impedirão de enfrentar um problema que tende a se agravar com o envelhecimento da população.
"É uma grave omissão do dever público que o Parlamento não tenha enfrentado essa questão", disse ele durante visita a uma casa de repouso no norte de Londres.
Questionado se seria possível reformar o sistema sem aumentar impostos, Burnham respondeu que é possível fazer mais com os recursos atuais, mas reconheceu que parte das medidas "exigirá decisões difíceis".
"Seremos francos com a população sobre isso", afirmou, acrescentando que manterá a promessa feita durante a campanha de não elevar determinados impostos cobrados das pessoas físicas. O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, realiza uma reunião do Conselho Econômico Nacional no número 10 Norte da Heron House, em Manchester, Inglaterra, em 24 de julho de 2026 Christopher Furlong/Pool via REUTERS
Experiência pessoal de Burnham Impulsiona reforma Burnham, que viu a popularidade do Partido Trabalhista subir nas pesquisas desde que assumiu o cargo de primeiro-ministro na semana passada, afirmou que a experiência de seu pai com o mal de Alzheimer foi um dos motivos que reforçaram sua determinação de reformar o sistema e corrigir o que chamou de histórico político "vergonhoso" na área de assistência social.
"Acho que a assistência social na Inglaterra é tão injusta quanto o sistema de saúde americano", disse. "As pessoas mais vulneráveis pagam com tudo o que têm e podem acabar sem absolutamente nada."
Para enfrentar o problema, Burnham afirmou que vai acelerar uma revisão do setor, elaborar um plano para a força de trabalho da assistência social e abrir diálogo com os partidos Conservador e Liberal-Democrata, na tentativa de construir um consenso nacional.
O primeiro-ministro disse estar disposto a gastar capital político para reformar o sistema. Ele tentou, sem sucesso, mudar o modelo de financiamento da assistência social quando era ministro da Saúde, em 2010, e afirmou ter aprendido com aquela experiência.
Ao contrário do Serviço Nacional de Saúde (NHS), que oferece atendimento gratuito no momento do uso, as casas de repouso são administradas por diferentes tipos de prestadores, desde grandes redes controladas por fundos internacionais de private equity até pequenas empresas familiares, organizações beneficentes e governos locais.
Segundo Burnham, a criação de um serviço nacional de assistência social integrado ao sistema público de saúde na Inglaterra reduziria a pressão sobre ambos os setores. As políticas de saúde e assistência social são descentralizadas e administradas separadamente pelos governos da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
Ele também indicou que pretende enfrentar a busca por lucros excessivos no setor de assistência social, associada, segundo ele, a cortes de custos desnecessários e perigosos, o que classificou como "fundamentalmente inaceitável".
Dependendo da necessidade médica e da região, moradores de casas de repouso pagam cerca de 1.400 libras (US$ 1.900) por semana quando custeiam integralmente os serviços, enquanto as autoridades locais desembolsam aproximadamente 1.000 libras por um atendimento semelhante. A parcela paga pelo usuário e a contribuição do Estado dependem do patrimônio de cada pessoa.
Sarah Woolnough, diretora-executiva do centro de estudos em saúde King's Fund, afirmou que uma em cada sete pessoas idosas deverá gastar mais de 100 mil libras com assistência social ao longo da vida e que houve "décadas de inação", deixando as tentativas de reforma "no cemitério das boas intenções de Westminster".
"Este é o momento de aproveitar a oportunidade e mostrar como a assistência social pode melhorar a vida das pessoas, ao mesmo tempo em que reduz a pressão que esse sistema falido exerce sobre o NHS", afirmou.
Valor