Bruxas petrificadas e a maldição da sétima filha: as lendas que fazem de Florianópolis a Ilha da Magia

Bruxas petrificadas e a maldição da sétima filha: as lendas que fazem de Florianópolis a Ilha da Magia - Foto
Fonte da notícia: Jornal Razão Jornal Razão

As pedras gigantes que parecem flutuar no mar de Itaguaçu, em Florianópolis, seriam bruxas petrificadas. Segundo a lenda, elas foram transformadas em pedra pelo coisa-ruim depois de fazer uma festa sem convidar o chefe.

A história é uma das muitas que fazem da capital catarinense a Ilha da Magia. Quem conta é Rodrigo Stüpp, jornalista e guia do Guia Manezinho, que recebeu o Jornal Razão em Itaguaçu, o bairro onde nasceu Franklin Cascaes, o artista e pesquisador que registrou as lendas de bruxas da Ilha de Santa Catarina.

Para Rodrigo, Florianópolis ganhou o apelido pela beleza natural, mas especialmente pelas lendas trazidas pelos imigrantes açorianos, que chegaram por volta de 1750. As histórias, segundo ele, também serviam para assustar as pessoas e manter a cultura viva, e foram contadas de boca em boca por séculos, até que Cascaes resolveu documentar tudo.

“Ele não criou, ele documentou, registrou algo que o açoriano já contava”, diz o guia. São cerca de 30 histórias reunidas no livro O Fantástico na Ilha de Santa Catarina.

Uma delas é a eleição bruxólica, que explica como as bruxas disputam o poder quando a bruxa chefe morre. Outra é o balanço bruxólico, sobre um homem que desafiou uma bruxa e acabou punido.

Nela, a bruxa aparece se balançando num cipó numa figueira. “A figueira é uma árvore meio mística.

Pro manezinho, é uma casa de bruxa”, conta Rodrigo. Franklin Joaquim Cascaes nasceu em 1908 em Itaguaçu, quando a região ainda pertencia a São José.

Um monumento com o Boitatá, perto da praia, lembra o lugar. Segundo Rodrigo, a família dele tinha uma fazenda onde hoje fica a homenagem, e foi ali, na praia, que o menino ouviu as primeiras histórias e fez os primeiros desenhos.

“Quando ninguém falava em patrimônio imaterial, cultura popular, ele já tava atento dizendo: se a gente não documentar agora, isso vai desaparecer”, afirma o guia. Rodrigo conta que Cascaes chegou a ser ridicularizado por professores da universidade, que não entendiam por que ele ia ouvir os manezinhos que acreditavam em bruxa.

As bruxas são só uma parte do legado. Cascaes deixou milhares de peças de cerâmica, muitas em cerâmica crua, e uma enorme coleção de ilustrações.

Como boa parte dos moradores não sabia ler nem escrever, ele voltava às comunidades com os desenhos que fazia de memória e perguntava: “É mais ou menos assim que vocês imaginaram?”. Era a forma de devolver as histórias para quem as contava.

A lenda das pedras de Itaguaçu não é de Cascaes. Ela foi registrada por Gelci José Coelho, o Peninha, discípulo do artista, como mostra a placa da Prefeitura de Florianópolis instalada no local.

O texto da placa conta que as bruxas da região queriam uma festa aos moldes da alta sociedade, com lobisomens, mulas-sem-cabeça e boitatás entre os convidados, mas decidiram não chamar o diabo. Ele apareceu entre raios e trovões e transformou todos em pedras grandes.

Daí o nome do lugar, em tupi: ita, pedra, e guaçu, grande. Rodrigo aponta as “provas”: são sete rochas, número que aparece muito no universo de Cascaes, e uma delas, aquela com a gaivota no alto, seria uma bruxa petrificada com o chapéu.

“Ou nós estamos diante do Stonehenge manezinho, ou é uma bruxa petrificada”, brinca. O sete também está numa das crenças mais antigas da Ilha.

Numa família de sete mulheres, a mais velha teria que batizar a sétima com nome de santo, senão ela se transformaria em bruxa. Por isso, segundo o guia, há tantas mulheres chamadas Benta entre as manezinhas mais antigas.

Outra lenda, mais moderna e fora do universo de Cascaes, explica a Lagoa da Conceição. Ela conta o amor proibido do indígena Peri pela bruxa Conceição.

Os dois foram separados para sempre, e Conceição chorou tanto que as lágrimas formaram a lagoa. “Os dois unidos pela ilha, mas separados por esse amor proibido”, resume Rodrigo.

Para o guia, o imaginário não está só nos livros, como O Fantástico na Ilha de Santa Catarina, Lendas da Ilha e Brumas da Ilha. Ele está no cotidiano: uma manezinha mais antiga não varre a casa em feriado santo, por exemplo.

E segue vivo em bailes e blocos místicos. “Viva a cultura, viva nossas bruxarias e as nossas feiticeiras”, diz.

As ilustrações das lendas no vídeo foram feitas com inteligência artificial. © Jornal Razão.

Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/cidades/bruxas-itaguacu-franklin-cascaes-ilha-da-magia-florianopolis

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