Broca de 5.300 anos achada em museu britânico muda o que se sabia sobre a tecnologia no Egito Antigo; entenda

 

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Uma pequena peça de metal, guardada por décadas em uma coleção universitária, está redesenhando o mapa da engenharia antiga. Um artefato de liga de cobre identificado como a mais antiga broca metálica já conhecida indica que os egípcios dominavam técnicas sofisticadas de perfuração rotativa há mais de 5.300 anos.

Catalogado como 1924.948 A no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Cambridge, o objeto foi escavado no início do século XX em um cemitério em Badari, no Egito. Durante décadas, permaneceu praticamente ignorado após ter sido descrito pelo arqueólogo Guy Brunton, nos anos 1920, como uma simples sovela de cobre envolta em couro.

Nova análise conduzida por pesquisadores, entre eles o arqueólogo Martin Odle, da Universidade de Newcastle, identificou padrões microscópicos de desgaste incompatíveis com raspagem manual. Estrias finas, bordas arredondadas e leve curvatura na ponta apontam para rotação contínua e controlada. Seis espirais de couro extremamente frágeis ainda aderidas ao eixo reforçam a hipótese de que se tratava de uma furadeira acionada por arco, mecanismo em que uma corda tensionada faz a haste girar rapidamente para perfurar madeira, pedra ou outros materiais.

Tecnologia dois milênios antes do previsto

A ferramenta, datada do período Naqada II (cerca de 3300 a 3200 a.C.), antecipa em mais de dois milênios as evidências mais bem preservadas desse tipo de tecnologia. A composição metálica, com presença de arsênio e níquel, além de quantidades significativas de chumbo e prata, sugere escolhas técnicas deliberadas e possível intercâmbio de materiais ou conhecimento pelo Mediterrâneo antigo.

Segundo os pesquisadores, a descoberta altera a cronologia da engenharia mecânica no Egito e amplia a compreensão sobre o desenvolvimento tecnológico em uma fase marcada pelo surgimento da realeza, da escrita e da religião organizada — bases da civilização egípcia clássica.

O achado dialoga com outro estudo recente que também vem reavaliando marcos históricos do país. Pesquisa divulgada em dezembro reposicionou a ascensão do Novo Império, tradicionalmente datado entre 1550 e 1070 a.C., quase um século depois do que se estimava.

A revisão cronológica se apoia em datações por radiocarbono de artefatos associados às 17ª e 18ª dinastias, incluindo objetos ligados ao faraó Ahmose I, fundador da 18ª Dinastia e responsável por reunificar o Egito após expulsar os hicsos. Os resultados indicam que a grande erupção vulcânica de Santorini, frequentemente associada a esse período, ocorreu antes do reinado do soberano.

Juntas, as duas pesquisas mostram como objetos aparentemente discretos, de uma pequena broca a um tijolo de barro, podem redefinir capítulos inteiros da história. Muito além dos monumentos de pedra, são as ferramentas do cotidiano que agora ajudam a contar uma nova versão sobre o avanço técnico e político do Egito Antigo.