BRB ignorou alertas sobre inconsistências em carteiras de crédito enquanto negociava com o Master

 

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Relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB) identificou que a instituição financeira ignorou uma série de alertas sobre inconsistências em carteiras de crédito repassadas pelo Banco Master enquanto negociavam uma aquisição. O documento elaborado por técnicos no banco aponta itens como valores divergentes em contratos de crédito consignado, não reconhecimento de contratações por clientes, além de documentos com valores e prazos idênticos, o que levantou suspeitas de um grupo interno instituído pela gestão anterior da estatal, que, por sua vez, decidiu levar as tratativas adiante.

O documento consta em uma ação apresentada pelo BRB em que pede o bloqueio de bens de fundos e pessoas ligadas ao Master. Como revelou o GLOBO, uma auditoria contratada pelo BRB identificou que esse grupo vinculado a Daniel Vorcaro, fundador do banco, aumentou sua participação acionária em 33 mil vezes entre o início de 2024 e o fim de 2025, mesmo período em que a instituição estatal adquiriu carteiras de crédito podres do Master, que somavam R$ 12 bilhões.

Na ação, o BRB sustenta que esse processo de aumento de capital resultou na entrada de Vorcaro e outros investigados pela Polícia Federal como acionistas do banco estatal.

O grupo de trabalho para avaliar a negociação com o Master foi instituído pelo ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, preso pela PF depois que investigações apontaram que ele receberia R$ 146 milhões em imóveis de Vorcaro com o objetivo de facilitar a negociação entre os bancos. Procurada, sua defesa afirmou que não iria comentar.

Na decisão que autorizou a prisão, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), pontuou que a investigação da PF apontou que”o êxito da fraude não pode ser dissociado de graves falhas de governança e de uma atuação, em tese, deliberadamente conivente de sua alta administração”.

Diálogos obtidos pela PF entre Paulo Henrique e outro diretor do banco “indicariam que, desde o início das operações, já se conheciam inconsistências relevantes nas carteiras ofertadas”.“Apesar disso, as aquisições teriam sido aceleradas, com sucessivas flexibilizações procedimentais e pressão para liquidação rápida, em aparente desprezo aos controles prudenciais”, escreveu Mendonça.

De acordo com o documento elaborado pelos técnicos, todo o controle da carteira de crédito era realizado de forma manual, via planilha Excel, o que é considerado pouco usual diante do volume das transações.

O grupo também apontou que havia distorções relativas a créditos consignados. Uma pesquisa em contratos de pessoas físicas identificou que o valor contratado divergia do número final quando as parcelas eram somadas. “Verificou-se que os valores averbados são inferiores aos valores somados das parcelas dos contratos adquiridos pelo BRB por cada CPF”, diz o relatório.

O documento citou, ainda, outros comportamentos que chamaram atenção dos técnicos do BRB, como um aumento expressivo nas reclamações de clientes relacionadas ao não reconhecimento de contratos originados pelo Banco Master e posteriormente adquiridos pelo banco estatal.

Nova operação

Na última segunda-feira, o BRB divulgou fato relevante informando ter celebrado um memorando de entendimento com a gestora Quadra Capital para vender parte de ativos que eram do Banco Master. De acordo com o banco estatal, a operação possui valor de referência de R$ 15 bilhões.

O acordo prevê uma primeira parcela à vista de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões, o valor remanescente, estimado entre entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões, será vendido por meio de cotas de fundo de investimento a ser estruturado para a gestão e monetização dos ativos.