Braskem e Casas Bahia expõem pressão sobre empresas brasileiras e reforçam importância de gestão financeira estratégica - QTU Questões do Universo

Braskem e Casas Bahia expõem pressão sobre empresas brasileiras e reforçam importância de gestão financeira estratégica

Fonte: Bandeira da fonte

O pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, protocolado nesta segunda-feira (24) na Justiça de São Paulo, adiciona mais um caso de grande porte ao cenário de empresas brasileiras pressionadas por endividamento, custo de capital e dificuldade de geração de caixa.
A petroquímica busca reestruturar aproximadamente US$10,9 bilhões em dívidas, equivalentes a cerca de R$56 bilhões, enquanto enfrenta um longo período de margens pressionadas no setor, passivos relacionados ao caso de Maceió e dificuldades financeiras em operações no exterior.
O movimento ocorre poucos dias depois de a Casas Bahia entrar em recuperação judicial para renegociar aproximadamente R$17,3 bilhões em dívidas, evidenciando que a deterioração financeira pode atingir empresas de segmentos, modelos de negócios e escalas completamente diferentes.
No caso da varejista, o pedido ocorreu mesmo diante de indicadores que apontavam evolução em determinadas frentes operacionais, como o crescimento da receita líquida e das vendas próprias pela internet no segundo trimestre.
Para Renan Rodrigues, sócio da Milanezi & Rodrigues, os dois episódios devem ser analisados dentro de um contexto maior: o de empresas que precisam conciliar crescimento, operação e investimentos com uma estrutura financeira capaz de suportar ciclos adversos.
"Braskem e Casas Bahia são empresas muito diferentes, mas os casos trazem uma reflexão em comum para o empresário: o tamanho da operação, por si só, não garante saúde financeira.
Uma companhia pode ter escala, marcas fortes, clientes e faturamento relevante e, ainda assim, enfrentar dificuldades para transformar sua operação em geração de caixa suficiente para sustentar o endividamento e os compromissos assumidos", afirma.
Cenário exige mais atenção à estrutura financeira
O caso da Braskem chama atenção justamente porque a companhia não está diante de um problema exclusivamente operacional.
Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira, a empresa registrou lucro de R$3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, mas mantém uma estrutura de endividamento elevada, com dívida líquida ajustada de aproximadamente US$9,43 bilhões e alavancagem de 14,7 vezes o EBITDA.
A situação mostra que resultado positivo em determinado período não necessariamente significa que a estrutura financeira esteja equilibrada.
A recuperação extrajudicial, que permite negociar diretamente com credores e posteriormente buscar a homologação judicial do acordo, surge como uma ferramenta para reorganizar o passivo e criar condições para a continuidade da operação.
Antes do pedido, a Braskem já havia obtido proteção judicial temporária contra execuções e bloqueios enquanto negociava com credores.
A companhia também enfrentou rebaixamento de sua classificação de risco pela Fitch para RD (inadimplência restrita) após atrasos no pagamento de juros.
Para Rodrigues, o episódio reforça a diferença entre resultado contábil, rentabilidade e liquidez.
"Uma empresa pode apresentar lucro e, ao mesmo tempo, ter uma estrutura de dívida que comprometa sua capacidade financeira.
O que precisa ser observado é a qualidade desse resultado, o fluxo de caixa efetivamente gerado, o custo da dívida, os vencimentos e quanto da operação está comprometida com o serviço do passivo.
É essa visão integrada que permite identificar um problema antes que ele se transforme em uma crise de liquidez", explica.
Casas Bahia mostra outro lado da mesma equação
Enquanto a Braskem enfrenta uma crise fortemente associada à estrutura de endividamento e às condições do mercado petroquímico, a Casas Bahia evidencia os desafios de um modelo no qual capital de giro, crédito, estoque e custo financeiro possuem papel central.
A varejista registrou crescimento de 1,6% na receita líquida no segundo trimestre de 2026 e avanço de 15,3% nas vendas próprias pela internet, mas entrou em recuperação judicial diante de uma estrutura de passivos que chegou a R$17,3 bilhões.
A empresa também vem promovendo um redimensionamento de sua operação, incluindo o fechamento de lojas e a concentração de recursos em canais e categorias consideradas mais rentáveis.
Na avaliação da Milanezi & Rodrigues, a combinação dos dois casos é particularmente importante porque mostra que não existe um único caminho para uma empresa chegar a uma situação de estresse financeiro.
"Na Braskem, temos uma empresa industrial, intensiva em capital e exposta a ciclos internacionais, que acumulou uma estrutura de dívida muito elevada.
Na Casas Bahia, temos uma operação de varejo que depende fortemente de capital de giro, crédito e eficiência de seus canais.
São problemas diferentes, mas ambos mostram a importância de alinhar o tamanho da operação à capacidade financeira do negócio", diz Renan.
O alerta para empresas de médio porte
Embora Braskem e Casas Bahia estejam entre as maiores companhias do país, o aprendizado não se restringe às grandes corporações.
Para a Milanezi & Rodrigues, empresas de médio porte podem ser ainda mais vulneráveis quando decisões de expansão são tomadas sem planejamento financeiro adequado.
A abertura de novas unidades, aumento de estoque, contratação de equipes, aquisição de máquinas, expansão geográfica ou entrada em novos canais podem elevar significativamente a necessidade de capital.
Se o retorno dessas iniciativas demora mais do que o previsto, a empresa pode acabar financiando seu crescimento com dívida ou comprometendo recursos que seriam necessários para a operação cotidiana.
"O empresário muitas vezes olha para o crescimento pelo lado comercial: quanto vou vender, quantos clientes vou conquistar ou quanto vou aumentar meu faturamento.
Mas existe uma segunda pergunta que precisa vir junto: quanto capital será necessário para financiar esse crescimento e quando esse capital vai retornar? Se essa conta não estiver clara, uma expansão que parecia positiva pode se transformar em pressão sobre o caixa", afirma Rodrigues.
A conjuntura atual torna essa análise ainda mais relevante.
O ambiente de juros elevados aumenta o custo de financiamento e torna mais caro carregar dívidas por períodos prolongados.
Ao mesmo tempo, empresas expostas a ciclos de consumo, commodities ou crédito precisam considerar que receitas e margens podem oscilar, enquanto determinadas despesas e compromissos financeiros permanecem.
O próprio mercado vem acompanhando uma sequência de casos de empresas em recuperação judicial ou extrajudicial.
A CNN Brasil destaca que os juros altos têm pressionado especialmente empresas do varejo, enquanto companhias como Americanas e Casas Bahia acumulam fortes perdas de valor de mercado desde 2020.
Para Rodrigues, o momento exige uma mudança de perspectiva na gestão.
"O empresário não pode esperar o caixa ficar comprometido para começar a olhar para a estrutura financeira.
É preciso trabalhar preventivamente com projeções de fluxo de caixa, cenários, indicadores de endividamento, necessidade de capital de giro e retorno sobre o capital investido.
A gestão financeira precisa acompanhar a estratégia do negócio desde o momento em que a decisão de crescimento é tomada", destaca.
Faturamento, lucro e caixa precisam contar a mesma história
Para a Milanezi & Rodrigues, a principal mensagem que os casos recentes deixam para o mercado é que faturamento, lucro e geração de caixa são indicadores complementares, e não substitutos.
Uma empresa pode vender mais sem melhorar sua margem; pode apresentar lucro contábil sem gerar caixa suficiente; e pode crescer rapidamente enquanto aumenta sua exposição ao endividamento.
Por isso, decisões de gestão precisam considerar simultaneamente rentabilidade, capital empregado, nível de endividamento, custo financeiro, capital de giro e capacidade de geração de caixa.
"O crescimento saudável é aquele em que a empresa consegue transformar a expansão da operação em geração de valor.
Não se trata de defender que as empresas parem de crescer ou reduzam suas estruturas.
Trata-se de entender qual é o crescimento que faz sentido financeiramente para cada negócio.
Braskem e Casas Bahia mostram, por caminhos diferentes, que quando operação e estrutura financeira deixam de caminhar juntas, o tamanho da empresa pode deixar de ser uma vantagem e passar a ser parte do problema", conclui Renan Rodrigues.