Brasileiros que atuam na política dos EUA falam sobre

Brasileiros que atuam na política dos EUA falam sobre 'desafios': 'Faço jornada dupla, tripla'

 

Fonte: Bandeira



Farley Santos, 37 anos, nascido em Sobrália (MG), acorda cedo, deixa a filha de 12 anos no ponto de ônibus e segue para uma longa jornada acumulando duas funções: deputado na Assembleia Legislativa de Connecticut e secretário de Desenvolvimento Econômico de Danbury, cidade governada pelo prefeito luso-brasileiro Roberto Alves. Ambos estão no segundo mandato e são exemplos de imigrantes que entraram na política americana — junto a outros brasileiros, em sua maioria filiados ao Partido Democrata.

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Lá, o sistema eleitoral é dividido em municipal, estadual e federal, como no Brasil, mas as diferenças aparecem na prática.

—Um vereador aqui em Danbury, por exemplo, cargo que exerci por dois mandatos, não é remunerado. Meu cargo atual tem um salário anual de US$ 40 mil, valor que não dá pra viver se você tem uma família — conta Santos, que antes de integrar o gabinete do prefeito trabalhava também em um banco comunitário.

Santos afirma que grande parte da comunidade em Danbury é formada por brasileiros. Porém, o número vem diminuindo pela atuação do governo de Donald Trump em relação à imigração:

— Aqui, todo ano entravam mais de 200 crianças no nosso sistema de educação. Este ano, são 700 vagas a menos. As famílias ou estão indo embora ou deixando as crianças em casa.

Roberto Alves nasceu em Portugal, mas viveu no Rio de Janeiro antes de chegar aos EUA aos cinco anos.

—Sou muito orgulhoso de ser americano. Ao mesmo tempo, reconheço que muitas pessoas me veem como alguém nascido em Portugal ou como um líder brasileiro. E eu abraço essa identidade — afirma o prefeito, que recentemente venceu um câncer linfático.

Stephanie Martins integra um movimento de renovação na Câmara Municipal de Everett, Massachusetts, que é formada em sua maioria por mulheres. Após perder sua primeira disputa, foi eleita vereadora em 2019 e está no quarto mandato:

—É um desafio ser uma política, mulher, jovem, imigrante e competir com pessoas que há anos estão ocupando os assentos políticos, em sua maioria homens brancos de meia-idade.

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Tripla jornada

Ela conta que precisou se envolver profundamente nas causas de Everett, cidade com forte presença brasileira, enquanto mantinha atividades no mercado imobiliário, como juíza de paz e tradutora em audiências:

—O salário como vereadora é simbólico, não paga nem meu aluguel. Faço jornada dupla, às vezes tripla.

A rotina política, diz ela, cobra um preço:

— Sou divorciada, não tenho filhos. É muito raro pessoas que entram na política, mulheres, continuarem casadas. Teve uma onda de mulheres políticas, e a maioria se divorciou.

Formada em direito e sem experiência política, Rita Mendes trabalhou num escritório de advocacia ligado à política local e foi incentivada a disputar uma vaga de vereadora em Brockton. Eleita em 2019 e reeleita, venceu depois a eleição para deputada estadual, acumulando ambos os cargos por um período. Está no terceiro mandato.

— Nunca imaginei que me tornaria deputada estadual nos Estados Unidos — diz.

Brockton é um distrito humilde, com muitos cabo-verdianos, haitianos, angolanos e latinos — e poucos brasileiros.

— Não é uma população que acompanha nossos projetos de lei, mas que está atenta se recebe os benefícios de desemprego ou o voucher de estudos para as crianças — ressalta.

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Mendes diz ter feito campanha por Kamala Harris em New Hampshire, em 2024:

—Fiquei muito triste porque sei que muitos brasileiros votaram no Trump. Sou advogada de imigração e vejo todos os dias o que está acontecendo, como, por exemplo, crianças sendo raptadas pelo ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA.

Destoante no grupo de políticos brasileiros, Mauricio Galante é filiado ao Partido Republicano. Ele chegou aos EUA em 2003, vindo de uma carreira na Marinha. Montou uma escola de paraquedismo em Connecticut e mudou-se para o Texas em 2024, quando comprou com sua mulher, Larissa, o Golf Center of Arlington, cidade em que veio a se tornar vereador no mesmo ano:

— A One América é o meu sonho, é ver o Brasil e os EUA terem livre-comércio, abertura de visto, mas acredito que hoje estejamos desalinhados politicamente.

Ele cita dados da Major Cities Chiefs Association (MCCA) sobre a queda da criminalidade na maior parte dos EUA e a renovada presença do país no cenário internacional como avanços do governo Trump:

— Aqui, na fronteira do Texas não passa mais ninguém, mas claro que temos problemas como aumento, temporário, da gasolina e excessos do ICE, deixando de mirar em ilegais que cometem crimes.