Brasileiro é detido pelo ICE na Califórnia e ameaçado de deportação para a Guiana, diz advogada - QTU Questões do Universo

Brasileiro é detido pelo ICE na Califórnia e ameaçado de deportação para a Guiana, diz advogada

Fonte: Bandeira da fonte

Um brasileiro que reside nos Estados Unidos há mais de vinte anos foi detido por agentes do ICE, serviço de imigração americano, na última terça-feira, e ameaçado de ser deportado para a Guiana, de acordo com sua advogada, Jane Oak.

Alex Pereira-Alves tem 47 anos e mora há mais de 16 anos em West Hollywood, na Califórnia, onde atua como segurança e personal trainer.
Segundo seu amigo Jeff Markwardt, Alex é formado em marketing e já morou em Londres e na Austrália.
“Ele é trabalhador, generoso, gentil”, afirma.

Alex está detido no Centro de Detenção de Adelanto, que tem sido denunciado por suas condições precárias.
No mês passado, um juiz federal ordenou melhorias no fornecimento de água e atendimento médico do local, fruto de um processo aberto após duas mortes no centro em um intervalo de poucas semanas.

Alex entrou nos Estados Unidos em 2010 legalmente, com autorização de permanência temporária, mas ficou além do prazo.
Quando Alex foi legalizar sua situação, já tinha passado mais de um ano de sua entrada em solo americano.
Por isso, ele não conseguiu os documentos que, diz a advogada, poderiam garanti-lo um greencard e a cidadania americana.

Mas ele conseguiu uma suspensão de deportação ao Brasil, uma proteção prevista na lei de imigração dos EUA que impede o governo de enviar uma pessoa para um país específico onde sua vida ou liberdade corram risco.
Alex é gay e alegou ter sofrido riscos reais por causa disso no Brasil.

Essa proteção concede o direito à pessoa de permanecer legalmente e trabalhar no país, mas não oferece um caminho para a residência permanente.
Também não significa, segundo a advogada, que o governo não possa eventualmente deportar a pessoa para outro país.

“Desde 2018, Alex tinha de fazer um check-in no centro, mas era tudo muito tranquilo.
Com o governo Trump, tudo mudou: ele precisava ir a cada três meses e cada hora a localização era uma.
Foi muito confuso”, conta Jeff.
Segundo ele, agentes do ICE estiveram na casa de Alex duas vezes este ano.

Procurado, o Departamento de Segurança Interna (DHS) dos Estados Unidos, responsável pelo ICE, não retornou.
Ao canal ABC7 Eyewitness News, o DHS informou, segundo o jornal, que Alex entrou legalmente no país em 5 de julho de 2010 com autorização para permanecer por seis meses, mas ultrapassou o período de permanência permitido, “violando as leis da nação”.

Em abril deste ano, Alex foi chamado pelo ICE e recebeu uma ordem de supervisão, um documento que permite a um não cidadão, sujeito a uma ordem de remoção, residir nos EUA sob regras específicas de apresentação e monitoramento.
Segundo a advogada, Alex era monitorado pelo seu celular.

Alex também teria de se reapresentar fisicamente às autoridades em novembro deste ano, e para isso que os serviços jurídicos foram contratados originalmente.
Mas, na última segunda-feira, Alex foi surpreendido por uma ligação do ICE exigindo sua apresentação no dia seguinte.

Segundo a advogada, chegando lá, Alex nem pegou a fila de atendimento e, em 5 minutos, foi algemado, detido e a deportação foi anunciada.

Jeff, o amigo de Alex, diz que ele é muito organizado.
“Um dia antes de se apresentar, ele me mostrou onde estava a chave que dava acesso aos seus documentos, todos organizados, o que ajudou muito na hora de fornecer as informações para a advogada.
Ele também fez capturas de tela das mensagens do ICE, o que vai ajudar a demonstrar como foi inesperado”, conta.
“Eu perguntava se ele tinha um ‘plano B’ e ele dizia que não.
Mas, nos últimos seis meses, acho que ele ficou com uma pulga atrás da orelha.
Ele me deixou o contato de três amigos que deveriam ser avisados se algo acontecesse com ele.”

Como todas as informações sobre o caso, até agora, foram verbais, Alex está preocupado, porque sequer sabe se será deportado para a Guiana, como entendeu sua advogada, ou para Gana, como ele próprio entendeu.
Ou ainda para Goiânia, sua cidade originária.

A Guiana é o único país da América do Sul que ainda criminaliza a homossexualidade, mas Alex também teme ser mandado para tão longe no continente africano.
“Nesse ponto, o país nem importa tanto, mas o fato de a gente nem sequer saber, isso é absurdo”, afirma Jeff.

Futuro

A advogada de Alex entrou com um pedido de habeas corpus alegando que os direitos dele foram violados durante a detenção e solicitando que o brasileiro possa aguardar o processo em liberdade em solo americano.

No fim da semana, um juiz federal suspendeu temporariamente a deportação de Alex.
Agora, o governo americano tem até 21 de agosto para prestar esclarecimentos, explica a defesa, e ele terá até 24 de agosto para responder.

Jeff, o amigo do brasileiro, conta que, três meses atrás, quando Alex ainda ia fazer check-in presencialmente, ele acabou em uma sala com apenas um agente do ICE, que, segundo ele, teria dito que gostaria de deportar Alex naquele mesmo dia, mas que não poderia por causa da decisão do juiz que lhe concedeu a suspensão de deportação.

“Temos esperança por causa dessa decisão.
Mas o governo Trump também está reescrevendo as regras da constituição”, afirma Jeff.
“Em momentos de desespero como o atual, temos de pensar passo a passo.
Um mês à frente parece muito.
O primeiro passo é reverter a detenção.”

A advogada se diz esperançosa com o resultado do processo, porque juízes da Califórnia têm sido, segundo ela, receptivos às petições de imigrantes.
É possível, por exemplo, que o juiz determine a soltura com exigências, como uma apresentação periódica ao ICE.

Uma possibilidade também é negociar uma soltura com auto deportação, em que Alex deixaria os EUA voluntariamente, mas para um destino de escolha e podendo levar consigo seus pertences.
Alex saiu para se apresentar ao ICE na terça-feira, sem saber que não retornaria, deixando em casa sua cachorra Bella.

Nos EUA, um aplicativo gratuito chamado Snug, pensado para pessoas mais velhas ou que moram sozinhas, com ou sem pets, exige que uma pessoa faça um check-in diário para avisar outra de que está bem.
“O Alex nunca quis baixar isso, e eu queria que ele tivesse baixado”, lamenta Jeff.

Sem água

Jeff, amigo de Alex que o visitou em Adelanto junto com outra brasileira e que tem mantido contato frequente com ele, conta que, nas primeiras ligações, Alex disse que o que estava acontecendo era “muita coisa”.
“Ele afirmava: ‘Eles vão me matar’.
Ele estava petrificado, aterrorizado”, diz Jeff.

Nos dias seguintes, ele soava mais calmo, mas quando Jeff foi visitá-lo neste sábado, viu o amigo chorar como nunca.
“Ele estava, de novo, menos otimista”, afirma.
“Seus lábios estão muito rachados, ele parece exausto e diz que se sente anestesiado.”

Jeff relata que Alex contou que uma noite não havia água no Centro de Detenção de Adelanto.
"Às vezes, não há água para tomar banho ou escovar os dentes", afirma.

Mas Alex e vários outros detidos aprenderam a, quando tem, armazenar água embaixo da cama em garrafas vazias que, quem recebe dinheiro de parentes e amigos fora da detenção, compram na cantina.
"Estou apavorado pelos detidos que não têm ninguém do lado de fora para colocar dinheiro em sua conta.
Eles não podem fazer isso sozinhos e não têm permissão para compartilhar itens, então ficam sem as coisas mais básicas", diz Jeff.
“As pessoas lá estão desesperadas.
A comunicação é difícil”, afirma.

O amigo de Alex se mostra impressionado com as condições do lugar.
"Tem uma sala lotada com 99 beliches.
Um monitor instalado no alto da parede, vigiando e emitindo comandos.
A porta para o exterior abre apenas três vezes por semana — noventa minutos no total.
No resto do tempo, as pessoas vivem sob luz e vigilância constantes e quase nenhuma circulação de ar", relata.

Segundo ele, muitas pessoas detidas em Adelanto também não têm condições de pagar advogados.
Alex conseguiu acionar sua advogada porque ela já havia sido contratada para acompanhá-lo em novembro, e os amigos do brasileiro se juntaram para bancar o pedido de habeas corpus.
“Mas ainda há muitos desafios financeiros pela frente”, diz Jeff, que pensa em abrir uma vaquinha online para ajudar o amigo.

De certa forma, Alex tem sorte de ter uma rede de amigos para dar suporte nesse momento, diz Jeff – inclusive, pessoas da vizinhança se dispuseram a ajudar a cuidar da cachorra Bella.
“É o poder da comunidade”, afirma Jeff.

Mas a detenção, sob essas condições, de um ente ou amigo é um acontecimento que afeta não só o imigrante, mas toda a comunidade ao seu redor.
“Eu não estava preparado para isso, e olha que eu sempre fui o mais pessimista.
Minha vida está caótica, um completo pesadelo, fico correndo atrás das coisas como se fosse um segundo trabalho, não consigo nem comer”, conta Jeff.
“É uma grande disrupção que atinge muitas pessoas.
Não entendo onde estamos indo assim como nação”, afirma.

Alex Pereira-Alves tem 47 anos e mora há mais de 16 anos em West Hollywood, na Califórnia, onde atua como segurança e personal trainer
Alex Pereira-Alves/Arquivo Pessoal