Brasileiro A1 começa com mais times e premiações maiores, mas futebol feminino ainda sofre com projetos fugazes

 

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O Brasileirão A1 começa hoje com a partida entre Mixto e Flamengo, às 21h, com mais times, mais jogos, maiores premiações e incentivos à transmissão (TV Brasil transmite o confronto). Porém, há ainda gargalos que excluem o futebol das mulheres do ecossistema estruturado do esporte no país. Ser o braço feminino dos grandes clubes nem sempre é garantia de um projeto consolidado e definitivo. E até a CBF fez vista grossa em relação à exigência de os times da elite masculina serem obrigados a ter uma equipe de mulheres.

No primeiro ano da competição com 18 clubes — em 2027, serão 20 e terá a exigência de que todas as jogadoras sejam profissionais —, por exemplo, dois clubes com vagas garantidas simplesmente encerraram seus times por questões financeiras. O Real Brasília, que estava na primeira divisão desde 2021, anunciou no último dia de 2025 que não disputaria o torneio em virtude da saída do patrocinador máster (BRB). Porém, manteve a equipe masculina principal e de base.

Semifinalista da A2 ano passado, o Fortaleza conquistou uma das quatro vagas na elite ao mesmo tempo em que o time masculino foi rebaixado para a Série B. A SAF, no entanto, decidiu encerrar as atividades da equipe feminina diante da reestruturação financeira com a perda de receitas após o rebaixamento.

O clube até fechou parceria com a equipe do ex-zagueiro Ronaldo Angelim, mas não recebeu resposta favorável da CBF, pois perdeu o prazo de confirmação para jogar o A1. O Fortaleza agora busca outros meios para disputar o campeonato estadual profissional e as competições de base. Segundo o regulamento da entidade, o futuro time feminino não poderá disputar nenhuma competição da entidade este ano e tentará vaga na A3 via o Cearense.

Ao longo dos últimos anos, tem sido comum os chamados clubes de camisa reduzirem orçamento das equipes femininas (o Flamengo reduziu em 40% para este ano com o argumento da dificuldade de obter receitas próprias), reestruturarem os departamentos com demissões em massa e o encerramento de times profissionais ou de base (o Cruzeiro desistiu de competir o Brasileiro Sub-20 e vai retomar o Sub-17 por questões estratégicas).

— A Ferroviária, que mantém seu time feminino bem independente de se o masculino está na Série B ou D, ainda é um ponto fora da curva. Casos como o do Fortaleza são comuns. O Ceará desistiu da A2 em 2024, o Sport tentou desistir da A1 em 2019. Fora a tolerância quase displicente com resultados que não seriam aceitáveis no masculino, como o Atlético-MG rebaixado tendo feito apenas um ponto em 2024. Tudo isso implica numa existência muito mais por obrigatoriedade do que por vontade própria — diz Tais Viviane, do site Planeta Futebol Feminino.

Carine Bosetti será a primeira técnica do time feminino do Mirassol

Divulgação/Mirassol

Mirassol monta time feminino

Desde 2019, a CBF seguiu os passos da Conmebol e implementou a obrigatoriedade de o clube manter um time feminino para a participação na Série A. O objetivo era dar um empurrão no desenvolvimento do futebol das mulheres no país e no continente. Porém, em 2025, o Mirassol subiu de divisão e disputou o Brasileirão sem ter uma equipe feminina.

A conquista da vaga na Libertadores em 2026, contudo, fez o clube do interior paulista correr contra o tempo para se adequar às exigências da Conmebol — lá se exige um time profissional e um de base para jogar a Libertadores ou a Sul-Americana. Apenas em janeiro, o Mirassol anunciou a criação do departamento feminino, com Rafaela Esteves, ex-Corinthians, à frente da gestão do projeto. Nesta semana, foi a vez de Carine Bosetti ser anunciada como técnica.

Nem CBF nem Mirassol explicaram a participação do time masculino na Série A sem o cumprimento da exigência que consta no regulamento de licenciamento dos clubes.

Até mesmo projetos estruturados, como os do Corinthians (atual campeão da Libertadores) e do Palmeiras (atual campeão brasileiro), finalistas da Supercopa do Brasil cuja premiação foi de R$1 milhão para a equipe alviverde, encontram percalços no desenvolvimento do futebol feminino.

Após a conquista, a presidente do Palmeiras, Leila Pereira, afirmou que os custos de mandar partidas no Allianz Parque significam gastos que o feminino, com receitas menores, não arca como no masculino. É necessária uma receita efetiva maior para manter a equipe com estabilidade financeira.

—A valorização do futebol feminino é uma questão de cultura. É um conjunto de ações. Precisamos melhorar essa parte financeira. A receita não é muito grande, principalmente pela televisão — diz Leila.

Este ano, a CBF vai pagar R$ 20 mil aos times cujos jogos forem transmitidos nacionalmente, fora os R$720 mil pela participação na primeira fase.

— A sustentabilidade do futebol feminino passa por fatores que vão além dos clubes. É preciso ampliar público, melhorar datas e horários de jogos e criar condições para que as marcas se aproximem. Quanto maior for a visibilidade, maior a capacidade de geração de receita própria. É um processo que ainda tem desafios, mas o desenvolvimento da modalidade é irreversível — afirma Ivandro Morbach, vice-presidente do Conselho de Gestão do Internacional.

Em nota, a CBF afirmou que tem ampliado os investimentos e fortalecido acordos comerciais e de direitos de transmissão a fim de dar maior sustentabilidade ao ecossistema do futebol feminino. No entanto, reiterou que a responsabilidade pelo desenvolvimento contínuo da modalidade é compartilhada.

“Os clubes são protagonistas nesse processo. É imprescindível que assumam o futebol feminino como parte integrante e estratégica de seus projetos esportivos, independentemente das oscilações de resultados do futebol masculino”.