Brasil vira moda no mundo, e parte dos brasileiros não adere à febre; entenda
Era plena madrugada do último domingo, e eu me achando por já ter me adequado, há tempos, à moda do momento: o Brasil. A consagração do filme “O agente secreto” e do ator Wagner Moura no Globo de Ouro veio para confirmar isso. Não é de hoje que o mundo tem olhado para a gente. O que fica claro é que não somos apenas tendência. Tornamo-nos referência. E nosso destaque no cenário cinematográfico internacional, depois do feito de “Ainda estou aqui” e de Fernanda Torres, em 2025, é apenas uma amostra de como somos bons e singulares no nosso jeito de ser e de fazer.
Ainda que você, que me lê, só veja blockbusters e tenha nas redes sociais sua principal fonte de entretenimento, é preciso dar o braço a torcer: até os influenciadores gringos se renderam e se deixam seduzir pelos atrativos que só a gente tem. Sigo alguns deles: Nick no Brasil, originalmente inglês; Gringa do Alaska, americana; e Nino Fallard, francês. Acho interessante que todos mostrem nossas belezas naturais e nossas comidas. Mais curioso, no entanto, é quando falam dos costumes corriqueiros como um diferencial. O que os atrai — e, de algum modo, os fez adotar o país para morar — é o nosso modo de viver, a maneira como lidamos com os outros e com a vida: lugares e programas animados, com música na rua; rituais e crenças em comemorações como a do Ano-Novo; cumprimentos com beijinhos em vez de um frio aperto de mão; conversa simpática com desconhecidos em qualquer lugar… Acho que é aquela coisa que chamam de borogodó.
Kiko, leitor, me escreveu na semana passada tecendo elogios à coluna em que falei do Rio de Janeiro e destacando essa “febre” brasileira mundo afora. Ele me lembrou da norte-americana que descobriu as obras de Machado de Assis e viralizou na internet. Depois disso, ela também compartilhou ter lido Clarice Lispector e ficado incrédula com nossa literatura. Nossas riquezas não são pontuais nem esporádicas. São múltiplas e permanentes.
E plurais, muito além do que produzimos e experimentamos aqui no eixo Rio–São Paulo. Eu nem sei de onde o Kiko é. Não sei se, necessariamente, compartilhamos os mesmos gostos ou as mesmas visões políticas. Mas a sensibilidade de nos emocionarmos com o que temos de mais bonito nos uniu.
Quando Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho enfatizam de onde vêm em seus discursos de agradecimento pelo feito alcançado, eles dão ainda mais peso às próprias conquistas. Porque há, claro, o reconhecimento do talento individual. Mas eles sabem que representam milhões de nós. Num palco, num evento exibido para o mundo inteiro, são o próprio Brasil.
Por isso eu só lamento aos que teimam em menosprezar a cultura brasileira, aos que insistem que o que temos e fazemos aqui é inferior ao que existe lá fora... Lamento pelos que torcem contra, pelos furiosos que queimam chinelos, enquanto as lojas desses mesmos chinelos estão lotadas de estrangeiros, querendo vestir Brasil dos pés à cabeça. Na real, desejando ser um de nós.
Deve ser muito triste ver o Brasil vibrante, aplaudido de pé, e não conseguir festejar junto. Deus me livre desse rancor, e que ele não nos roube a capacidade de celebrar o que somos.
Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br
