Brasil tenta ocupar posição estratégica entre EUA e China

 

Fonte:


Com presença maciça de CEOs, empresários, investidores e presidentes de conselhos de administração, a terceira edição do “Summit Valor Brazil-USA” apontou os caminhos que o Brasil deve perseguir para aproveitar o momento de destaque em comparação a outros mercados emergentes, mas também os desafios que o país precisa enfrentar. O evento foi realizado ontem no Hotel St. Regis, durante a Semana do Brasil em Nova York.

Summit Valor Brazil-USA: EUA e Brasil devem ampliar cooperação em segurança regional, diz senador republicano

Em Nova York: Líderes debatem geopolítica, comércio e IA

Uma das vantagens apontadas pelos painelistas foi o fato de a política externa brasileira manter-se não alinhada automaticamente a grandes potências, em um momento de crescente disputa entre Estados Unidos e China. Nesse contexto, a exploração de minerais críticos tem o potencial de mudar a visão que outros países e investidores estrangeiros têm do Brasil. Por outro lado, também ficou evidente que resolver a situação fiscal é visto como crucial para a atração de capital.

Além do desenvolvimento e da aplicação de uma Inteligência Artificial (IA) responsável, os painéis também discutiram o cálculo político do presidente Donald Trump envolvendo as eleições de meio de mandato nos EUA e do pleito presidencial no Brasil em outubro, assim como as mais recentes pesquisas de intenção de voto no Brasil.

— A relação diplomática mais antiga do Brasil é com os Estados Unidos, existe uma identificação cultural grande. Não são economias complementares, o que pressupõe disputas em alguns segmentos, mas há espaço para evoluir e estreitar essa parceria, no que cada um faz de melhor, explicitando ao máximo o que é complementar — comentou o CEO da Editora Globo e Sistema Globo de Rádio, Frederic Kachar.

Linha do meio

Maria Fernanda Delmas, diretora de redação do Valor, citou o aumento da importância da relação bilateral.

— A relação entre Brasil e EUA ganha uma importância renovada, não apenas pelo peso histórico dessa parceria, mas pelo seu potencial diante de temas que vão estar no centro das decisões econômicas nos próximos anos: comércio, energia, minerais críticos, finanças, segurança e atuação regional na América Latina.

As relações entre os dois países terão este ano dois testes importantes: as eleições presidenciais em outubro no Brasil e a disputa pelo Congresso americano, em novembro.

Os dois países têm em aberto negociações relativas a tarifas impostas por Trump e a minerais críticos cobiçados pelos EUA e abundantes no território brasileiro. Como os dois lados vão lidar com seus interesses e desacordos, e qual será o papel do Congresso na relação bilateral — além do possível papel de Trump nas eleições brasileiras — foram alguns dos temas tratados durante o painel de abertura.

— Tudo o que vai acontecer na relação entre EUA e Brasil vai depender das eleições em ambos os países — disse Joe Borelli, diretor-executivo do Chartwell Strategy Group, que participou do painel “Inside Washington: Como o Congresso Americano Molda as Relações com o Brasil”, mediado por Flávia Barbosa, editora-executiva dos jornais O GLOBO e Extra.

Diplomata: Brasil é 'mediador' e precisa ampliar influência no cotidiano dos EUA

Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniram na semana passada na Casa Branca. Na mesa, temas como tarifas, comércio, minerais e combate ao crime. Embora de campos ideológicos opostos, os dois têm mostrado ter uma relação amistosa. No entanto, tanto Borelli quanto Mary Marsh, sócia principal do Dewey Square Group, chamaram atenção para o fato de que, contrariando as expectativas, ambos não concederam juntos uma entrevista coletiva depois do encontro.

Para especialistas que participaram da reunião, o Brasil está bem posicionado no atual ambiente de intensificação dos conflitos geopolíticos, mas também enfrenta desafios para aproveitar essas oportunidades a tempo. Além disso, para atrair investimentos e capitalizar esse potencial, o país precisa superar entraves regulatórios e fiscais.

O Brasil é um país que caminha pela linha do meio e não vai se alinhar completamente nem aos EUA, nem à China, afirmou Thomas Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil e ex-subsecretário de Estado para Assuntos Políticos e do Hemisfério Ocidental.

A questão é se esse não alinhamento pleno que o Brasil persegue, colhendo vantagens desse papel intermediário, poderá ser mantido e por quanto tempo, apontou Heather Conley, pesquisadora do American Enterprise Institute.

— Manter a autonomia estratégica é um desafio. É algo com que a Europa se confronta o tempo todo: é bastante caro, em termos orçamentários, defender essa escolha.

Brian Winter: Interesse em terras raras mudou postura dos EUA ante o Brasil, diz vice-presidente de políticas da Americas Society

Minerais críticos

O interesse do presidente americano no Brasil passa pela necessidade de reduzir a dependência dos EUA da China, principalmente em minerais críticos, segundo Conley.

— É um desafio e uma oportunidade, estamos falando de um setor em que o Brasil pode se destacar — afirmou ela, ressaltando que essa é uma oportunidade que precisa ser aproveitada imediatamente. — Temos uma janela finita para desenvolver resiliência e diversificação em relação a esse desafio de longo prazo.

Nesse sentido, Brian Winter, vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas, disse que não foi coincidência a reunião ter acontecido uma semana antes da viagem de Trump a Pequim.

— Grande parte da discussão parece ter se concentrado, novamente, em terras raras — afirmou, acrescentando que o tema foi fundamental para a mudança de postura dos EUA em relação ao Brasil.

O evento foi uma realização do Valor Econômico, apresentado pela XP, com parceria estratégica da Amcham, patrocínio master da JBS e da Philip Morris Brasil, patrocínio de Gerdau, Alelo, JHSF, Prefeitura do Rio de Janeiro e Prefeitura de São Paulo, apoio de SP Negócios, Aegea, Shell, Cargill, Firjan, Eletromídia, Unipar, Bichara Advogados, Governo do Rio Grande do Sul e Governo do Estado de São Paulo; e com Latam Airlines como companhia aérea oficial.